

No dia 7 de maio de 2015 teve lugar em Lisboa a reunião anual do Júri do Prémio Árvore da Vida / Padre Manuel Antunes, para se pronunciar sobre a atribuição do galardão referente a 2015.
Estiveram presentes Dom João Lavrador, Bispo Auxiliar da diocese do Porto, que coordenou a reunião, Padre António Vaz Pinto, S.J., Prof.ª Doutora Maria Teresa Furtado e Dr. Guilherme d'Oliveira Martins. O Senhor Cónego João Aguiar deixou representação por escrito ao Senhor Dom João Lavrador.
Por se encontrar em Macau, José Carlos Seabra Pereira - membro do Júri por inerência do cargo de Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - justificou a sua não comparência.
Verificando-se que, na lista de premiados até agora, não tinha sido contemplado o domínio tão relevante das artes plásticas, o Júri decidiu que na edição de 2015 a nomeação se situasse nessa área, tendo sido escolhida Lourdes Castro.
Lourdes Castro tem longa e representativa carreira como artista plástica que, com ancoragem na década de 60, alcança progressiva notoriedade em Portugal e no estrangeiro. É reconhecida como figura cimeira pelos seus pares e pelos melhores estudiosos e críticos das artes visuais.
O experimentalismo e o carácter inédito da sua obra, com forte sentido poético e autoral, surgem dominados pelo desígnio e pela capacidade de nomear plasticamente o objecto e de, ao mesmo tempo, aprofundar a ruptura com a noção tradicional de "escultura".
Nessa perspectiva, Lourdes Castro interferiu decisivamente na problematização plástica enquanto discurso transdisciplinar: do desenho à pintura, do virtual ao real.
Veja-se a este propósito a linha de pesquisa que remete para a noção de sombra e sua apropriação. «Esse contacto excessivo com os objectos, o seu esvaziamento significante, conduziram a artista a um inédito trabalho sobre as sombras humanas, imobilizadas em sensíveis contornos sobre os mais diversos materiais e também sobre tela e progressivamente sobre plexiglas», observou a investigadora Raquel Henriques da Silva.
Lourdes Castro deu um importante contributo, com valor de experiência, à reformulação de linguagens plásticas que se tinham esgotado ou convencionalizado numa visão redutora de formas previsíveis.
A reformulação da serigrafia como processo criativo e a consequente exploração das possibilidades técnicas deste método compositivo constitui outro factor a destacar, designadamente considerando a importante colaboração da artista com René Bertholo. «A surpresa do desenho, a simplicidade da forma, do contorno de uma sombra, fascinou-me tanto que ainda hoje para mim é nova ....», referiu a dado momento Lourdes Castro.
O trabalho de Lourdes Castro é pioneiro na concepção e criação de livros de artista, uma das áreas de criação durante muito tempo desvalorizada (e ainda hoje das menos estudadas em Portugal).
Designadamente pela participação no projecto KWY, Lourdes Castro encontra-se associada a uma das mais decisivas manifestações da internacionalização da arte portuguesa no contexto cultural da década de 60.
A sua obra "O Grande Herbário das Sombras" possui contornos de um projecto criativo preocupado em registar aquilo que vai desaparecer; e nessa medida cultiva uma aproximação estética à relação entre o efémero e a perenidade. Trata-se de um projecto ligado ao reencontro da artista com a Natureza e a vegetação na Ilha da Madeira, sua terra natal (1972). Reúne 100 espécies botânicas, numa espécie de elogio da criação.
Lourdes Castro construiu uma obra coesa e dinâmica, que não se deixa aprisionar em códigos de género e que através da inquirição do valor plástico da sombra discorre sobre relações entre presença e ausência e assume a manifestação da presença como uma rasto do visível.
A sua obra é marcada por um certo tipo de elogio do vivo e de louvor do dom da vida, que nos propõe comungar numa manifestação simples e rigorosa da alegria.
Como evidenciam várias das suas mais significativas criações e imperecíveis experiências de irradiação espiritual na recepção da sua obra - veja-se, por exemplo, o grande painel na parede por trás do altar da Capela do Rato, e recorde-se, por outro lado, certa noite de oração nessa Capela, em que se rezou com as palavras e os silêncios de Lourdes Castro e do filme "Pelas Sombras" -, o louvor do dom da vida na própria actualização da autonomia dos valores estéticos tem passado, na obra de Lourdes de Castro, por uma poética da espiritualidade cristã.»
Os membros presentes do Júri procederam a aberta troca de impressões sobre a obra da artista Lourdes Castro, após o que tomaram a decisão unânime de lhe atribuir, por consenso e aclamação, o "Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes", na sua edição de 2015.