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A imprevisibilidade e o camaleónico ecletismo de Peter Sellers

«Como homem era desprezível, provavelmente o seu pior inimigo, apesar de recheada concorrência.» Não foi simpático o realizador Roy Alfred Boulting no seu obituário pela morte de Peter Sellers, o eclético ator britânico que morreu de um enfarte a 24 de julho de 1980, com apenas 54 anos, intérprete do inspetor Closeau, da série “A pantera cor-de-rosa” e de outros personagens inesquecíveis, com o hindustano Hrundi V. Bakshi, de “A festa” e o cientista ex-nazi de “Dr. Estranho Amor”. Mas ainda que extremamente cortante, na sua subtil ironia aquele obituário dizia, no fundo, uma verdade bem conhecida no ambiente do cinema de então sobre o carácter de Sellers. Uma verdade, aliás, nunca negada pelo ator: «Se não consigo encontrar uma maneira para viver comigo próprio, não posso esperar que alguém vica comigo», confidenciou.

E quem o tinha experimentado, podia confirmá-lo. Como a primeira das quatro mulheres, Anne Hayes: «Era amoral, perigoso, vingativo, um egoísta total, e ao mesmo tempo tinha o fascínio do diabo». Um carácter complexo, portanto, que o amigo David Lodge explicava assim: As suas inseguranças derivavam do facto de não ser feliz consigo mesmo: o único momento em que era feliz era quando podia ser algum outro personagem». De resto, o próprio Sellers dizia que conseguir dar vida às suas máscaras precisamente graças ao vazio da sua alma. «Foi como ter casado com as Nações Unidas», declarou Hayes ao falar do contínuo transformismo atrás do qual o autor ocultava a sua inquieta personalidade, por vezes melancólica, marcada por excentricidades, mas também por uma subtil forma de autodestruição, evidenciada pelos excessos que lhe provocaram uma série de enfartes, o primeiro dos quais em 1964, com apenas 38 anos, até ao fatal.



Sellers foi um ator dúctil, capaz de interpretar capazmente tanto papéis cómicos como dramáticos. A sua presença no set ocultava sempre algo de imprevisível, muitas vezes genial. Disso deu-se conta Kubrick, que só a ele permitiu improvisar diante da câmara



Nascido em Portsmouth a 8 de setembro de 1925, Richard Henry – o seu nome de batismo –, Peter cresceu numa família de artistas; a mãe era atriz teatral, o pai pianista. De origens judaicas ela, protestante ele, foi enviado para uma escola católica. A sua vida artística começou como bailarino, depois como baterista em grupos jazz. Após algumas sessões para pilotos da Força Aérea – não foi alistado devido a problemas de visão –, dá os verdadeiros primeiros passos no mundo do espetáculo na rádio, logo após o fim da guerra, construindo o nome com o programa “Ray’s a laugh”. Mas foi depois do encontro com Spike Milligan e Harry Secombe que que no “The goon show” Sellers pôde exprimir o seu talento cómico.

O ambicioso salto para o mundo do cinema acontece em 1951 com “Penny points to Paradise”, de Tony Young, ainda que foi após a participação em “O quinteto era de cordas”, com Alec Guinness, que a carreira se abriu aos sucessos, graças às extraordinárias colaborações com Stanley Kubrick (“Lolita”, “O Dr. Estranho Amor”) e com Blake Edward (a séria de “A pantera cor-de-rosa”, “A festa”). Uma carreira excecional, não só como ator cómico, que lhe vale duas candidaturas ao Óscar como melhor protagonista, em 1965, pelo citado “Dr. Estranho Amor” (onde interpretava mais duas personagens, o desajeitado coronel Lionel Mandrake e o excêntrico presidente Merkin Muffley), e, surpreendentemente, em 1980, por um papel dramático em “Bem-vindo Mr. Chance”, de Hal Ashby. Outra candidatura, em 1960, tinha-a obtido pela curta-metragem “The running jumping & standing still”, que escreveu e interpretou com Richard Lester. Experimentou também a realização, em 1959, dirigindo “A solidão da riqueza”, acolhido com frieza pela crítica e pelo público.

As nomeações certificaram que Sellers foi um ator dúctil, capaz de interpretar capazmente tanto papéis cómicos como dramáticos. A sua presença no set ocultava sempre algo de imprevisível, muitas vezes genial. Disso deu-se conta Kubrick, que só a ele permitiu improvisar diante da câmara. No seu camaleónico ecletismo, Sellers conseguia desafogar a sua verve artística feita de humor brilhante e corrosivo, que explodia em frases fulgurantes.



A figura do inspetor Closeau aparece como uma espécie de “schlemiel”, máscara cómica que na cultura judaica da Europa oriental incarna a desfortuna proverbial, mas também o tolo, o desafortunado, transformado por Sellers num anti-herói capaz de, à sua maneira, e apesar de tudo, levar a melhor sobre a sociedade



A sua comicidade isentava os personagens que interpretava de caracterização psicológica. O seu rosto, a sua mímica, a ductilidade da linguagem era suficientes para delinear com  traços claros e distinguíveis aquilo que era necessário saber. «Não há qualquer profundidade nas suas máscaras: há, antes, uma extraordinária riqueza de comportamentos, de tiques físicos e linguísticos, uma labiríntica construção da personagem que não pressupõe minimamente uma pessoa. Quem é o Dr. Estranho Amor, de onde sai repentinamente, que infância viveu? Perguntas supérfluas: entra em cena, abre a boca e decide os destinos do mundo. Quem é Chance, o jardineiro, porque é que se reduziu assim? Quem é o inspetor Clouseau, como fez carreira, porque tem um empregado japonês? Quem é Clare Quilty, como conheceu Lolita, o que o leva a travestir-se de maneira compulsiva? De novo: perguntas supérfluas. São personagens que existem nos atos que realizam, e quando entram em cena mudam o mundo à sua volta», escreveu Andrea Ciaffaroni em “In arte Peter Sellers”.

Por trás da propensão ao mascaramento e ao desdobramento parece haver algo de humorismo judaico. A sua comicidade sarcástica e ao mesmo tempo dolente, a autoironia e os jogos de palavras testemunham esse enraizamento. Inquietude e melancolia caracterizaram os seus personagens mais hilariantes, E não é por acaso que, para alguns, a figura do inspetor Closeau aparece como uma espécie de “schlemiel”, máscara cómica que na cultura judaica da Europa oriental incarna a desfortuna proverbial, mas também o tolo, o desafortunado, transformado por Sellers num anti-herói capaz de, à sua maneira, e apesar de tudo, levar a melhor sobre a sociedade.

Uma partida do destino quis que Peter Sellers, já fisicamente marcado, morresse poucos meses depois de ter rodado “O diabólico Dr. Fu Manchu”, filme em que o protagonista é um cínico cientista eternamente jovem graças a um elixir de vida eterna. A película teve uma receção péssima. Tom Shales, no “Washington Post”, descreveu o filme como «uma comédia indefensavelmente inábil», acrescentando que «é difícil encontrar  outro excelente ator que tenha feito tantos filmes de baixa qualidade como Sellers, um comediante muito dotado mas cruelmente acabado». Um juízo desapiedado, como aquele contido no obituário de Boulting.

Tudo visto, permanece ainda um bom número de filmes que devem o sucesso ao génio de Sellers. É não é por acaso que os seus personagens tenham inspirado – e continuem a inspirar – uma espessa fileira de atores cómicos, que com ele contraíram uma dívida de reconhecimento.


 

Gaetano Vallini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Peter Sellers | D.R.
Publicado em 28.07.2020

 

 
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