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Pensamos muito em converter o “mundo” e pouco em nos convertermos nós próprios

«Não começa o nosso século a ser um grande Sábado Santo, dia da ausência de Deus, no qual também os discípulos tiveram um vazio gelado no coração que se ampliou cada vez mais, e por esse motivo se prepararam, cheios de vergonha e angústia, taciturnos e destruídos pelo seu desespero, para o regresso a casa, rumo a Emaús, não se dando conta de que aquele que acreditavam estar morto estava no meio deles?»

Quem assim escreve, por ocasião da Páscoa de 1969, é o então teólogo Joseph Ratzinger. Com efeito, o Sábado Santo é um poderoso símbolo do nosso tempo, marcado pelo silêncio de Deus e pela afirmação da opção secular que tornou a incredulidade uma possibilidade, por princípio, acessível a todos, e através da qual a fé se torna uma opção entre as outras.

Aliás, afirmar que a fé, hoje, está em crise não significa que no passado estivesse no auge. Considerar que o desafio do crer é uma questão a colocar apenas na época moderna é um erro estratégico, além de histórico. A dimensão a reencontrar é a do “caminho”, sem fazer do passado a idade dourada.

De facto, um dos elementos típicos do cristianismo é projetar-se para diante. A fé “vê” na medida em que caminha», escreveu o papa Francisco na sua primeira encíclica (“Lumen fidei”, 9). A fé, portanto, consiste em colocar-se em movimento, escutando um convite e confiando-se numa promessa de plenitude. E este movimento gera aproximação a outros, encurtamento das distâncias, construção de proximidade.

Para, aos poucos, dissolver aquilo que divide, alargar o espaço comum, dar qualquer coisa de si aos outros, transformar a fragmentação em unidade. As outras duas encíclicas, “Laudato si’” e “Fratelli tutti”, explicitam como estar dentro dos processos históricos: não como espetadores, mas como protagonistas. Isto deixa emergir o dinamismo da fé, voltado para fermentar não só o singular, mas toda a sociedade, e também o ambiente natural.

Temos, todavia, de reconhecer que pensámos muitas vezes em converter o “mundo” e pouco em converter-nos a nós próprios, isto é, passar de um estático “ser cristão” a um mais dinâmico “tornar-se cristão”.

A pandemia, através das igrejas vazias, colocou em relevo a necessidade de tentar novos caminhos para ir ao coração do Evangelho, sem voltar a um mundo que já não existe. Talvez tenha chegado o momento de colocar à prova as palavras evangélicas «onde estão dois ou três reunidos no meu nome, Eu estou no meio deles».

Talvez a situação de emergência que periodicamente continua a ser vivida em vários lugares do mundo encoraje um novo rosto da Igreja, a qual é como que obrigada a sair de si. O cardeal Bergoglio, no dia antes da sua eleição, citava o livro do Apocalipse, na parte em que Jesus bate à porta, e comentava: «Hoje, Cristo está a bater do lado de dentro da Igreja e quer sair».

Isto significa que devemos ampliar os limites da nossa visão da Igreja. Porque, como dizia o teólogo P. N. Evdokimov, «sabemos onde está a Igreja, mas não sabemos onde não está». Este é o tempo para uma busca mais audaz de Deus em todas as coisas. Melhor, é o momento oportuno para se “fazer ao largo” e procurar uma nova identidade para o cristianismo num mundo que muda radicalmente debaixo dos nossos olhos.


 

Domenico Pompili
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: davidzfr/Bigstock.com
Publicado em 03.04.2021

 

 
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