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Que espaço para a arte contemporânea na Igreja católica?

«Falar de uma experiência estética é muito próximo de falar de uma experiência mística. Tiram-se umas palavras e põem-se outras, mas são muito semelhantes. Por isso, há aqui um ponto de intersecção entre as duas realidades. Já tive experiências verdadeiramente impressionantes com objetos de arte que não pretendiam provocar nenhuma emoção religiosa. Às vezes, até são contrários.»

Esta é uma das perspetivas sugeridas na conversa entre João Sarmento, padre, jesuíta, artista, e Joana Valsassina, curadora, da Fundação Serralves, apresentada na mais recente edição da revista “Brotéria”, dedicada aos seus 120 anos.

Intitulado “Que espaço para a arte contemporânea”, o diálogo, moderado por Pedro Franco, do Conselho de Redação da publicação de cristianismo e cultura editada pela Companhia de Jesus, começa por se deter nos objetivos que regem um museu e uma galeria de arte e avança para a relação destas instituições com os visitantes das suas exposições.

A conversação prossegue com as intenções inerentes à galeria de arte contemporânea “Brotéria”, situada em Lisboa; é desta secção que propomos um excerto.

No âmbito dos 120 anos da revista dirigida por José Frazão Correia, SJ estão em agenda um conjunto de iniciativas, como conversas, exposição, música, performance e visita guiada.



Essa é uma das grandes linhas da galeria: ter percebido que a “Brotéria”, na sua tradição de pensamento humanístico, filosófico e teológico vertido em texto, poderia ou deveria ocupar-se de uma outra grande dimensão do conhecimento, que é a do conhecimento feito, primeiramente, pelos sentidos



“Que espaço para a arte contemporânea?”
In “Brotéria” 120 anos

 

Pedro Franco: No que diz respeito à Brotéria, quais são as suas linhas condutoras?

 

João Sarmento: Quando pensamos no que se faz em Portugal, inspiramo-nos nos programas de itinerâncias, mas por uma razão muito diferente, já que estamos no centro da cidade. A Brotéria não começou tendo as artes plásticas como centro concetual. O centro geográfico da Galeria é uma coisa — o centro de Lisboa – mas no projeto Brotéria, enquanto revista, como missão da Companhia de Jesus e da Igreja, as artes plásticas tinham um lugar de marginalidade total, ou quase total. O mundo artístico e o mundo eclesial, da fé, da história da Igreja, sofreram uma rutura muito grande com o modernismo. Para o ambiente da igreja e, provavelmente, para os crentes, o que acontece no universo da arte contemporânea é um universo totalmente marginal ou muito marginal. Durante muito tempo, a Brotéria ocupou-se essencialmente do universo da literatura, por exemplo. Temos uma biblioteca muito grande, construída por jesuítas que, por causa da revista, se dedicavam a ler, a receber os livros que saíam (abrem-se livros [da biblioteca] e encontram-se poetas contemporâneos a dedicarem os seus livros à Brotéria ou a algum dos jesuítas da Brotéria). O universo da poesia contemporânea foi sendo contemplado e olhado no “mapa de interesse” da Brotéria, mapa esse que é sinal de uma ideia de conhecimento eclético, que tem os seus desafios. Já as artes plásticas não tinham esse mesmo lugar. Se analisarmos os índices da revista, percebemos que, em 120 anos, muito pouco foi tratado sobre o que ia acontecendo nas artes plásticas em Portugal. Não há quase nada, mesmo no campo da arquitetura e da arquitetura religiosa moderna. Há um lugar de esquecimento ou de não interesse nessa área. Ora, de repente, com este novo projeto cultural e a nova casa onde a Brotéria se vem instalar, percebeu-se que o lugar de uma galeria podia fazer sentido. As coisas foram acontecendo, o projeto foi crescendo e foi-nos surpreendendo.



Não sendo a relação da Igreja e do universo da arte contemporânea uma relação de particular proximidade, vejo este gesto de abertura para a comunidade em que eu me insiro - ou para uma das comunidades em que eu me insiro, porque acho que todos nos inserimos em várias comunidades - como um gesto generoso e, de alguma forma, de encontro e de interesse pela diferença



Se há uma descentralização da arte e da produção contemporânea no programa de Itinerâncias da Fundação de Serralves, do qual a Joana é responsável, aqui [na Brotéria] há uma recentralização, no sentido de dar a ver a um público e a um espaço, que é assumidamente crente, enquanto espaço da Igreja, algumas das coisas que se fazem na contemporaneidade. Acaba por ser uma galeria de arte contemporânea dentro de um espaço da Igreja católica. Este tipo de galerias — os jesuítas têm, pelo menos, umas cinco no mundo inteiro — não é um fenómeno muito comum (falo de galerias que se ocupam de arte contemporânea, não de espaços museológicos que tenham que ver com a história e o património da Companhia antiga ou com arte sacra, que serão bastantes mais).

 

PF: Qual a intenção de uma galeria de arte contemporânea como esta?

 

JS: Quando acabei por ficar à frente deste projeto, sendo que o espaço físico à disposição não tinha ainda um destino óbvio, não era claro que ficasse dedicado à arte contemporânea. Era um espaço que podia servir para expor objetos ligados à história da Companhia de Jesus, por exemplo, fazendo parecerias com outros museus. Tinha a possibilidade de ser um espaço expositivo num sentido muito abrangente. Ora, eu sou formado em escultura e, para mim, a arte é aquela que se faz hoje. A arte que me interessa e com a qual eu me relaciono é a arte que desde miúdo via em vários museus e, em particular, no Museu de Serralves. É a esse universo – há muitos universos de arte e de arte contemporânea, muitíssimos universos – que vamos beber. Interessamo-nos por artistas que nos alertam para coisas que um texto da revista, a literatura ou os conhecimentos científicos, filosófico, humanístico não conseguem fazer. A arte contemporânea, a arte plástica, ocupa-se de sentidos particulares dos quais outros não se ocupam.



O cristianismo não se organiza fora do espaço e do tempo e, muito menos, fora do tecido cultural em que se encontra. Não existe cristianismo desencarnado, que caia como um meteorito num espaço “neutro”. Isso não existe. Essa religião fora do seu tempo e do seu espaço, fora das suas problemáticas, fora dos dramas e das riquezas do mundo de hoje, não faz qualquer sentido. Por isso, não há antagonismo entre o mundo e o cristianismo



Essa é uma das grandes linhas da galeria: ter percebido que a Brotéria, na sua tradição de pensamento humanístico, filosófico e teológico vertido em texto, poderia ou deveria ocupar-se de uma outra grande dimensão do conhecimento, que é a do conhecimento feito, primeiramente, pelos sentidos. Pelo sentido da visão, da imersão do corpo num espaço. Esta também é produção de conhecimento. E, se a Brotéria quer estar atenta à produção de conhecimento, faz sentido que aquele que é produzido pelas artes plásticas esteja contemplado nesta casa de cultura.

De que maneira é que isto pode criar uma comunidade? Não sei se cria propriamente uma comunidade com as pessoas que giram à volta destas exposições. Também não será este o nosso objetivo. Não estamos focados numa comunidade fixa, que aprecie as exposições. Tal como um artigo da revista sobre um determinado tema, queremos, antes, abrir um espaço, começando por trabalhar alguns temas diretamente com os artistas e levá-los, eventualmente, a um grau maior de reflexão, quer teórico e plástico, quer concetual e formal, trazendo para o trabalho a tradição cristã, o pensamento filosófico, conjugado com acontecimentos formais, plásticos, visíveis. Em algumas exposições, isso acontece de uma forma mais clara e mais conseguida, noutras menos.



O facto de o universo artístico se ter distanciado, ou dos crentes se terem distanciado daquilo que é a produção artística e de se terem alheado dela no próprio crescimento na sua experiência religiosa, não pode ser aceite sem sobressalto



Joana Valsassina: Do ponto de vista de quem não tinha contacto com a Brotéria nem com a Companhia de Jesus antes deste espaço abrir - que é também um ponto de vista exterior à Igreja Católica, com uma perspetiva crítica em relação à instituição - entendo a vontade de servir uma comunidade abrangente e fluída, que inclua as pessoas que aqui vivem, os turistas que aqui passam. Desde logo, a generosidade de abrir um espaço tão bonito a quem simplesmente procura um lugar para trabalhar, estudar, etc. é um movimento de abertura muito significativo. E não sendo a relação da Igreja e do universo da arte contemporânea uma relação de particular proximidade, vejo este gesto de abertura para a comunidade em que eu me insiro - ou para uma das comunidades em que eu me insiro, porque acho que todos nos inserimos em várias comunidades - como um gesto generoso e, de alguma forma, de encontro e de interesse pela diferença. Será importante referir isto, porque, às vezes, quando estamos no centro da uma comunidade, é difícil perceber quais são exatamente os seus contornos. É importante criar e viver uma comunidade de proximidade, com a qual partilhamos afinidades, mas pode tornar-se rapidamente um “silo”, uma comunidade que fala sobre si própria para si própria. A comunicação com quem vê diferente é um grande desafio.



O interesse artístico contribuiu de uma forma muito particular para o crescimento da sua experiência crente. A arte plástica, a arte musical, a arte teatral, a arquitetura, têm um papel particular, sui generis. Não se consegue perceber a história do catolicismo sem conhecer a história da literatura, do teatro e da arquitetura, das artes visuais e da música. Não é possível. Estão intrinsecamente ligadas! Quem é que foi mais teólogo: Bach ou o Papa da sua época?



PF: Emerge um entendimento de criar comunidade um pouco diferente daquilo que julgaríamos à partida. Não é um conjunto de pessoas especializadas, mas que se forma porque se sente intrigada por uma proposta feita.

 

JS: Numa bienal de Veneza, o Vaticano teve um espaço enquanto Estado. Na altura, eu estava nas Belas-Artes, já como jesuíta, a estudar. Numa conversa, um dos professores disse-me: «não sei o que é que está na cabeça de quem rege e de quem tem estas ideias da parte da Igreja, mas fui à bienal de Veneza, entrei no pavilhão do Vaticano e fiquei muito surpreendido. Vi coisas que ainda não tinha visto, das quais sou apreciador, que sigo há muitos anos e que estavam a ser expostas numa curadoria organizada pelo Vaticano. Fiquei muito surpreendido com isso. Agora estou aqui e tenho um aluno que está a fazer formação para ser padre». A pergunta parecia ser esta – e era uma pergunta genuína: “o que é que pretendem com isto? querem apoderar-se outra vez do mecenato e das artes? acham que isto é uma boa ferramenta para a evangelização, para a propagação da sua mensagem?” É um pensamento completamente lícito. Mas eu pensava: faz sentido o que está na preocupação deste artista, deste professor não crente, ateu, com tantas reservas e críticas em relação à instituição da Igreja? Se formos ao pensamento cristão a partir do final dos anos 60, os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, ficou muito claro que aquilo que interessa verdadeiramente à humanidade tem obrigatoriamente de interessar aos cristãos. O cristianismo não se organiza fora do espaço e do tempo e, muito menos, fora do tecido cultural em que se encontra. Não existe cristianismo desencarnado, que caia como um meteorito num espaço “neutro”. Isso não existe. Essa religião fora do seu tempo e do seu espaço, fora das suas problemáticas, fora dos dramas e das riquezas do mundo de hoje, não faz qualquer sentido. Por isso, não há antagonismo entre o mundo e o cristianismo. Não pode haver um antagonismo, simplesmente porque não existimos fora desse lugar. O facto de o universo artístico se ter distanciado, ou dos crentes se terem distanciado daquilo que é a produção artística e de se terem alheado dela no próprio crescimento na sua experiência religiosa, não pode ser aceite sem sobressalto. O interesse artístico contribuiu de uma forma muito particular para o crescimento da sua experiência crente. A arte plástica, a arte musical, a arte teatral, a arquitetura, têm um papel particular, sui generis. Não se consegue perceber a história do catolicismo sem conhecer a história da literatura, do teatro e da arquitetura, das artes visuais e da música. Não é possível. Estão intrinsecamente ligadas! Quem é que foi mais teólogo: Bach ou o Papa da sua época? Quem é que fez mais teologia? A arte provoca uma relação com a transcendência, apesar de não ter que estar agarrada a isso, já que, na verdade, não tem de estar agarrada a nada: não é subserviente a nenhum conceito, a nenhuma ideologia. Provavelmente, nem sempre os crentes compreenderam essa liberdade e essa diferença como riqueza. Sentem-na, talvez, mais como afronta à própria fé.



Para quem se vai preocupando com alguns princípios cristãos, existem imensas coisas da produção artística contemporânea que dão imenso a quem anda a pensar e a viver experiências segundo o cristianismo, que aportam imenso



Tal como há jesuítas ligados à física e jesuítas cientistas (de resto, a Brotéria nasceu com jesuítas botânicos e zoólogos), não espantará que haja outros ligados às artes plásticas. A primeira exposição nesta casa foi buscar ao primeiro editorial da Brotéria, de setembro de 1902, uma frase em latim de Santo Agostinho que afirma que tanto os anjos como os vermes fazem parte da grande criação e que nada é contrário à força, à beleza, ao composto da criação. O verme não contradiz o anjo, nem o anjo o verme. Desta forma, queriam justificar o porquê de olharem para o minúsculo, de estudarem os vermes. No que diz respeito ao mundo da arte, a nossa experiência, através da galeria, visa perceber o nosso contexto a partir de um olhar não religioso ou não confessional, mas que é espiritual, de algum modo, aberto à transcendência.

 

PF: Posso dar o exemplo concreto de algo que aconteceu aqui na "Brotéria" com a exposição "Tantas vezes digo ao orvalho: sou como tu". O ponto de partida era a ideia de ecologia integral, que é uma proposta que parte da mais recente Doutrina Social da Igreja, com raízes bíblicas, mas que foi explorada a partir da preocupação com o bem comum e a ecologia, expondo obras de artistas não necessariamente confessionais.



Os artistas aportam, de facto, coisas muito significativas à experiência crente e ao trabalho teológico. Mas o objetivo, e isto é muito importante, não é usá-los para ilustrar conceitos, como quem quer fazer uma exposição sobre ecologia e, para isso, vai buscar e usar trabalhos de artistas só para servirem como representações das suas próprias ideias



JS: Claro! Para falar de ecologia integral, tendo presente o texto do Papa Francisco que inspirou essa exposição, a Encíclica Laudato si’, que é um cântico à criação e à natureza com uma crítica muito forte a opções do nosso mundo ocidental, usámos uma peça e uma séria de fotografias do Alberto Carneiro e uma instalação do Sérgio Carronha. De uma forma muito simples – não é para nos elevarmos mais do que aquilo que é a nossa estatura – considero que contribuímos, não só para um novo imaginário do que é que estas doutrinas estão a querer dizer, como lhes atribuímos novas significações, precisamente porque aqueles artistas trabalham dimensões do que seria uma ecologia integral que, provavelmente, nem o Papa nem as encíclicas teriam em conta. No caso do Sérgio Carronha, há um espaço com inspiração cosmológica, uma coisa muito complexa e muito interessante, próprio de alguém que está mergulhado no problema. A peça do Alberto Carneiro é uma espécie de ponta do iceberg de todo um caminho e de um processo, em que o seu corpo e a natureza foram ganhando simbioses muito importantes e inspiradoras para o pensamento cristão, mas às quais o pensamento cristão não foi sensível durante muitos séculos, como o facto de o corpo ser parte da natureza e não o seu dominador. Os artistas aportam, de facto, coisas muito significativas à experiência crente e ao trabalho teológico. Mas o objetivo, e isto é muito importante, não é usá-los para ilustrar conceitos, como quem quer fazer uma exposição sobre ecologia e, para isso, vai buscar e usar trabalhos de artistas só para servirem como representações  das suas próprias ideias. Isso seria horrível.



Quando falamos na condição humana, na morte e na vida, falamos no que aqui está e no que aqui não está. Na possibilidade de transcendência destes limites. De repente, todos estes temas se cruzam



PF: Como é que tu equilibras, então, a ideia de uma exposição com o próprio trabalho dos artistas, sendo fiel à intenção deles?

 

JS: Percebendo que, sobre um determinado tema, eu tenho uma parte do conhecimento e que os artistas produzem uma outra parte do conhecimento que eu não tenho. Por isso, eles contribuem com mais uma camada. Os artistas que participaram nesta exposição (o Alberto Carneiro já não está entre nós) não tinham lido propriamente o texto do Papa. Não fez parte das suas referências, mas passou a fazer. Das nossas referências, enquanto Brotéria, não fazia parte uma série de coisas que fazem parte das referências deles. No fundo, estamos a encontrar-nos num tema – na verdade, este foi um tema em que foi bastante fácil encontrarmo-nos, mas há outros que são mais difíceis. São passos que damos para um conhecimento mais esclarecido, em que ganham ambas as partes. Portanto, não há uma instrumentalização. Para responder a esse meu professor: o que quer que aconteça e que seja entusiasmante e construtivo, interessa-nos a nós, aos crentes, em si mesmo.

 

JV: O que estás a dizer vai ao encontro do tema da abertura que referia antes e que é mais do que coexistência. Creio que o que também afasta o vosso projeto de uma ideia de instrumentalização é o caráter experimental daquilo que a galeria da Brotéria vai desenvolvendo. É fundamental que existam diferentes plataformas para que a experimentação aconteça.



Sobre um determinado tema, eu tenho uma parte do conhecimento e que os artistas produzem uma outra parte do conhecimento que eu não tenho. Por isso, eles contribuem com mais uma camada



PF: Uma outra pergunta que surge com a nossa conversa tem que ver com a oposição entre efemeridade e permanência, que me parece muito interessante na arte contemporânea.

 

JS: Lembro-me de ser miúdo e de estar no Museu Soares dos Reis com uma professora, a fazer uma coisa com materiais que não iam durar. A professora dizia: «hoje em dia, na arte, já não interessa que as coisas durem». Este aspeto é importante porque, para quem se vai preocupando com alguns princípios cristãos, existem imensas coisas da produção artística contemporânea que dão imenso a quem anda a pensar e a viver experiências segundo o cristianismo, que aportam imenso. Falar de uma experiência estética é muito próximo de falar de uma experiência mística. Tiram-se umas palavras e põem-se outras, mas são muito semelhantes. Por isso, há aqui um ponto de intersecção entre as duas realidades. Já tive experiências verdadeiramente impressionantes com objetos de arte que não pretendiam provocar nenhuma emoção religiosa. Às vezes, até são contrários. Uma vez, numa visita a uma exposição no Palácio de Cristal, em Madrid, deparei-me com uma instalação da Doris Salcedo da qual, à partida, não se via nada. Depois, tirávamos os sapatos e caminhávamos (no Palácio de Cristal todo de vidro e ferro, uma coisa impressionante...). Do chão, iam saindo gotas de água que formavam nomes que voltavam a desaparecer. Mas formavam nomes perfeitos. Conseguia-se ler os nomes que apareciam em várias partes do plano. Apareciam, desapareciam; apareciam num sítio e desapareciam noutro. O chão nunca ficava molhado. Era uma coisa tecnicamente esplendorosa, muito bem feita muito bonita, de uma limpeza enorme; escrevia-se com água. Concetualmente, eram nomes de mortos no Mediterrâneo. Se quisermos olhar para aquilo como um lugar de memorial ou de ritualização fúnebre, havia ali algo muito elevado, a todos os níveis. E se pensarmos bem, desde as pirâmides até aos túmulos celtas, esta dimensão foi sempre uma preocupação que acontecia misturada com a arte; a arte e o objeto fúnebre estavam misturados. Os primeiros artefactos artísticos que encontramos vêm desse lugar.



Esta relação com a realidade também é um assunto muito presente na arte contemporânea, que, no fundo, é a eterna relação da arte com a vida



JV: É o contrário do “escrito na pedra”. São nomes absolutamente efémeros.

 

JS: E a artista não estava a querer fazer uma coisa espiritual. Queria trabalhar a memória, o que é muito coerente com o trabalho que vai fazendo. Há morte, mas também há um toque de violência, de dor e de opressão.

Quando me perguntam “mas, então, vocês expõem arte sacra?”, eu penso: o que é arte sacra?

A instalação da Doris Salcedo é arte sacra. Ou melhor, aquele espaço era absolutamente sacro. Acho que era um lugar onde ninguém atenderia um telefonema, onde ninguém teria uma conversa banal sobre o que vai comer ao jantar. Não se conseguia, mesmo que as pessoas não soubessem o que era.

 

PF: Veio-me à memória a performance e exposição da Grada Kilomba no MAAT, O Barco”, que era uma espécie de canto fúnebre sobre todos os séculos de escravatura. Foi, de facto, um momento solene.

 

JV: Quando falamos na condição humana, na morte e na vida, falamos no que aqui está e no que aqui não está. Na possibilidade de transcendência destes limites. De repente, todos estes temas se cruzam. Antes de termos esta conversa, li uma entrevista que o Papa Francisco concedeu às revistas culturais jesuítas na Europa. Achei interessante que tivesse dito que as revistas jesuítas não deveriam comunicar simplesmente ideias, mas que deviam focar-se na experiência e na realidade. Podem parecer mundos muito distantes, mas, na verdade, talvez estejamos a falar do mesmo. Digo isto porque tem que ver com a arte que faz sentido para mim, que me toca e me comove, seja do ponto de vista sensorial, emocional ou cerebral. O Papa referia que, quanto mais escandalosa for a realidade com a qual estamos em contacto, tanto melhor. É essa que nos comove, que nos toca e que nos põe em movimento. Esta relação com a realidade também é um assunto muito presente na arte contemporânea, que, no fundo, é a eterna relação da arte com a vida. Não leio, habitualmente, aquilo que o Papa escreve, mas, quando o li neste contexto, pensei: “de facto, é isto.”


 

João Sarmento, SJ, Joana Valsassina, Pedro Franco
In Brotéria - 120 anos
Imagem: "Palimpsesto" (det.) | Doris Salcedo, 2013-2017 | Fotografia: Juan Fernando Castro | D.R.
Publicado em 14.09.2022

 

 

 
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