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Philippe Bries: Autor do «Cristo» dos Jerónimos

Era pior do que Judas, dizia-se. Iscariotes vendera Cristo apenas uma vez. Philippe Bries vendia-O muitas vezes, ao esculpir com frequência a Sua imagem. Considerava, não obstante, que essas e outras estátuas deveriam estar ausentes das igrejas. Só as fazia por dinheiro, afirmava, mas, quando lhes dava forma, era tal a qualidade que lhes imprimia e a sua consciência da mestria artística usada nessa tarefa, que não se coibia de afirmar - perante o escândalo dos ouvintes - ser impossível a Deus fazer melhor. Era assim o autor do magnífico Crucificado que ainda hoje preside ao coro-alto da igreja de Santa Maria de Belém, no lisboeta Mosteiro dos Jerónimos, esculpido entre 1550 e 1551.



Imagem "Cristo Crucificado", Philippe Bries (1550-1551), Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa | Fotografia: Ruy Ventura


Personalidade controversa, terá chegado a Portugal cerca de 1549. Logo nessa data surge em contexto cortesão, acompanhado por outros artistas que, num dia proibido pela Igreja, se lembraram de comer uma lebre no pomar do Paço Real de Almeirim. Esse dado, quase anedótico – não fossem as consequências graves que gerou, decorrentes do fanatismo inquisitorial –, pode indicar-nos quem o trouxe para o nosso país ou quem o mandou vir.

Em 1548, D. Constantino de Bragança (1528 – 1575) – filho de D. Jaime I, quarto Duque de Bragança, e de sua segunda mulher, D. Joana de Mendonça – estivera em França. Tinha apenas 20 anos, mas foi procurador do rei D. João III, representando-o como padrinho de baptismo de um filho de Henrique II (1519 – 1559), rei de França havia pouco tempo. Não sabemos se Philippe se encontrou em terras gaulesas com esse membro da alta nobreza portuguesa, se foi ele quem convenceu o artista a deslocar-se para Portugal, mas é bastante provável que os dois acontecimentos (a vinda de um e a viagem do outro) tenham estado interligados. Nove anos depois, vê-los-emos juntos. Em 1558, foram ambos para a Índia, altura em que o irmão do Duque D. Teodósio I, novo vice-rei, o levou para terras asiáticas. Bries era, nessa altura, um reputado engenheiro militar. Nessa condição aceitou deslocar-se e aí recebeu os maiores elogios do seu protector, que o contratou em Lisboa para colaborar em diversos trabalhos de fortificação, na condição – imposta pelo artista – de regressar à Europa mal eles fossem concluídos.

Quis, no entanto, a sua pouca fortuna que esse regresso não acontecesse, pelo menos quando ele esperava. Findo o mandato de D. Constantino, Philippe foi preso pela nova Inquisição de Goa, acusado de luteranismo. Abjurou, todavia, dos seus erros. Por razões que desconhecemos, não regressou à Península Ibérica. Manteve-se na Índia até inícios da década de 1570 e por essa altura trabalhava para o vice-rei D. Luís de Ataíde, sempre como engenheiro militar. É essa a última referência conhecida ao artista. Não sabemos o que lhe sucedeu depois, se ficou pela Índia , se regressou a Portugal ou mesmo ao seu país natal.

*

Philippe nasceu em França, na capital do condado da Champagne, a cidade de Troyes. Recebeu o apelido da mãe, mas do pai terá herdado a sua apetência artística. Era filho de Nicolas Halins, escultor flamengo ou holandês, e de sua mulher, Marie Bries ou Marie Le Bries, Maria Brias na versão lusa. Tal como a mãe, também ele viu o apelido modificado. Na documentação portuguesa surge com Brias, Briarte ou mesmo... Dias. Não sabemos quando nasceu nem onde decorreu a sua formação. Calculamos, ainda assim, que as primeiras lições lhe terão sido dadas pelo pai, um artista caracterizado pela versatilidade, cuja actividade está documentada entre 1494 e 1544. Se compararmos, todavia, a obra subsistente do progenitor com aquela que nos deixou o seu rebento, percebemos até que ponto Philippe suplantou Nicolas, tanto nas suas opções estéticas quanto na sua proficiência.



Imagem Assinatura de Philippe Bries, no recibo do "Cristo" dos Jerónimos (1551)


A gestação e o desenvolvimento das capacidades artísticas e técnicas de Bries, como escultor e como engenheiro militar, devem ter ocorrido nos estaleiros reais franceses, onde trabalharam dois artistas que podem ter sido seus irmãos, quiçá mais velhos. Encontramo-lo entre os “imaginários” que trabalharam no palácio de Fontainebleau, na década de 40 do século XVI. Nesse lugar, teve a oportunidade de trabalhar sob as ordens de Francesco Primaticcio (1504 – 1570), mas também ao lado de nomes tão importantes quanto Sebastiano Serlio (1475 – 1554) ou Giacomo Vignola (1507 – 1573). Teve ainda como companheiros nos trabalhos escultóricos – sobretudo na execução de estuques figurativos – nomes como Domenico del Barbieri (c. 1506 – c. 1570), dito Dominique Florentin (mais tarde activo em Troyes, a sua terra-natal) ou Pierre Bontemps (c. 1505 – 1568).

Ao chegar a Portugal, cerca de 1549, como dissemos, as suas capacidades já seriam amplamente reconhecidas. Terão sido elas a ditar a sua vinda. Só assim se consegue explicar o seu rápido ou imediato ingresso no grémio dos artistas estrangeiros que serviam a Casa Real, a mais alta nobreza e as casas religiosas protegidas por essa elite social. Embora a sua actividade no nosso país, entre esse ano e 1558, seja ainda largamente ignorada, vários testemunhos prestados por franceses e flamengos no Tribunal da Inquisição indicam-nos que terá sido responsável, sobretudo, pela execução de encomendas escultóricas e de marcenaria artística. Não é, no entanto, de rejeitar a hipótese forte – ou mesmo fortíssima – de ter trabalhado também, nessa quase-década, como engenheiro ou arquitecto, em obras por agora desconhecidas.

Teve vários colaboradores directos ou indirectos, artistas cuja obra está por identificar ou desapareceu: Pero de Loreto (f. 1560), Bartolomeu de Utreque, Francisco de Haste, entre outros. Mesmo para os historiadores de arte, não passam de ilustres desconhecidos. Terão sido, no entanto, eles os responsáveis por muitas obras subsistentes do nosso Renascimento, cuja autoria é difícil de ligar a qualquer personalidade surgida na documentação.

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Se as obras de engenharia ou de arquitectura de Philippe Bries têm sido escassamente identificadas e desapareceram por completo (ou permanecem ocultas), já a sua obra escultórica – ousamos dizer, a sua obra-prima – está bem patente em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos. A importância desse Cristo Crucificado, pelo qual recebeu em 1551 a vultuosa quantia de 45.000 réis (incluindo a madeira e o feitio de um Calvário que lhe servia de base) – paga pelo prior de Santa Maria de Belém, o mestre espiritual da Corte, Frei Miguel de Valença – granjeou-lhe, muitos anos depois, ser reconhecido como “hum dos mayores imaginarios que teve Lixboa”. Testemunhas várias da comunidade hieronimita afirmam que essa obra de arte – considerada uma “maravilha” – serviu de modelo para muitas mais. Confessa, todavia, Frei Manuel Bautista de Castro, cronista do século XVIII, que “nunca das suas maons sahio obra taõ devota”.

Instalada no coro-alto em 1551, por alturas da trasladação solene dos ossos da família real – nomeadamente de D. Manuel I – para a capela principal do Mosteiro de Santa Maria de Belém, essa escultura de Bries dialogava com um Cristo ressuscitado que coroava a estante grande (ou facistol), esculpida pelo espanhol Diogo de Çarça (f. 1560), cumprindo talvez um desenho de Diogo de Torralva. À sua volta, organizava-se o cadeiral onde os monges praticavam os seus ofícios corais. Essa relação – notada por Pedro Flor no seguimento de estudos de Sylvie Deswarte-Rosa, Diogo Maleitas Corrêa e outros autores – evidenciava o cristocentrismo da espiritualidade hieronimita. Foi modificada em finais do século XVII ou já no século XVIII, altura em que o Redentor foi substituído por uma representação da Imaculada Conceição.

Não se sabe, deveras, quem esculpiu o cadeiral, obra importantíssima de marcenaria artística, mas é defensável que o responsável pela obra tenha sido o supracitado sobrinho de Vasco de la Zarza, decerto em parceria com outros escultores, entre os quais devem ter estado, pelo menos, o francês Philippe Bries e Ascenso Dias, talvez flamengo. Pouco tempo depois, em 1557, vemos uma equipa chefiada por este último marceneiro e imaginário a trabalhar na belíssima caixa do órgão renascentista da Sé de Évora, a mesma que, em 1562, elaborou o deslumbrante cadeiral da catedral alentejana.



Imagem "Cristo Crucificado" (pormenor), Capela Real de Salvaterra de Magos, atrib. Philippe Bries e colaboradores | Fotografia: Ruy Ventura


Se a única obra inequivocamente documentada de Bries é o Crucificado de Santa Maria de Belém, em cuja encomenda (e pagamento?) esteve envolvido o Infante D. Luís, sabemos que Philippe esculpiu para este ilustradíssimo membro da Casa Real uma outra obra com a mesma temática. Comprova-o um documento descoberto e publicado pela primeira vez por Rafael Moreira. O autor destas linhas, num estudo publicado na revista Magos, logrou identificar essa obra na Capela Real de Salvaterra de Magos, cuja edificação se deve, precisamente, ao irmão do rei D. João III. Depois de aturada análise, propusemos ainda no jornal Público que os relevos de estuque do Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade da Esperança, situado em Lisboa na actual Avenida D. Carlos I, e hoje salvaguardados no Museu Nacional de Arte Antiga, lhe devem ser atribuídos em boa parte, tendo em conta afinidades estilísticas e contextuais. Mesmo que outras mãos secundárias ali se possam notar – eventualmente as de Çarça e de Ascenso – não se pode esquecer a sua enorme experiência, adquirida em Fontainebleau, local onde colaborou na execução de trabalhos escultóricos em stucco. Em vários trabalhos seus já foi apontada a eventual colaboração de Francisco de Holanda ao nível do desenho.



Imagem "Lamentação sobre Cristo Morto", pormenor, MNAA (Lisboa), atrib. Philippe Bries e colaboradores | Fotografia: Ruy Ventura


Apesar do que afirmamos, a obra escultórica deixada por Philippe Bries – ou Filipe Brias, como era conhecido entre nós – está em grande parte por descobrir e identificar. Escultor relutante, não terão sido poucas as peças de estatuária que terá esculpido, nos nove anos em que permaneceu em território nacional. Há pelo menos mais uma peça que, a seu tempo, revelaremos, mas é muito pouco para tanto tempo entre nós. O mesmo se pode dizer da sua produção em Goa e nas outras localidades dos domínios portugueses na Índia. Ainda que alguns Cristos aí patentes mostrem a influência do Crucificado dos Jerónimos, nenhum deles lhe pode ser atribuído. Será que, nesse território, foi apenas engenheiro militar, tarefa pela qual recebia proventos mais avultados?

Futuros estudos – e novas descobertas documentais – poderão responder a esta e a muitas outras perguntas.



NOTA:
Este artigo retoma, em grande parte, as informações e os documentos inéditos ou pouco conhecidos, publicados recentemente por Francisco Bilou e pelo autor destas linhas. Esse texto, intitulado “De Troyes a Goa: o escultor e engenheiro Filipe Bries (act. 1548 – 1571)”, está disponível em https://shorturl.at/ACQXY.
Aguarda publicação na revista "Artis", da Faculdade de Letras de Lisboa, um outro estudo dos mesmos autores sobre o mesmo escultor.

Para mais informações, podem ser lidos os seguintes estudos:
BILOU, Francisco (2017) – Bartolomeu de Utreque, o flamengo que faz retavolos na Lisboa quinhentista. Notas documentais para um percurso artístico (1556 – 1566). Publicado em www.academia.edu.
DESWARTE-ROSA, Sylvie ([1993]) – “Francisco de Holanda e o Mosteiro de Santa Maria de Belém”. Jerónimos, 4 Séculos de Pintura, vol. 2, Lisboa, IPPAR: 40 – 67.
FLOR, Pedro (2008) – “Novos Dados sobre o Escultor Renascentista Filipe Brias”. ArteTeoria – Revista do Mestrado em Teorias da Arte da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, nº. 11: 66 – 73.
MOREIRA, Rafael (1989) – “O Cadeiral dos Jerónimos”. O Rosto de Camões e outras imagens [catálogo], Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses: 6 – 11.
VENTURA, Ruy (2022) – “Salvaterra de Magos: duas esculturas (quase) esquecidas”. Magos – Revista Cultural do Concelho de Salvaterra de Magos, n.º 9: 91 – 113.
VENTURA, Ruy (2023a) – “Relevos do Mosteiro da Esperança: muitas perguntas, algumas respostas”. Público, Lisboa, n.º 12056, 4 de Maio: 30.


 

Ruy Ventura
Investigador e escritor, CEAACP – Universidade de Coimbra
Imagem de topo: Pierre-Jean Durieu/Bigstock.com
Publicado em 21.11.2023

 

 
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