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Quarta-feira

Neste momento, em cima da minha mesa, há um monte de papéis,
com ideias que vou amarrotando e deixando dormir enrugadas.
O meu interior está a querer ficar lúcido
no meio do pó acumulado na pele das paredes imóveis.
Os pensamentos atravessam os filtros da pandemia
e fervem em caldos de primavera.

Caminho na solidão do encontro
com a tentação de fugir por cidades fechadas.
Estou aqui, mais ou menos escondido, no meio de sombras.

E todas as manhãs, às 7 horas, abro as janelas
para acolher a luz do sol que atravessa a cortina de pinheiros.
Escuto melodias que a natureza traz,
o vento, melros e pardais, pintassilgos, o namorar dos pombos
em sussurros do inconsciente.

Às vezes, parece que não estou aqui,
tudo vem em multidão, em passos trocados.
Fico atento para manter a candeia acesa.
Que a confusão de luzes não ofusque a iluminação das sombras.

Não é só agora que temos oportunidade de sentir o drama da condição humana.
Sabemos da pandemia das indústrias das armas e da guerra;
temos nos olhos as suas vítimas, a guerra da Síria, a angústia dos refugiados,
(em 2019, 77 milhões de pessoas, foram vítimas da insegurança alimentar aguda
provocada pela guerra);
lembramos os que são afetados e mortos pela malária,
(em 2019, a malária atingiu 228 milhões de pessoas
e matou cerca de 405 mil, principalmente na África Subsaariana;
a malária mata uma criança a cada dois minutos);
sentimos a violência das cidades do Brasil;
os camponeses assassinados e expulsos das suas terras;
o desrespeito e a insegurança criados pelos políticos sem sentido do bem comum;
a insensatez do ser humano em ideologias e ações de destruição da terra;
os fracassos das ditaduras;
os dizimados da fome,
(os 135 milhões de pessoas afetados pela fome em 2019,
podem passar em 2020 para 265 milhões);
o tráfico de seres humanos para prostituição, comércio de órgãos e trabalho escravo
(terceiro negócio mais rentável, depois do tráfico de drogas e do tráfico de armas, em 2019 movimentou 32 biliões de dólares e explorou mais de 1 milhão de pessoas, mantendo em situações de escravidão cerca de 40 milhões de seres humano);
percebemos o beco insustentável da economia mundial, onde a Humanidade se enfiou,
à custa da destruição dos recursos da Terra.
Respiramos a insegurança da paz do medo, sustentada pelas armas.

Vivemos numa pandemia que nos põe “em sentido”,
um vírus que nos afeta e que cria recolher obrigatório as 24 horas do dia.
O ser humano, pensado e afirmado todo inteligente e omnipotente,
está a ser desconstruído.
Mas não é apenas agora que a nossa capacidade de acreditar é posta à prova.
Basta alargar os horizontes, o coração e a memória,
para reconhecer que há muito vivemos na lama.
Precisamos de resgatar a inteligência, a tecnologia e a ciência,
para o sentido da dignidade e da vida.

E, agora, tenho tudo nas mãos para varrer este meu espaço tempo,
organizar a poeira, dar um sentido às ideias
estendidas em silêncios de espera.

Hoje é quarta feira, dia de arrumar o quarto,
de encontrar as pessoas, a vida da minha aldeia.
Descubro a varinha do discernimento
e começo a ver e a separar, a cortar e a encaixar, a organizar;
o amontoado morre quando encontra sentido
e ressuscita em luzes de vida.
O meu ser precisa de permanecer um bosque de amor, um jardim por natureza.
Quem dera que a ternura empape o meu ser.
Quem dera que a ternura me aconchegue na verdade.

Como é bom ampliar a consciência da realidade,
ter uma inteligência correta do mundo para transformar as relações
e os mecanismos de opressão.

Como é bom ter relações humanas saudáveis,
pessoas próximas e amigas, confiança e diálogo a fluir no nosso ambiente.

Como é bom ter vida interior, perceber sentimentos, os movimentos do nosso eu
em construção, buscar a comunhão, ser habitados de amor e de bondade.

Como é bom ter um jardim, um quintal, para sair, andar,
espalhar-se na paz do relvado verde, extasiar-se em flores de beleza
e perder-se no meio das ervas que crescem livres.
O meu amigo tem um bosque no outro lado da rua
e todos os dias passeia nele, sentado na varanda do apartamento
e grava na alma a sinfonia dos pássaros ao amanhecer
e a paz permanece o dia inteiro.

Como é bom cuidar de alguém, pessoas, plantas, um vaso de orquídeas,
continuar a doar-se e a transcender-se.
Como é bom dar a vida no meio da pandemia: dou a minha vida
para que vivas a tua vida, para que tenhas a tua vida.

Como é bom conceber e cultivar a dimensão do mistério da vida,
o mistério de amor que sustenta a vida do Universo,
o Ser Humano, a Terra, o Universo e Deus,
envolvidos, compreendidos e reconhecidos como mistério de amor.
Como é bom voltar à simplicidade do chão e à experiência de comunhão,
de sermos um com a Criação de Deus.

Como é bom desenvolver a capacidade de contemplar,
caminhar dentro de si mesmo e de Deus, autoconhecer-se,
parar, sentar, escutar, sentir, ver, amar, ficar no face a face,
acolher o leito da vida, sem censura, na liberdade de ser.

Como é bom saber lidar com as emoções, as frustrações,
as energias da morte e da vida, com os limites, as confinações,
as irrealizações, as separações, com as raivas e a agressividade reprimida.
Assim, o tempo da pandemia nos aproxima e nos cura,
pela aceitação, perdão, reconciliação, integração.

Como é bom ver filmes onde se respira a comunhão com a natureza,
paisagens lindas, imagens belas, montanhas que podemos subir e descer,
musgos e gelo, a chuva que cai e escorre pelo corpo e embebeda o chão,
filmes de mar, de praia e de sol, de peixes, aves, árvores, vida natural.

Como é bom saber mexer no computador, usar a tecnologia,
enviar mensagens, receber, comunicar, trabalhar,
manter-se ligado e participar no desenrolar da vida.

Como é bom criar, escutar e fazer música, escrever, desenhar, pintar, jogar, ler,
espreguiçar, alongar o corpo e o espírito, em exercícios de poesia.

Como é bom rezar, estar na amizade de Deus, meditar, celebrar a Eucaristia,
acolher a Palavra, perder-se no amor da Trindade, sentir-se amado e amar,
ser Páscoa, lugar onde Deus passa e mora,
fidelidade, continuidade do agora e do depois, eternidade, ressurreição no agora.

Como é bom ter etapas a percorrer, objetivos, horizontes, valores, sonhos,
que abrem o aqui e agora àquilo que é aqui e agora e mais além.

Como é bom morar num país onde os políticos são responsáveis e inteligentes,
um país de paz, onde a confiança se espalha,
fruto do respeito e da liberdade, de cidadãos conscientes,
de economia solidária, de sistema de saúde solidário, um país de solidariedade.

Como é bom ter capacidade de abandono, o dom de ser criança,
abraçar uma bola e sentir-se com o mundo, aceitar cada instante como plenitude.

Como é bom ser aqui e agora, abraçar o dia a dia como ser de luz e esperança,
fermento de amor, pela solicitude e proximidade, companhia e serviço.

Como é bom alargar a consciência: somos um com as pessoas e a natureza,
Vida solidária, na destruição e na construção:
«Escolhe, pois, a vida» (Dt 30,19),
a vida humana, a vida da natureza, as várias formas de vida.
O vírus é vida que nos leva a centrar na vida,
é natureza que nos leva a reconciliar com a natureza.


 

P. José Luís Coelho, CSh
Imagem: rachen/Bigstock.com
Publicado em 12.05.2020

 

 
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