Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Quando Eric Clapton, Sufjan Stevens, Steve Earle e Bruce Springsteen cantam a dor

Eric Clapton

Escrita e interpretada por Eric Clapton, “My father’s eyes” é uma canção extraída do álbum “Pilgrim”. Clapton nunca se encontrou com o pai, falecido em 1985. Descobre-lhe a identidade graças à pesquisa de um jornalista canadiano, Edward Fryer. Envergonhou-se de ter pedido a outros uma inquirição que deveria ter conduzido pessoalmente. Com a negação do pai, Clapton constrói uma cortina de ferro à sua volta.

Forçado pelos acontecimentos, aquela fronteira intransponível foi ultrapassada pela morte trágica do filho, Conor, precipitado da janela de um apartamento. Em “My father’s eyes” fixa o olhar sobre o filho Conor e sobre o pai desconhecido, uma ausente filiação com o pai e uma paternidade interrompida bruscamente sobre uma linha de sangue que os liga a todos.

Nos meses seguintes ao prematuro desaparecimento do seu filho, Clapton não dorme. Deixou de pensar em música, não conseguia fazer nada. Um colaborador fez-lhe escutar “Wonderful tonight” numa nova versão, que teve sobre ele um efeito imediato, um calmante que trouxe bem-estar.

Reage à morte do filho, escrevendo uma nova música, sem a obsessão de a ter de publicar. Não queria deixar espaço aos sentimentos, não podia deter-se por nenhuma razão, de outra forma desabaria. Começou a tocar sem um propósito preciso, e a primeira canção que escreveu foi “The circus left town”, sobre um dia passado com o filho no circo. Anos depois, foi incluída com o título “Circus” no álbum “Pilgrim”, que mostra um Clapton percutido pela vida e redimido, necessitado de contar-se.

“River of tears”, a segunda canção do disco, é a oração de um pai desesperado que chora a perda do seu filho: «Senhor, quanto tempo tenho de continuar a correr/ Sete horas, sete dias ou sete anos/ Tudo o que sei é desde que partiste/ parece que me estou a afogar num rio// A afogar-me num rio de lágrimas// (…) Quem dera que pudesse apertar-te/ Mais uma vez para acalmar a dor/ Mas os meus tempos esgotam-se e eu tenho de ir/ Tenho de fugir de novo// (…) Um dia voltarei a encontrar o meu caminho aqui/ Salvar-me-ás de me afogar».

Muitos pensam que “Tears in Heaven” é dedicada ao filho. A canção, apoiada na progressão de acordes de “Many rivers to cross”, no “cover” de Jimmy Cliff, foi escrito, na origem, para procurar uma resposta a um quesito que o atormentava desde o dia em que morreu o seu avô: «Voltaremos de novo a encontrar-nos?».

Clapton compreendeu como a vida é frágil, e aceitou, depois de longa angústia, a morte de Conor, resignando-se à ideia de o ter perdido para sempre. Isto torna-se fonte de alívio. Decide, então, entregar ao público as canções escritas para si próprio e o filho, com a convicção de ajudar quem tivesse vivido a mesma experiência.

 

Sufjan Stevens



Imagem D.R.


O álbum “Carrie & Lowell” reverbera o laço de Sufjan Stevens com o padrasto Lowell e a mãe Carrie. Uma relação marcada pelas doenças psíquicas dela, que várias vezes o abandonou, enquanto os únicos momentos de felicidade estão ligados à relação com o padrasto. Uma relação paterna inesperada, que recorda a adoção filial segundo o apóstolo Paulo. Um amor que exige um esforço maior, amar mais em relação a um pai biológico, que o faz instintivamente, para que a criança possa sentir-lhe a pertença e dirigir-se a ele chamando-o ternamente »papá».

Stevens narra-se com palavras penetrantes, com aquela maneira de cantar sussurrado que se tornou o seu traço distintivo. Disse do disco: «Este não é o meu projeto artístico: esta é a minha vida».

Com “Death with dignity” perdoa a mãe: «Espírito do meu silencio, consigo escutar-te, mas tenho medo de estar junto de ti/ E não sei onde começar/ (…) De novo perdi completamente a minha força, oh, permanece junto de mim/ (…) Perdoo-te, mãe, consigo escutar-te/ e desejo estar junto de ti/ Mas toda a estrada conduz a um fim/ (…) Nunca mais nos verás».

Na bíblica “The only thing”, citando o Apocalipse e o profeta Daniel, guarda a recordação dela, confiando na graça que torna aceitável o mal dela recebido: «Tudo o que vejo regressa a ti de alguma maneira/ (…) Quero salvar-te da tua dor/ (…) Fé cega, graça de Deus, nada mais a transmitir».

Nas canções “Carrie & Lowell”, “Eugene” e “All of me wants all of you” concentra-se nos escassos anos passados com a família, enquanto a narrativa se torna lutuosa em “Should have known better”, na terna “Fourth of july” e em “No shade in the shadow of the Cross”. Obras que delineiam a orfandade de Stevens marcada pelo abuso de álcool e droga, pelo desprezo de si até tentar o suicídio. Numa descida aos infernos, o ouvinte reflete sobre um filho que sobreviveu a uma tragédia familiar.

 

Steve Earle



Imagem D.R.


Há histórias artísticas – histórias verdadeiras – diante das quais só se pode inclinar a cabeça. É o caso dos acontecimentos tacitamente narrados por um disco, “J.T.”, recentemente publicado por Steve Earle. O título refere-se às iniciais de Justin Townes, primeiro filho de Steve, nascido em 1982 da terceira mulher.

Justin começou a ter problemas com drogas pesadas aos 13 anos, e gravou o seu primeiro disco aos 25. A sua carreira discográfica não foi especialmente um percurso de sucesso, mas foi marcada pela corajosa, impiedosa e dramática leitura da realidade. Os EUA profundos são feitos de pessoas deprimidas, melancólicas, sem metas, sem afetos estáveis, e de tudo isto Justin foi um narrador implacável e melancólico. Pessoas para quem nem Trump nem Biden podem ser salvação, porque contagiadas pela doença extrema para a qual não há vacina e que se chama solidão, “Single mothers” e “Absent fathers”, mães solteiras e pais ausentes, títulos de dois dos seus discos.

Na sua contínua tentativa de “limpar-se”, entre altos e baixos, depressões e ensaios de viver bem em família, com a mulher e filho, Justin confiou a sua última obra artística ao álbum “The saint of lost causes”, o santo das causas perdidas, de 2019, no qual tudo parece conduzir à ausência de esperança, salvo poder confiar-se com uma invocação extrema a S. Judas Tadeu, representado na capa do disco.

Justin morreu por “overdose” a 20 de agosto, aos 38 anos. O pai teve a coragem de lançar um disco no qual interpreta dez canções compostas pelo filho, expressão do desejo de o manter vivo, dando nova voz à sua inquieta perscrutação das coisas, do amor e da dor, da solidão, da procura de doçura, do desejo de felicidade e do medo-desejo de autodestruição.

Steve Earle canta com respeito, delicadeza e limpidez as canções do filho, terminando com uma faixa por ele escrita, que é uma recordação pessoal e um murro no estômago, “Last words”, que esboça vários momentos do passado entre pai e filho, e assegura-lhe que se voltarão a ver onde tudo for luz para além das trevas. E termina dizendo: «Last thing I said was, “I love you”; And your last words to me were, ’I love you too» (a última coisa que disse foi «amo-te»; e as tuas últimas palavras para mim foram «também te amo»).

Há histórias em que nada há para dizer, a não ser uma prece.

 

Bruce Springsteen



Imagem D.R.


Broadway, dezembro 2018. Aos quase 70 anos, Bruce Springsteen sobre a um palco nu e canta o seu pai. Nu como o palco, o cantor entrega-se à sua dor, ao seu passado, aos seus demónios. Espreme cada gota do tormento que quarenta anos de sucesso não mitigaram. Quando o canção “My father’s house” – espécie de reescrito da parábola do filho pródigo – se rompe e a guitarra se torna um lamento mal percetível, Springsteen começa a contar: a sua voz convoca um dos muitos fantasmas que povoaram a sua música. O mais amado, o mais detestado. A fronteira entre vivos e mortos corta-se, estremece. Por um instante está-se ali diante deles, do pai e do filho.

«As pessoas que imitamos são aquelas das quais não conseguimos conquistar o amor. É o único poder que temos para obter a proximidade e o amor de que precisamos e que desejamos. Quando era jovem e procurava uma voz que se fundisse com a minha, que cantasse as minhas canções e contasse as minhas histórias, escolhi a voz do meu pai. Porque para mim tinha algo de sagrado. Quando comecei a procurar algo para vestir, vesti as roupas de trabalho, porque eram as do meu pai. (…) O meu pai era o meu herói. E o maior inimigo.»

Toda a vida e obra de Bruce Springsteen são atravessadas pela luta com e contra o pai. Uma luta para escapar à figura paterna – e ao demónio que o possuía – da parte do jovem Springsteen. Uma luta pela reconciliação com a paternidade, do Springsteen amadurecido. Uma luta, por fim, com a morte do pai para transformar «os fantasmas que te perseguem em progenitores que te acompanham».

Na sua produção juvenil, a geração revira-se no seu oposto, degeneração. O que se transmite de pai para filho não é a custódia da promessa que a vida de cada filho anuncia, mas a culpa, o pecado, a danação. A dor e a raiva, que envenenam a relação entre pai e filho, agrupam-se em torno a duas figuras bíblicas, Adão e Caim (“Adam raised a Cain”).

Todo o “Darkness on the edge of town” (1978) oscila nos vestígios dos pais: a sua presença só se dá na forma da ausência, da desaparição. No mundo cantado de Springsteen, os adultos sofrem uma espécie de espoliação. A sua vida é marcada pela incapacidade de aceder à estabilidade, de conquistar os sinais identitários que lhe promovam a condição. Precisamente porque a transmissão falha, precisamente porque os pais não guardam nem transmitem qualquer herança, os jovens homens que se movem nas canções do “boss” não conseguem conquistar o espaço simbólico da idade adulta.

O reino dos protagonistas das canções juvenis de Springsteen é a estrada, a corrida solitária desligada de qualquer vínculo. A sua vida só pode ser jogada, arriscada nas competições de automóveis, como acontece em “Racing in the street”. No mundo do asfalto não há vislumbre de nenhum pai, não há traços de vida adulta, há apenas a relação horizontal entre pares, entre filhos.

Incapazes de habitar a casa, expulsos da estrada, os pais são relegados para a fábrica (“Factory”), espaço em que se entra depois de atravessar as cancelas, espaço despojado de liberdade, uma prisão da qual se escapa no final do turno. Os homens voltam a casa «com a morte nos olhos». O pai, quando entra em casa, está literalmente morto, um fantasma, a sombra de uma ausência.

“Nebraska” (1980) é um álbum saturado de morte, de desilusão, de sentido de derrota, de perda, de luto. Na já citada “My father’s house”, Springsteen leva a releitura da palavra evangélica aos extremos. Na “sua” parábola do filho pródigo, o jovem regressa a casa, mas encontra-a deserta. Deixa de ser possível qualquer reconhecimento. A casa do pai ergue-se como um «farol que chama na noite». «Fria e solitária», continua a obcecar o filho, surge ao final da escura autoestrada onde os pecados jazem por espiar – a impossibilidade de redimir-se dos pecados a negar a reconciliação.

Na produção madura, encontramos um ícone oposto em relação à juventude: na belíssima “Living proof”, do álbum “Lucky town” (1992), o nascimento de um filho torna-se a «prova viva da piedade de Deus». O nascimento fende a densidade de um mundo «duro e sujo/ desonesto e confuso», abre-o, torna-o permeável à irrupção de algo radicalmente outro. A imagem do filho apertado entre os braços da mãe é toda a beleza, é a “oração” que antes não sabia pronunciar.

Em “The rising”, a imagem da paternidade adquire uma nova espessura, e em “Long time comin’” (2005), Springsteen canta que se tivesse um desejo para os filhos, seria o de que «os vossos erros sejam só os vossos/ que os vossos pecados sejam só os vossos». O círculo da culpa foi finalmente quebrado, o pecado já não se transmite de pai para filho.


 

Massimo Granieri, Walter Gatti, Luca Miele
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: Eric Clapton | D.R.
Publicado em 29.01.2020 | Atualizado em 30.01.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos