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Que língua falava Jesus?

Que língua falava Jesus? A resposta é espontânea: o aramaico; mas a questão é mais complicada. No século I, na Palestina, falavam-se quatro línguas: latim, grego, hebraico e aramaico. Deixemos ficar o latim, dado que era adotado apenas pelas autoridades romanas para os atos políticos ou administrativos. As únicas inscrições em latim foram encontradas em Cesareia Marítima (onde residia o governador) e em Jerusalém.

Ao contrário, após as conquistas de Alexandre Magno, o grego tinha-se tornado aquilo que é hoje o inglês: a língua de comunicação universal. As inscrições nas moedas cunhadas sob o reinado de Herodes o Grande são exclusivamente gregas. Em Qumran, cinco por cento dos manuscritos está em grego. Quem quer que concluísse trocas comerciais, ou tivesse relações com não judeus, exprimia-se em grego.

Todas as vezes que, juntamente com a família, peregrinava para Jerusalém, cidade santa mas helenizada, Jesus entrava em contacto com a cultura grega. Para falar com um centurião romano era necessário recorrer a uma língua comum (cf. Mateus 8,5-13). Não é por isso que podemos estar certo que dominasse o grego falado, menos ainda o grego escrito, mas pode-se inferir, isso sim, que o conhecia ao ponto de o compreender e fazer-se compreender. Ao tempo do seu processo poderia ter conversado em grego com Pôncio Pilatos (cf. João 18,28-29,12), mas é verosímil que estivesse presente um intérprete.

E o hebraico? A língua sagrada, a língua das Escrituras, tinha sido progressivamente reservada ao uso escrito mais do que falado. Foi objetado que a biblioteca de Qumran, que continha na maioria textos hebraicos, prova que no século II praticava-se um hebraico vivo. Todavia, a multiplicação dos comentários à Escritura (“targumim”) em aramaico, inclusive em Qumran, enfraquece a ideia de que, ao tempo de Jesus, sobrevivesse um hebraico popular.

Lia o hebraico? A cena da sinagoga de Nazaré (Lucas 4,16-30), onde Jesus desenrola o rolo de Isaías e lê antes de pregar, faz pensar que sim. Infelizmente, a representação poderia ser uma composição tardia de Lucas baseada no seu conhecimento da liturgia sinagogal: a historicidade não é garantida. Pelo contrário, Jesus que prega na sinagoga e discute com os escribas da interpretação da Torá torna verosímil que lesse o hebraico bíblico, pois em caso contrário não teria sido tomado a sério. O hebraico era a língua da memorização dos textos bíblicos.

Em Israel, como no Próximo Oriente, no primeiro século a língua corrente é o aramaico. Jesus, obviamente, conversa com os seus interlocutores, prega e ensina em aramaico. O Novo Testamento conserva traços de expressões idiomáticas: “abbà” («pai») para dirigir-se a Deus (cf. Marcos 14,36; Gálatas 4,6), “talitàcum” («menina, levanta-te») à filha de Jairo (cf. Marcos 5,41), “effatà” («abre-te») a um surdo-mudo, e sobretudo o seu grito na cruz em Marcos 15,34: “Eloí, Eloí, lamà sabactàni” («Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?»). Joachim Jeremias elencou, excluindo os nomes próprios, vinte e seis termos aramaicos atribuídos a Jesus dos Evangelhos ou de fontes rabínicas.

Resumindo, Jesus era trilingue. Falava um pouco de grego para dirigir-se aos estrangeiros e aos romanos, lia as Escrituras em hebraico e falava o aramaico, sua língua materna.


 

Daniel Marguerat
Biblista
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Jesus ensina no templo" (det.) | Jan van Orley | 1716-1730
Publicado em 24.11.2020

 

 
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