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Quando o sagrado acerta contas com a violência: Novo livro do cardeal Ravasi

Apresentamos alguns excertos do novo livro do presidente do Conselho Pontifício da Cultura, o cardeal Gianfranco Ravasi, intitulado “La santa violenza” (A santa violência), lançado esta quinta-feira em Itália (168 páginas, ed. Il Mulino).

O biblista explora o cruzamento incandescente entre religião e violência, das «guerras de Deus», até ao seu quase desaparecimento nos Evangelhos, à luz da disruptiva mensagem de Cristo.

O volume fala também do fundamentalismo, «a carta que mata», fenómeno que hoje diz sobretudo respeito ao islão, mas que se inscreve igualmente na tradição judeo-cristã.

Por fim, a obra toca o tema, vivo e lacerante nos nossos dias, da relação com o estrangeiro: um encontro que pode gerar exclusão e rejeição, como emerge em vários passos bíblicos nacionalistas ou etnocêntricos, mas que pode tornar-se diálogo, numa abertura ao universalismo da salvação oferecida por Cristo, e à igualdade de todos os seres humanos, porque filhos do mesmo Deus.

 

Card. Gianfranco Ravasi
In “La santa violenza”

Parece uma cena cinematográfica; no entanto, é a descrição de um poeta judeu, o profeta Naum, que em 612 a.C. está a “encenar”, quase em registo ao vivo, a queda de Nínive, a detestada capital da superpotência oriental, a Assíria, sob a irrupção conjunta de Ciaxares, rei dos medos, e de Nabopolasar, rei da dinastia neobabilónica. Eis a cena confiada a uma sequência impressionista de ações militares: «Ruído de chicotes, barulho de rodas, cavalos a galope, movimento de carros! Ginetes ao assalto, espadas que reluzem, lanças que cintilam, multidão de feridos! Mortos em massa, cadáveres sem fim! Tropeça-se nos seus cadáveres». As páginas do Antigo Testamento estão muitas vezes manchadas com o sangue das batalhas e expõem as ruínas e devastações causadas por acontecimentos bélicos. Uma língua lexicalmente pobre como o hebraico clássico (ao todo 5 750 vocábulos) mostra-se surpreendentemente rica quando tem de designar a violência. Para exemplificar, veja-se a raiz hms, «fazer violência» (de onde deriva hamas, «violência), ou šddhrm, «exterminar» (de onde deriva herem, o massacre sagrado), hrg, «matar», rsh, «assassinar», ‘nh, «violentar, oprimir», hrs, «destruir», lhm, «combater» (de onde deriva milhamah, «guerra»), nqm, «vingar», mhs, «abater, fracassar», šht, «pôr em ruína», e ainda outros. Um horizonte sombrio, marcado por conquistas e lutas, que, aliás, parecem ser o baixo contínuo da história humana, como a atestava a pessimista declaração de Heraclito no fragmento 53: «A guerra (pólemos) é mãe de todas as coisas e de todas a rainha (basiléus). A uns torna deuses, a outros homens; a uns faz escravos, a outros livres».



Não há dúvidas de que, quer a nível bíblico, quer na história da cristandade, esta interseção entre guerra e religião é paradoxalmente forte. Para nos centrarmos na Bíblia, basta apenas pensar nos massacres santos – o denominado herem ou «extermínio sagrado» - que acompanham a conquista da Terra prometida



Mesmo o Novo Testamento, que eleva o estandarte do amor e herda a aspiração messiânica bíblica ao shalôm, «paz», não ignora esta realidade áspera que pontua os caminhos da vida dos povos. O próprio Jesus, por exemplo, recorrerá a um modelo de estratégia militar, aplicando-o à existência cristã que deve ser vivida com inteligência e sabedoria: «Que rei, partindo para a guerra contra outro rei, não se senta primeiro a examinar se pode enfrentar com dez mil homens quem lhe vem ao encontro com vinte mil? Se não, enquanto o outro ainda está longe, envia-lhe uma embaixada para pedir a paz». A opção radical pelo Reino de Deus, verdadeiro leitmotiv da pregação de Cristo, será por Ele exprimida com uma declaração paradoxal, ainda que evidentemente metafórica, para indicar a natureza “explosiva” da sua mensagem: «Não creiais que Eu tenha vindo para trazer paz à Terra; Eu vim trazendo não a paz, mas a espada» (…).

Não há dúvidas de que, quer a nível bíblico, quer na história da cristandade, esta interseção entre guerra e religião é paradoxalmente forte. Para nos centrarmos na Bíblia, basta apenas pensar nos massacres santos – o denominado herem ou «extermínio sagrado» - que acompanham a conquista da Terra prometida da parte do povo hebraico, ou nas centenas de textos violentos presentes nas Escrituras, e na própria simbologia bélica usada para representar o «Deus dos exércitos» (que, todavia, era originariamente uma referência à armada astral do Criador, aplicada depois às batalhas de Israel para proteção da Arca santa). (…) Há alguns elementos de natureza interpretativa que temos constantemente de salientar. (…) Antes de tudo, há que sublinhar a qualidade histórica da Revelação judeo-cristã, que na Bíblia se apresenta não como uma abstrata série de teses teológicas especulativas, mas como uma concreta «história de salvação». No interior dos acontecimentos humanos, muitas vezes marcados pelo pecado, pela injustiça, pela violência, pelo mal, passa a presença e a obra de Deus, que progressivamente e pacientemente procura conduzir a humanidade para um nível mais puro, justo e pacífico de vida. O ápice está precisamente – tendo em conta a unidade «canónica» (isto é, no único cânone cristão) dos dois Testamentos – na proclamação «felizes os pacificadores», formulada segundo o espírito da citada «paz» messiânica do Antigo Testamento. A própria tradição judaica posterior, com o rabi Meir de Gher, declarará que «Deus não criou nada mais belo do que a paz» (…).



«Tomai a armadura de Deus, para que tenhais a capacidade de resistir no dia mau e, depois de tudo terdes feito, de vos manterdes firmes»



Jesus, depois, na sua proposta, prosseguirá até à opção radical do amor pelo inimigo, de modo a quase transformar o hostis em hospes, e à introdução do princípio da não violência: «Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Mas Eu digo-vos: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem». O apóstolo Paulo, num passo da Carta aos Efésios, onde elenca um completo equipamento militar (cinturão, couraça, calçado, escudo, setas, elmo, espada), transfigura-a numa simbologia espiritual: «Tomai a armadura de Deus, para que tenhais a capacidade de resistir no dia mau e, depois de tudo terdes feito, de vos manterdes firmes. Mantende-vos, portanto, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestido a couraça da justiça e calçado os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz; acima de tudo, tomai o escudo da fé, com o qual tereis a capacidade de apagar todas as setas incendiadas do maligno. Recebei ainda o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus». Introduz, portando, no coração do aparato militar, evocado já em chave metafórica, o «Evangelho da paz» como meta a alcançar. Ele fala por duas vezes da panoplía, isto é, da «armadura» de Deus que não é agressiva contra os outros, mas só contra o mal diabólico.


 

In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 18.10.2019

 

 

 
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