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«A beleza é necessariamente uma aparência. É-lhe própria uma opacidade»: Pentecostes em processo criativo

Que ferramentas, Senhor?
Mário Linhares

Nas corporativas medievais talvez fosse esta a primeira pergunta de um aprendiz ao seu mestre. Cimabue, Giotto, Fra Angelico, Rafael, Leonardo, Miguel Ângelo, entre tantos outros artistas, passaram pelo processo de aprendizagem para dominar as ferramentas de trabalho.

Pode ser interessante perguntarmo-nos que ferramentas devemos aprender a usar hoje. Interessante não, fundamental! Como entrar hoje nos textos bíblicos para os compreender? Pelos mesmos caminhos que os séculos anteriores descortinaram e ficar por aí? Se assim fosse, a hermenêutica bíblica teria estagnado.

Compreender o contexto em que foi escrito o texto é o ponto prévio para um chão comum de entendimento. Depois disso, há que colocar em cima da mesa os dons de cada um. No nosso caso, meu e do P. Nuno Branco, trata-se de aguarelas, pincéis, riscadores. Pensamos melhor quando desenhamos. Mergulhamos mais fundo quando damos cor ao texto. Encontramos algumas respostas, mas é sobretudo a vontade de voltar a mergulhar nestas palavras que nos motiva.

Para este Pentecostes, há uma construção que se anuncia. Palavras que ultrapassam fronteiras. Frases que se misturam sem nunca perderem o seu sentido. Vozes a soar a italiano, francês, brasileiro, austríaco, colombiano, todas diferentes, mas uma só. Um todo colorido que nos faz mergulhar para vir à tona respirar. Pela melodia somos levados numa viagem que nos exalta e acalma. Ao som do Espírito.

 

«Senhor, nós queremos ver Jesus»
P. Nuno Branco, sj

O belo é um esconderijo. A ocultação é essencial àbeleza. A beleza dá-se mal com a transparência. A beleza transparente é um oximoro. A beleza é necessariamente uma aparência. É-lhe própria uma opacidade. Opaco significa “sombreado”. O desvelamento desencanta e destrói a beleza. É por isso que o belo, obedecendo à sua essência, é indesvelável. (Byung-Chul Han em “A salvação do belo”)

Enquanto criatura, o artista parece não escapar-se a uma pretensão de se tornar criador. Criador porque naquele feliz assombro, próprio das criaturas, encontrou o desejo de narrar aquilo que lhe foi dado a espreitar por entre um véu e uma cortina: Deus parece ter feito poisar sobre ele, uma língua de fogo.

Movido e enchido por este Espírito, o artista parece fixar o seu lugar numa geografia entre Babel e Pentecostes. Se por um lado, um desejo inebriado de atingir o próprio Deus, visionário de um novo céu e de uma nova terra onde construirá a mais bela instância da criação – a cidade e a torre –, por outro depara-se que a mesma arte só será relevante se não vier unicamente de si. É preciso autorizar que o Espírito possa pousar.

Ainda assim, é irremediável que a linguagem se mantenha confundida, interrogativa e atónita. A construção da arte tem de aprender a suspender-se. Será sempre, portanto, um contínuo processo de recriação e de soslaio por onde nasce esta reconciliação com o mistério sempre indecifrável de Deus.

Abrindo a cortina e recuperando-lhe pelas cores a eventual unidade desfeita, com respeito e afeição se reúnem num novo quadro as línguas maternas dos habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Egipto e dos colonos de Roma.

E todos estes novos habitantes nos fazem recordar aquele reduzido grupo de gregos que aproximando-se do apóstolo Filipe (de Betsaida da Galileia) lhe manifestaram um único pedido:

«Senhor, nós queremos ver Jesus» (Jo.12, 20).






 

Mário Linhares, Nuno Branco, sj
Imagem: D.R.
Publicado em 01.06.2020

 

 
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