

Parece fácil mas é muito difícil. É tão difícil, ou será mais difícil receber do que dar. Será mais justo e mais nobre dar do que receber. Este prémio, para além das palavras que ouvimos [leitura da acta de atribuição do Prémio e intervenção de D. Manuel Clemente] é um estímulo e anima as pessoas a fazerem melhor, para além do melhor que possam fazer. É assim.
Para além disso, abrimos até com música, que nos encanta. A música é um elemento cultural ou artístico de essência. Leonardo da Vinci dizia que a música era a estrutura do invisível. A estrutura do invisível faz-nos sentir justamente o que não é visível, como por exemplo o céu. O anterior Papa dizia até que o céu era abstracto. A música leva-nos para esse espaço, espaço recôndito. É a vida, creio como católico que nasci, católico como fui educado pela família, num colégio de Jesuítas, e sobrecarregado com todas as dúvidas que pesam, creio que mesmo sobre os grandes santos. A dúvida é um estímulo de procura. É difícil vencer essa procura. Ou, por outras palavras, é difícil encontrar o que se procura. É nisso mesmo, nessa dificuldade, que, quanto a mim, se resume o grande mérito.
Foi um momento excepcional para a minha vida. Quando se principia, principia-se com grandes certezas – estava muito seguro, quando fiz o meu primeiro filme, do que era o cinema, do que eu ia fazer. E hoje estou muito menos seguro, muito mais duvidoso, mas também mais apaixonado.
Eu não quero prolongar-me com mais palavras – não sou um homem de palavras, de resto; estou mais seguro quando faço cinema – ou tenho essa ilusão – do que quando falo. Resta só dizer que fico extremamente sensibilizado. Vou daqui profundamente tocado por este prémio, que não digo que não mereço, porque já um Prémio Nobel disse, quando lhe davam o galardão, “muito obrigado, cá recebo este prémio, bem merecido por mim”; o rei, que lhe entregava o Nobel, disse-lhe: “É estranho, porque todos os outros dizem que não o merecem”, ao que o premiado lhe respondeu: “Têm toda a razão!”.
Muito e muito obrigado.