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«Que devemos fazer?»

O Evangelho do passado domingo apresentava-nos a vocação de João Batista e a sua missão. Como aconteceu para os profetas, também sobre ele “cai”, isto é, «a ele foi dirigida a Palavra de Deus», enquanto habitava no deserto. João é o profeta que não só transporta a Palavra (“pro-phétes”) ao povo, mas é aquele que veio para a indicar a própria Palavra de Deus já presente, feita carne em Jesus de Nazaré, seu discípulo. Na fé João sabe que a Palavra de Deus não cairá sobre Jesus, não lhe será dirigida, porque Ele é a própria Palavra de Deus: o precursor anuncia por isso ao povo a conversão em vista deste encontro e do possível reconhecimento de Jesus.

O que pede João na sua pregação? O acontecimento que se cumpre é extraordinário, único em toda a história: Deus está entre os homens, homem entre os homens, de tal modo homem que precisou de um mestre (João), de uma comunidade de irmãos (a do Batista) para «vir ao mundo» na sua subjetividade adulta capaz de tomar e dirigir a Palavra. Como tinha sido gerado por Maria, educado por ela e por José, assim precisou de um “tempo obscuro” no deserto para ser iniciado à sua missão. Sim, tudo acontece na simplicidade da vida humana quotidiana, e assim sendo também o que o Batista pede na sua pregação pertence à vida quotidiana. A fim de que o povo seja preparado para o encontro o Aquele que Vem, João não pede para que se façam sacrifícios e holocaustos, não pede para que se vá mais vezes ao templo para participar nas liturgias solenes, para respeitar calendários litúrgicos ou fazer jejuns especiais, mas pede ações humaníssimas. Eis, portanto, as suas respostas às perguntas que as multidões lhe colocavam, perguntas que todo o ser humano, de todas as gerações, renova sempre na história: «Que devemos fazer? O que fazer?».



Nós, cristãos, como todos os homens religiosos, ao contrário, preocupamo-nos demasiadamente com regras de pureza, enquanto que o Evangelho nos pede para nos preocuparmos em partilhar o que temos em casa, aquilo que é nosso, com quem é carenciado: então estaremos na verdadeira pureza, porque agiremos como puros, retos de coração



Antes de tudo, ele diz às multidões: «Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem, e quem tem de comer faça o mesmo». Eis o que é preciso fazer em vista da vinda do Senhor: partilha o essencial, isto é, alimento, roupa, casa. Isto é suficiente para dizer que alguém se converteu, fez “metánoia", mudou a sua vida na iminência do encontro com o Senhor que vem. João espanta-nos porque não pede aquilo que ainda hoje uma certa pregação eclesiástica pede: liturgia, novenas, exercícios pios… Estes, com efeito, são instrumentos, apenas instrumentos para adquirir uma caridade maior, para se ser mais facilmente capaz de partilhar os bens elementares necessários para viver. Esta é a ação que segue a conversão: após ter encontrado Jesus, Zaqueu dará a metade dos seus bens aos pobres, e assim a salvação entrará na sua casa; os judeus de Jerusalém, tornados cristãos, partilharão os bens, e assim nenhum entre eles passará necessidades. Nós, cristãos, como todos os homens religiosos, ao contrário, preocupamo-nos demasiadamente com regras de pureza, enquanto que o Evangelho nos pede para nos preocuparmos em partilhar o que temos em casa, aquilo que é nosso, com quem é carenciado: então estaremos na verdadeira pureza, porque agiremos como puros, retos de coração.

Há, depois, algumas categorias específicas de pessoas, presentes no auditório de João, que lhe põem a seguinte pergunta: «Que devemos fazer?». É o caso dos publicanos, cobradores de impostos em parceria com o poder imperial e frequentadores de pagãos. A eles o Batista não pede coisas extraordinárias, não pede sequer que abandonem as suas profissões, mas que as vivam na justiça. Para estes funcionários tentados pelo abuso de poder, pela vexação financeira, pelo roubo ao exigir os impostos, basta praticar uma grande virtude: a justiça. Também os militares atraídos por João, homem inerme, sem defesa, destinado a ser morto precisamente por eles, executores das ordens dos poderosos deste mundo, de quantos oprimem e dominam a pobre gente e se fazem inclusive chamar de benfeitores. E que pede ele aos militares? Não que desertem, porque na sua função há uma tarefa necessária, a de garantir a liberdade e a ordem de toda a convivência social. Não: pede que renunciem à violência. Como é fácil a violência para quem tem armas, como é fácil fazer denúncias fáceis, como é fácil – dado que os salários são normalmente baixos – prevalecer sobre as pessoas, usando a imunidade profissional concedida à polícia e às forças da ordem: quando se é mais forte, torna-se facílimo esmagar os pobres…



O Senhor está próximo!». Devemos por isso alegrar-nos porque a vinda do Senhor está próxima; porque, ainda que Ele tarde, não mente, e cedo iremos encontrá-lo. Se tivermos esta fé sólida, então a nossa vida fica inundada de alegria e exultação. Haverá porventura alguma coisa de mais feliz do que o encontro com o Senhor Jesus Cristo?



João prega portando uma conversão que pede uma mutação concreta do viver quotidiano, uma mutação que transforme profundamente as relações interpessoais, e ninguém está excluído deste caminho de conversão. Em reação às suas palavras, cria-se um clima de grande expetativa no povo de Israel, ao ponto de surgirem perguntas sobre ele: «Quem é este João? É um profeta? É o Profeta? É Elias redivivo?». Assim que João se dá conta destes pensamentos entre os seus ouvintes, proclama com clareza: «Eu sou apenas alguém que imerge na água, mas eis que vem o mais forte do que eu, de quem não sou digno de desatar as sandálias. Ele imergir-vos-á em Espírito Santo e fogo». Entre as duas imersões, os dois batismos, há continuidade mas também diferenças. Ambos significam espoliação do homem velho marcado pela lógica do pecado e renascimento do homem novo, mas o batismo de João é só uma antecipação do definitivo: um é imersão na água, o outro no fogo do Espírito Santo. Este último Batismo, a imersão operada por Jesus, é aquele que a comunidade dos discípulos receberá no dia de Pentecostes, quando será formado novo povo de Deus mediante a nova aliança, porque a Lei ficará escrita nos corações e o espírito novo habitará um coração novo. E precisamente porque anuncia esta imersão no fogo do Espírito Santo, João, em conformidade às Escrituras às quais obedece, tem de anunciar este Jesus que vem, que é mais forte, que será juiz, separando trigo e joio, justos e injustos.

E como atesta Lucas, «João anunciava ao povo o Evangelho»: já ele, João, anuncia a mesma boa notícia de Jesus. Seja porém dito que este seu discípulo, Jesus, por ele anunciado e apresentado a Israel, desiludi-lo-á ao realizar a sua missão: será diferente e não será aquele juiz que João tinha previsto. Então João enganou-se? A sua pregação foi uma ilusão? Não, mas Deus realizá-la-á só no final dos tempos: por agora cabe a João cumprir toda a justiça, a Jesus cabe anunciar e fazer misericórdia. E João, na prisão, aceita mais uma vez, em plena obediência, renovar a sua aventura da fé. Sim, como dirá Jesus, «entre os nascidos de mulher nenhum é maior do que João».

Não nos esqueçamos, por fim, que este domingo, a metade do tempo do Advento, é chamado de “Gaudete”, da primeira palavra que ressoa para a assembleia ao início da liturgia eucarística. “Gaudete”, isto é, «alegrai-vos», é o convite, melhor, a ordem afirmada pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Filipos: «Alegrai-vos sempre no Senhor; repito-o, alegrai-vos! (…) O Senhor está próximo!». Devemos por isso alegrar-nos porque a vinda do Senhor está próxima; porque, ainda que Ele tarde, não mente, e cedo iremos encontrá-lo. Se tivermos esta fé sólida, então a nossa vida fica inundada de alegria e exultação. Haverá porventura alguma coisa de mais feliz do que o encontro com o Senhor Jesus Cristo? Não, Ele é a alegria, é o nosso futuro, é a vida eterna!


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: wjarek/Bigstock.com
Publicado em 13.12.2018

 

 
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