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Pensar a virgindade de Maria

Na cultura cristã do Natal, a figura de Maria virgem é uma centralidade inevitável, sublinhada a cores pela liturgia da Igreja, que, mesmo no primeiro dia do ano civil, ainda extasiada na contemplação do presépio, a celebra como Virgem Mãe do Filho de Deus. Ela cede o protagonismo ao Natal do filho, sim. Mas, quando a revelação bíblica o descreve, implica-a a ela no mistério desse Nascimento, contando que ela era virgem e que, antes de coabitar com José, seu esposo, «se encontrou grávida por obra do Espírito Santo». O mensageiro do Senhor diz a José: «O gerado nela é do Espírito Santo; dará à luz um filho e pôr-lhe-ás o nome de Jesus» (Mt 1,18-25). Lucas (1,26-38) explicita que ela era «virgem desposada» com José e que «não conhecia varão»; um anjo anuncia-lhe: «Conceberás no teu seio e darás à luz um filho, a quem darás o nome de Jesus…; o Espírito Santo virá sobre ti…; por isso, aquele que é concebido santo será chamado Filho de Deus». Afirmando assim a virgindade de Maria e a conceção virginal do filho, a tradição apostólica queria confessar a sua fé em Jesus como Filho de Deus, que assumiu a natureza humana: a virgindade de Maria e o nascimento virginal de Jesus exprimem a transcendência e divindade dele. Depois a Teologia dogmática procurou, não demonstrar ou comprovar, mas tornar razoável para a fé esta verdade bíblica. Podemos pensá-la em dois momentos:

 

1.º: Por trás do texto

Como pano de fundo dos relatos que a descrevem em Mateus (1-2) e em Lucas (1-2) está a cultura bíblica e extrabíblica do seu tempo. Chama logo a atenção o género de linguagem, toda ela evocativa das Escrituras judaicas divinamente inspiradas e da atmosfera espiritual e literária do mundo bíblico. O leitor mergulha logo em inúmeras passagens do Antigo Testamento cristão. Cada uma das cinco cenas de Mateus está sugestivamente iluminada por uma citação principal do Antigo Testamento, tendo como referência o tema do menino: são um ramalhete de flores colhidas do campo das Escrituras para ornar o menino Jesus. Também Lucas envolve a imagem de Jesus menino na roupagem literária do Antigo Testamento, pintada com as suas cores, traços característicos e conteúdos. Os textos da anunciação do anjo a Maria, do seu Magnificat e do Benedictus de Zacarias estão tecidos com as malhas (temas, imagens, figuras, personagens, anúncio do nascimento de meninos, expressões e palavras) da página sagrada: significam que Jesus realiza – já desde a sua conceção na natureza humana – o projeto de Deus para salvar a humanidade, lá descrito.



A narrativa em forma de "midráš" não se exprime ao nível de factos constatáveis empiricamente, nem a sua espessura espiritual pode ser reduzida a um assunto de genética, totalmente estranha à sua intenção



Ora, este procedimento literário que recorria às Escrituras com a intenção de iluminar realidades e acontecimentos do tempo presente era corrente na cultura judaica ao tempo da redação dos evangelhos. Era conhecido com a designação hebraica midráš. A palavra significa «investigação, procura, busca». Procurava o sentido para a vida em textos das Escrituras judaicas canónicas. Buscava Deus para dar sentido humano e espiritual a uma situação concreta, cultural, social, familiar, cultual… Partia de factos reais do presente, procurando interpretá-los e iluminá-los com as Escrituras. Fazendo cristalizar por escrito várias linhas da cultura judaica sobretudo entre os séculos II a.C. e V d.C. (especialmente nos comentários a livros das Escrituras, chamados Midrášim), produzia vários géneros literários, por exemplo, midráš em forma de homilia quando comentava a Escritura na sinagoga; quando cruzava a narrativa fundadora da fé descrita nas Escrituras com a vida do narrador que compunha uma nova narrativa, acontecia midráš narrativo. Abunda nos escritos do Novo Testamento, cujos escritores conheciam à perfeição princípios, procedimentos, técnicas e regras do seu funcionamento. É essa a forma literária específica das narrativas do nascimento e da infância de Jesus em Mateus e Lucas.

Não são história propriamente dita. São meditação em forma de narração. O midráš, com a sua linguagem imagética, brinda a chave de interpretação de factos históricos, do futuro Jesus, qual abertura que dá o tom divino e o alcance humano à sinfonia da sua vida e obra.  Celebra o assombro e o encantamento perante as maravilhas de Deus naquele menino. Narrando, não inventa nada sobre Jesus: proclama a sua identidade e a sua missão messiânica, usando a linguagem da própria palavra de Deus nas Escrituras. Elas ajudam a penetrar no mistério e a exprimi-lo.



A verdade da conceção de Jesus por ação do Espírito não pode nem quer ser demonstrada; quer ser acreditada. Só a fé capta tão sublime verdade. A afirmação do nascimento de Jesus da virgem Maria está narrativamente ao serviço da fé pascal para identificar Jesus como Filho de Deus



O midráš descobre nas passagens da Escritura que cita – e dá-lhes – um sentido novo, porque as rescreve com a clave nova – Jesus Cristo – colocada no princípio do ‘pentagrama’ dessas passagens: ele faz soar nelas uma melodia nova. É, por exemplo, o salto que dá Mt 1,22-23 citando Isaías 7,14. O profeta tinha dito: “Eis que uma donzela concebeu e dará à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel”. Referia-se ao nascimento do filho da rainha donzela, o rei Ezequias, com um nome profético, simbólico, Deus connosco, porque no seu longo, próspero e pacífico reinado de 29 anos fora símbolo da presença, proteção e bênção de Deus para o povo de Judá. Mateus, narrando a conceção e o nascimento de Jesus, para significar que ele era agora a verdadeira Presença de Deus no meio do seu povo, adotou e adaptou a citação de Isaías, propositadamente segundo a versão grega já existente desde o séc. II a.C. Esta tinha traduzido a “donzela” do hebraico por parthénos, que significa donzela mas também virgem. Pegando na significação – possível – de virgem, Mateus afirmava que Jesus não era um homem qualquer mas sim filho de Maria virgem. Este acrescento de sentido é a maravilha realizada pelo midráš, que mostra a continuidade – e faz acontecer progresso – na revelação bíblica. O midráš permitia ver no plano salvífico de Deus uma orientação dos acontecimentos e da vida para um futuro melhor e para a sua realização definitiva em Jesus: via os factos narrados nas Escrituras grávidos de sentido antropológico e teológico, sentido dado pela iniciativa divina, sentida na história por meio da fé.

 

2.º: No texto

Atendendo a este fundo cultural e religioso, percebe-se que a palavra de Lucas e Mateus (1-2) não narra a conceção e o nascimento de Jesus como se estivesse a vê-los por fora. Narra o que a fé apostólica via por dentro desse acontecimento histórico: via o seu sentido teológico. A palavra da fé não perguntava sobre um facto biológico extraordinário e humanamente impossível; nem dava a ideia de que as relações matrimoniais tornariam a geração de Jesus menos pura ou indigna d’Ele, numa espécie de exaltação da castidade da mãe. O que a fé via está para além do modo como possam ter acontecido a conceção e o nascimento de Jesus ao nível físico, biológico, ginecológico. Como vimos, a narrativa em forma de midráš não se exprime ao nível de factos constatáveis empiricamente, nem a sua espessura espiritual pode ser reduzida a um assunto de genética, totalmente estranha à sua intenção. É narrativa religiosa, de pura fé, para suscitar mais fé. Não se podem colocar à narrativa perguntas de fisiologia, às quais ela não quer nem consegue dar resposta e para as quais não foi pensada. Não tem intenção de fazer biografia ou informar sobre história. Quer formar a fé sobre o ser daquele menino. Quer dizer que Deus se comprometeu, pelo seu Espírito, no nascimento dele. Deter-se a perguntar «como pôde Maria conceber sendo virgem?» seria tão absurdo como colocar perguntas de ciências naturais ou de historiografia a uma poesia. Perguntas desse génerocondicionam e estorvam a captação da mensagem humana e religiosa desses textos, que é a que constitui palavra de Deus. Os leitores imediatos não faziam essas perguntas (nem o leitor sensato faz perguntas sobre como decorreu o concílio dos deuses nos primeiros versos do canto V da Odisseia de Homero). Acolhiam a verdade Espiritual para a qual aponta a virgindade enquanto realidade absoluta, a de uma pessoa livre de qualquer posse por parte dos humanos: entravam e ficavam na contemplação de Jesus como Filho de Deus e de Maria como sacrário do Filho de Deus.



Aquilo que é literariamente tecido com as imagens que iluminam o factual é a trama pormenorizada do anúncio da conceção e do nascimento do menino, o magnificat que o celebra, a narrativa dos magos que o vêm adorar como forma de reconhecer a sua divindade



Portanto, a verdade da conceção de Jesus por ação do Espírito não pode nem quer ser demonstrada; quer ser acreditada. Só a fé capta tão sublime verdade. A afirmação do nascimento de Jesus da virgem Maria está narrativamente ao serviço da fé pascal para identificar Jesus como Filho de Deus: envolve-o e vê-o no mistério de Deus. Aliás, o ato de fé na conceção virginal de Jesus, expresso nas narrativas bíblicas, só se pode entender no contexto da fé na sua ressurreição pela ação do Espírito de Deus. De facto, essas narrativas pressupõem uma meditação retrospetiva sobre as origens de Jesus à luz da ressurreição, que revelou plenamente o mistério do seu ser. Como a fé cristã dizia que foi o Espírito do Pai a fazê-lo ressuscitar para a vida Espiritual, também disse que foi o Espírito a fazê-lo nascer para a vida física: “O anjo do Senhor respondeu [a Maria]: o Espírito Santo virá sobre ti…; por isso, aquele que é concebido santo será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). O título Filho de Deus é posto na palavra do “anjo do Senhor” como a boa nova da ressurreição, significando que, no nascimento como na ressurreição é afinal Deus que pode revelar quem é o seu Ungido (Lc 1,26-38; 2,9-15 e 24,4-7). O acontecimento teológico da ressurreição de Jesus projetou luz sobre a sua vida terrena, também sobre a conceção e o nascimento.

Sendo midráš, as narrativas desses dois acontecimentos não são literatura de ficção. Mas eles não sucederam à letra nos pormenores, com a exatidão factual que uma visão historicista gostaria de descobrir nelas: são fusão do factual com o imaginado. Jesus, Maria, José, João, Isabel, Zacarias, os pastores… são personagens históricas: a conceção e o nascimento de Jesus aconteceram mesmo. Belém, Jerusalém são lugares conhecidos. Aquilo que é literariamente tecido com as imagens que iluminam o factual é a trama pormenorizada do anúncio da conceção e do nascimento do menino, o magnificat que o celebra, a narrativa dos magos que o vêm adorar como forma de reconhecer a sua divindade... As citações trazidas do Antigo Testamento querem iluminar teologicamente os mistérios relacionados com o nascimento de Jesus. Por meio do midráš narrativo, o seu nascimento objetivo evidenciava “a plenitude dos tempos” e realizava a esperança do povo ligado à revelação bíblica, dando-lhe voz e substância: aparecia como anel central da cadeia da história salvífica, entre o Antigo Testamento e o Novo. O midráš, com o ramalhete de palavras das Escrituras, sugeria que Jesus tinha “cumprido” à perfeição as profecias e promessas nelas contidas, isto é, o desígnio salvador de Deus para a humanidade. Os embelezamentos literários (anunciação do anjo, chacina dos inocentes, fuga para o Egito…) fecundavam de sentido transcendente os factos históricos mencionados. Eram espiritualidade a meditar a história: sugeriam o invisível, que o historiador não poderia contar. O midráš narrativo convida o leitor a ver para além de si mesmo, a transferir-se para dentro do mistério e a deixar-se orientar por ele a partir do Alto, enlevado na contemplação pela virtude da palavra.


 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, professor catedrático jubilado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: "O casamento da Virgem" (det.) | Nicolas Poussin | 1640
Publicado em 05.01.2021

 

 
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