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Prémios aos gestores do Novo Banco são exemplo de «uma economia que mata»

A eventual atribuição de verbas para premiar a gestão dos membros executivos do Conselho de Gestão do Novo Banco é, «parafraseando o papa Francisco», constitui um exemplo concreto de «uma economia que mata», considera o presidente da Cáritas Portuguesa.

«Por respeito para com os milhares de portugueses que perderam a totalidade ou parte dos seus rendimentos, apelo, na minha condição de simples cidadão, a que estes “prémios” sejam dispensados em nome da justiça social e da solidariedade; a mesma que o povo português foi obrigado a ter para viabilizar o dito banco e os postos de trabalho que, assim, se conseguiram salvar», escreveu Eugénio Fonseca em artigo no “Público”.

O responsável começa por lembrar que «há uma parte significativa da população portuguesa, para além das já mais de 17% que vivem na condição de pobres, afetada por carências extremas tão elementares como o acesso à alimentação, não tendo possibilidades financeiras de assegurar, sequer, as três refeições fundamentais a toda a família».

As consequências da pandemia a nível económico, nomeadamente a diminuição dos salários e a supressão do posto de trabalho, contribuíram para tornar «escassa a possibilidade de dispor de rendimentos pecuniários que consigam manter o pagamento das rendas de casa que, para muitos, têm preços desproporcionais aos salários auferidos, assim como o acesso a outros bens que são indispensáveis a uma subsistência dignamente básica como água, gás e eletricidade».

«Quem vive nesta situação, assim como quem acompanha pessoas na procura dolorosa de meios para suprir parte das dificuldades que está a viver, não pode ficar indiferente e até mesmo deixar de manifestar a sua indignação, ao saber que o Novo Banco tem destinados dois milhões de euros para premiar a gestão dos membros executivos do seu conselho de administração», sublinha.

Depois de recordar que o banco «nunca deixou de acumular milhões e milhões de prejuízos suportados, por enquanto e em larga medida, pelo dinheiro dos contribuintes», o responsável considera que essa opção, «particularmente num tempo de tão grandes constrangimentos financeiros, seria sempre expressão de uma falta de sentido ético na construção do bem comum».

«Mais indecoroso se torna quando se trata, de facto, de uma instituição bancária que tem sobrevivido, para absorver os seus reiterados prejuízos acumulados de milhares de milhões de euros, à custa dos impostos de milhares e milhares de trabalhadores que, mesmo com salários de miséria, também produzem muito e em condições, por vezes, muito mais adversas para a saúde e a conciliação com a vida familiar», acentua Eugénio Fonseca.

A expressão «esta economia mata» foi usada pelo papa Francisco na exortação apostólica “Evangelii gaudium”, sobre o anúncio do Evangelho (24.11.2013), ao referir-se a mecanismos económicos de «exclusão» e «desigualdade social», causados pela «negação da primazia do ser humano».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: annastasiia7/Bigstock.com
Publicado em 21.05.2020

 

 
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