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Pré-publicação do novo livro do papa Francisco: Os pilares do novo mundo pós-pandemia

“Dio e il mondo che verrà” (Deus e o mundo que virá) é o título do novo livro em que o papa é entrevistado pelo jornalista especializado em assuntos do Vaticano (vaticanista) Domenico Agasso.

«No estado em que está a humanidade, torna-se escandaloso continuar a financiar indústrias que não contribuem para a inclusão dos excluídos e para a promoção dos últimos, e que penalizam o bem comum envenenando a Criação», acentua Francisco, salientando que sem «opções pessoais e políticas radicais, com uma reviravolta económica rumo ao “verde”», o destino do mundo está traçado.

O investimento em armas em detrimento da salvação de vidas humanas, a defesa dos direitos das mulheres, a relação entre pais e filhos e as perspetivas que se abrem aos jovens são alguns dos temas abordados no excerto da obra de 128 páginas - publicada pela Piemme/LEV e que ficará disponível em Itália a partir de terça-feira - adiantado hoje pelo jornal “La Stampa”, que reproduzimos.

 

Santidade, como interpreta o “terramoto” que em 2020 se abateu sobre o mundo sob a forma de coronavírus?

Na vida há momentos de escuridão. Demasiadas vezes pensamos que podem acontecer não a nós, mas apenas a alguém, noutro país, talvez de um continente distante. Desta vez todos nós acabámos no túnel da pandemia. A dor e a sombra romperam as portas das nossas casas, invadiram os nossos pensamentos, agrediram os nossos sonhos e programas. E por isso ninguém pode hoje permitir-se estar tranquilo. O mundo já não será como antes. Mas precisamente dentro desta calamidade sejam colhidos os sinais que podem revelar-se eixos da reconstrução. Não bastam as intervenções para resolver as emergências. A pandemia é um sinal de alarme sobre o qual o ser humano é obrigado a refletir. Este tempo de provação pode assim tornar-se tempo de opções sábias e de longo alcance para o bem da humanidade. De toda a humanidade.

 

Há momentos, períodos ou vidas inteiras em que parece que Deus se esqueceu, que não se ocupa de nós, que nos deixa afundar-nos nos nossos dramas…

É verdade, mas na realidade Deus está connosco, é-nos próximo, e no momento oportuno estender-nos-á a mão e salvar-nos-á.

 

Que urgências entrevê?

Não podemos continuar a aceitar passivamente as desigualdades e as derrocadas no ambiente. O caminho para a salvação da humanidade passa pelo repensar um novo modelo de desenvolvimento, que coloque como indiscutível a convivência entre os povos em harmonia com a Criação. Conscientes de que cada ação individual não permanece isolada, no bem ou no mal, mas têm consequências para os outros, porque está tudo conectado. Tudo! Mudando os estilos de vida que obrigam milhões de pessoas, sobretudo crianças, à angústia da fome, poderemos conduzir uma existência mais austera que tornaria possível uma repartição equitativa dos recursos. Não significa diminuir direitos de alguns para uma equiparação por baixo, mas dar maiores e mais amplos direitos àqueles aos quais não são reconhecidos e tutelados.

 

Vislumbra sinais encorajadores?

Hoje vários movimentos populares “de baixo”, como algumas instituições e associações, já estão a tentar promover estas noções e operações. Tentam concretizar uma maneira nova de olhar a nossa casa comum: já não como um armazém de recursos a explorar, mas um jardim sagrado a amar e a respeitar, através de comportamentos sustentáveis. E depois há uma tomada de consciência entre os jovens, em particular nos movimentos ecologistas. Se não arregaçarmos as mangas e não cuidarmos imediatamente da Terra, com opções pessoais e políticas radicais, com uma reviravolta económica rumo ao “verde” e direcionando neste sentido as evoluções tecnológicas, mais tarde ou mais cedo a nossa casa comum lança-nos pela janela fora. Não podemos perder mais tempo.

 

O que pensa da finança e da relação com as administrações públicas?

Creio que se conseguirá saná-la da mentalidade especulativa dominante e restabelecê-la com “Uma alma”, segundo critérios de equidade, poder-se-á apontar para o objetivo de reduzir a diferença entre quem tem acesso ao crédito e quem não tem. E se um dia não muito longínquo houver os pressupostos através dos quais cada operador investir segundo princípios éticos e responsáveis, obter-se-á o resultado de limitar o apoio a empresas nocivas para o ambiente e para a paz. No estado em que está a humanidade, torna-se escandaloso continuar a financiar indústrias que não contribuem para a inclusão dos excluídos e para a promoção dos últimos, e que penalizam o bem comum envenenando a Criação. São os quatro critérios para escolher que empresas apoiar: inclusão dos excluídos, promoção dos últimos, bem comum e cuidado pela Criação.

 

Estamos a enfrentar uma das piores crises humanitárias desde a segunda guerra mundial. Os países estão a adotar medidas de urgência para enfrentar a pandemia e uma recessão económica global dramática. O que espera dos governantes?

Agora trata-se de reconstruir dos escombros. E esta incumbência pesa enormemente sobre quem tem encargos de governo. Numa época de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo trabalho que está em risco de se perder ou que já se perdeu, pelo rendimento que é cada vez menos suficiente, e pelas outras consequências que a atual crise traz consigo, é fundamental administrar com honestidade, transparência e visão de longo alcance. Mas cada um de nós, não só os governantes, é chamado a debelar indiferença, corrupção e conivência com a delinquência.

 

Em que princípio podemos inspirar-nos?

O que está a acontecer pode despertar todos. É tempo de remover as injustiças sociais e as marginalizações. Se colhermos esta provação como uma oportunidade, podemos preparar o amanhã com a marca da fraternidade humana, à qual não há alternativa, porque sem uma visão de conjunto não haverá futuro para ninguém. Ao fazer frutificar esta lição, os líderes das nações, juntamente com quem tem responsabilidades sociais, podem guiar os povos da Terra para um futuro mais florido e fraterno. Os chefes de Estado poderão falar entre si, debater mais e concordar estratégias. Tenhamos todos bem presente que há pior do que esta crise: o drama de a desperdiçar. De uma crise não se sai da igual: ou saímos melhor ou saímos pior.

 

Com que atitude a desperdiçaremos?

Fechando-nos em nós próprios. Ao contrário, ao edificar uma nova ordem mundial baseada na solidariedade, estudando metodologias inovadoras para debelar prepotências, pobreza e corrupção, todos juntos, cada um pela sua parte, sem delegar e desresponsabilizar-mo-nos, poderemos curar as injustiças. Trabalhar para oferecer cuidados médicos a todos. Assim praticando e manifestando coesão, podemos ressurgir.

 

Por onde se deve começar, concretamente?

Já não é suportável que se continuem a fabricar e a traficar armas, gastando capitais desmedidos que deveriam ser usados para tratar as pessoas, salvar vidas. Não se pode continuar a fingir que não está insinuado um círculo dramaticamente vicioso entre violências armadas, pobreza e exploração desvairada e indiferente ao ambiente. É um ciclo que impede a reconciliação, alimenta as violações dos direitos humanos e é um obstáculo ao desenvolvimento sustentável. Contra esta discórdia planetária que está a sufocar à nascença o futuro da humanidade, é necessária uma ação política fruto de concórdia internacional. Fraternalmente unidos, os seres humanos são capazes de enfrentar as ameaças comuns, sem mais recriminações recíprocas contraproducentes, instrumentalizações de problemas, nacionalismos míopes, propagandas de fechamentos, isolacionismos e outras formas de egoísmo político.

 

Se não for assim, o que arriscamos?

Mais cedo ou mais tarde acabaremos por nos combatermos uns aos outros. Destruiremos definitivamente as nossas terras. Ninguém pode sentir-se seguro. O mundo implora um “cessar-fogo” global. E ao mesmo tempo promover a cultura da não-violência, do encontro, e o multilateralismo, espalharemos confiança e respeito recíprocos, e não medos de invasões estrangeiras, e enriquecer-nos-emos com o conhecimento do outro. São estes os verdadeiros fundamentos da segurança. Não os armamentos.

 

Aos ombros das mulheres continua a pesar o peso de todas as recessões. O que pensa sobre isto?

As mulheres têm necessidade urgente de ser ajudadas na gestão dos filhos, e não ser discriminadas no plano retributivo e profissional, ou com a perda do trabalho por serem mulheres. Cada vez mais a sua presença é preciosa no centro dos processos de renovação social, político, ocupacional, institucional. Se tivermos a coragem de as inserir nestas condições positivas, poderão dar um contributo determinante para a reconstrução da economia e das sociedades que vierem, porque a mulher faz o mundo belo e torna os contextos mais inclusivos. E depois estamos todos a tentar reerguer-nos, por isso não podemos omitir que o renascimento da humanidade começou pela mulher. Da Virgem Maria nasceu a salvação, é por isso que não há salvação sem a mulher. Se o futuro estiver no nosso coração, se desejarmos um amanhã exuberante, é preciso dar o espaço justo à mulher.

 

O que aconselharia em particular aos pais?

A brincadeira com os seus filhos é o melhor tempo que se pode perder. Conheço uma família que criou um elemento “institucional” em casa: “O programa”. Cada sábado ou domingo o pai e a mãe pegam numa folha e, com as crianças, concordam e escrevem todos os encontros de brincadeira entre filhos e pais na semana seguinte, e depois penduram-na no quadro da cozinha. Os olhos das crianças brilham de contentamento no momento de escrever “o programa”, que se tornou um rito. Esta mãe e este pai semeiam educação. Eu disse-lhes: «Semeai educação”. Ao brincar com o pai e a mãe, o filho aprende a estar com as pessoas, aprende a existência de regas e a necessidade de as respeitar, adquire aquela confiança em si que o ajudará no momento de lançar-se na realidade externa, no mundo. Ao mesmo tempo, os filhos ajudam os pais, sobretudo em duas coisas: dar mais valor ao temo da vida; e permanecer humildes. Para eles são antes de tudo pai e mãe, o resto vem depois: o trabalho, as viagens, os sucessos e as preocupações. E isto protege das tentações do narcisismo e do ego desmesurado, em que se arrisca cair a cada dia.

 

A violência do Covid dizimou as já precárias perspetivas de milhões de jovens em todo o mundo. Os jovens claudicam num contexto de incertezas, redimensionamentos escolares, profissionais, sociais, económicos e políticos que os estão a privar do direito ao futuro. Que desejaria dizer às “gerações Covid”?

Encorajo-os a não se darem por vencidos pela conjuntura desfavorável. A não deixarem de sonhar de olhos abertos. Que não tenham medo de sonhar em grande. Ao trabalhar pelos seus sonhos podem também protegê-los daqueles que os querem tirar: os pessimistas, os desonestos e os aproveitadores. É verdade que talvez nunca como neste terceiro milénio as novas gerações são as que pagam o preço mais alto da crise económica, laboral, sanitária e moral. Mas chorar não leva a lado nenhum, aliás, dessa maneira a crise levará a melhor. Em vez disso, ao continuar a bater-se, como muitos já estão a fazer, os jovens não ficarão inexperientes, amargos e imaturos. Não se deterão na busca de oportunidades. E depois há o conhecimento. No Génesis lemos que o Senhor, após ter criado o céu e a Terra, toma o ser humano e põe-no no jardim do Éden, para que o cultive e o conheça. Não o põe na reforma, ou ocioso, ou de férias, ou no sofá: manda-o estudar e trabalhar. Deus fez o ser humano capaz e desejoso de saber e de trabalhar. E de amar. «Amarás o próximo como a ti mesmo», não há outro mandamento mais importante que este, diz Jesus aos discípulos. Os jovens têm a frescura e a força para relançar as tarefas fundamentais confiadas por Deus, e tornar-se assim homens e mulheres do conhecimento, do amor e da caridade. Abrindo-se ao encontro e à maravilha, podem alegrar-se pela beleza e os dons da vida e da natureza, as emoções, o amor em todas as suas declinações. Andando sempre em frente para aprender algo de toda a experiência, divulgando o conhecimento e amplificando a esperança ínsita na juventude, tomarão pela mão as rédeas da vida e, ao mesmo tempo, colocarão em círculo a vitalidade que fará progredir a humanidade, tornando-a livre. Por isso, mesmo se a noite parece não ter fim, não é preciso perder o ânimo. E, como dizia S. Filipe Neri, não esquecer de serem alegres, o mais possível.


 

Domenico Agasso
In La Stampa
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: InnaReznik/Bigstock.com
Publicado em 14.03.2021

 

 

 
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