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«Porque é que a política já não precisa dos católicos»

«Entre católicos e política nunca houve lua-de-mel. Todavia, hoje mais do que no passado, o mundo católico parece ter-se tornado terreno fértil para a incursão de homens de poder prontos a instrumentalizá-lo, arrastando-o para posições distantes do Evangelho»: este é o ponto de partida de um estudo equaciona fenómenos como a ostentação de símbolos cristãos para atrair consenso e a divisão entre católicos quanto às opções políticas, como é sugerido por estudos em torno às eleições presidenciais nos EUA.

Fabio Pizzul, presidente da Ação Católica de Milão entre 2002 e 2008, ex-jornalista e atual dirigente regional do Partido Democrático, assina o livro, de título provocador, “Perché l apolítica non há più bisogno dei cattolici” (“Porque é que a política já não precisa dos católicos – A democracia após o Covid-19” (edição italiana Terra Santa, 2020, 160 páginas).

«Se se olha para a política de hoje, que parece ser feita apenas de insultos recíprocos e da busca do recontro a todo o custo, os católicos são pouco funcionais. Se, em vez disso, há a ideia de regressar a uma política que se ocupa do bem comum, que tenta raciocinar e construir o futuro, capaz de ser geradora, então o discurso muda», defende o autor, em entrevista.

 

A rotura entre “católicos de direita” e “católicos de esquerda” é um esquema difícil de morrer.

Mais do que rotura ou divisão, falaria do legítimo pluralismo que a Igreja (…) reconheceu várias vezes. O pluralismo não é um limite ou uma infelicidade, mas uma legítima diferente interpretação da sociedade e do compromisso dos católicos. No livro procuro explicar porque é importante levar os valores católicos e do Evangelho para o interior da sociedade. Que isso se transforme em recontros e divisões é a propensão da política entendida como recontro. O papel dos católicos não é do estarem alinhados de um lado ou de outro, mas de estar sob os partidos, oferecendo um contributo que possa ser partilhado em chave construtiva por todos.

 

O presidente da Academia Pontifícia das Ciências Sociais fez-se, recentemente, promotor de um Manifesto por um novo sujeito político de inspiração cristã? Qual a sua opinião?

Há espaço para a iniciativa de todos. Sob duas condições, porém: ninguém se arrogue o direito de exclusividade; se um partido quer ter a representatividade exclusiva dos católicos, julgo que não há espaço político, cultural e lógico. Depois há um outro aspeto que é mais político no sentido técnico: pensar que se possa haver um partido que em nome da inspiração cristã possa recolher todo o eleitorado católico está fora da realidade. No interior do catolicismo já há muitas realidades e sensibilidades.

 

Esta emergência derivada do Covid-19 tem sido uma dura prova para a democracia, até pela exigência de tomar decisões apressadamente, ultrapassando os parlamentos. Que democracia sairá da pandemia?

É difícil prever, até porque ainda não vemos o fim desta pandemia. A política deve voltar a criar relações significativas entre os vários atores, e reconhecer, no processo de decisão, o seu limite, que dramaticamente experimentámos, porque ficámos todos surpreendidos, por um lado, e vimo-nos impotentes, por outro.

 

O que significa, concretamente, reconhecer o limite?

Dar espaço às outras competências e ser capaz de envolver as várias sensibilidades. O apelo lançado pelo papa Francisco a 27 de março, numa Praça de S. Pedro vazia, foi claro: estamos todos na mesma barca. Ninguém pode arrogar-se o direito de ser o salvador da pátria, é preciso estarmos juntos e criar relações. Isto, se realizado, torna-se um ponto de força, e não um esboroamento. Nisto, os católicos podem dar um grande contributo, que nasce da credibilidade e da vida da comunidade cristã. No livro explico que o compromisso dos católicos não é individual, mas nasce de uma vida comunitária, e que é um dos caminhos de saída para esta pandemia que nos isola e que arrisca transformar-nos em indivíduos. Deste ponto de vista, os católicos comprometidos na política podem dar um contributo importante.

 

O que pensa das eleições nos EUA? O eleitorado católico quebrou-se de maneira muito clara entre Biden e Trump.

É uma fenda que diz respeito não só ao mundo católico mas a toda a sociedade americana, e implica diferentes modalidades de olhar a pertença cristã. Nos EUA não se pode falar só de Igreja católica, mas é preciso ter em conta o vasto mundo evangélico e reformado. Julgo que o contributo católico para o debate americano seja o de manter juntas as diversas sensibilidades e identidades. O presidente eleito Biden, nisto, tem a possibilidade de interpretar esta sensibilidade e manter juntas as várias partes, favorecendo um encontro mais do que um recontro. Trump interpreta a política como recontro, Biden, por seu lado, aponta para a política como capaz de unificar, e o seu apelo, no dia a seguir às eleições, à alma da América tem a ver com o seu catolicismo não identitário que pode fundar uma fraternidade, como refere o papa na sua última encíclica, que nasce do terreno de uma pertença civil e social comum.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Famiglia Cristiana
Imagem: Assembleia da República | D.R.
Publicado em 17.11.2020

 

 

 
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