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Para que as igrejas fiquem menos vazias

A secularização na Europa parece não conhecer paragens. Nos países do norte, a prática religiosa está desde há tempos em níveis baixos (Escandinávia, Reino Unido, Holanda: menor que 10%), e continua lentamente a cair (Alemanha, França); também não resiste a tradicional tendência feminina para a religiosidade. A novidade é que agora desaba igualmente o número daqueles (não praticantes) que se definem “cristãos”. As mesmas tendências, em níveis mais altos, registam-se na Irlanda e nos países mediterrânicos.

No denominado sul do mundo, duas tendências demográficas travam a secularização. Na América Latina (México), África (sul), Ásia (Filipinas), os dados disponíveis não revelam quedas da religiosidade. Sucede assim que a migração daqueles países amortece o processo de secularização dos países de destino. Por exemplo, em Itália, onde 52% dos migrantes que chegam não são muçulmanos, a prática religiosa é superior à dos nativos. Mas estes fenómenos não são suficientes para inverter as tendências: as igrejas continuam a esvaziar-se.

Nos países nórdicos fecham-se lugares de culto, agrupam-se paróquias, experimentam-se novos tipos de “comunidade paroquial” nos lugares de trabalho; as Confissões protestantes menores fundem-se entre elas ou confluem para as maiores; isto não muda as tendências a longo prazo. As Igrejas devem, por isso, interrogar-se mais profundamente sobre as causas do seu declínio.

A análise sociológica parece mostrar que a secularização atinge mais os países protestantes e ortodoxos do que os católicos, bem como os países mais “avançados”, com base no rendimento; o papel da educação, neste aspeto, é incerto. Mas as correlações estatísticas não explicam o que está por trás.



Quer os cristãos do primeiro século quer os do século XXI têm em comum (“partilham” passivamente) a fé em Cristo. Mas os primeiros cristãos partilhavam (ativamente), mais do que a doutrina, também a experiência quotidiana da incarnação na sua vida da Salvação que vem do Espírito



Ao longo dos anos há quem tenha colocado o acento sobretudo na identidade (católica), deslavada e envenenada pelo bem-estar e pelo liberalismo. Simplificando: a tese era que uma linha de firmeza e rigor doutrinal poderia restituir credibilidade e atratividade à Igreja católica.

Depois, o acento deslocou-se, e hoje parece prevalecer a visão oposta: se não se escutam “os sinais dos tempos”, não se é compreendido pelas “novas gerações”. Assim, além de “atualizar a mensagem”, as Igrejas procuram “modernizar a comunicação”. Como se pode pensar intercetar os jovens quando estes comunicam através de plataformas digitais, se a mensagem religiosa viaja de maneira tradicional? Mas os instrumentos digitais não podem criar um interesse se este não existe. Outras questões em jogo são o “machismo” de algumas Igrejas, a moral sexual, o celibato dos padres, a relação com o poder económico e político. Mas nenhuma parece explicar verdadeiramente a questão. E estatisticamente não obtêm resultados satisfatórios nem as Igrejas mais “modernas” nem as mais “conservadoras”.

Surge, portanto, espontânea a pergunta: o ser humano moderno ainda tem necessidade de Deus e das religiões? Os dados à disposição parecem indicar que não.

O convite de Jesus é sempre o mesmo: «Quem quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me». Vendo bem, porém, os jovens europeus estão subjugados por mil coisas – uma entre elas é o abuso de audiovisuais –, em famílias onde figuras parentais fracas têm dificuldade em transmitir concretamente os valores que conheceram e experimentaram – entre estes, a experiência religiosa. Muitas vezes estão abandonados ao tédio, à preguiça, aos atalhos e ao vazio. Mas quem trabalha com os jovens diz que estes têm fome de infinito, de beleza e de Deus; interrogam-se sobre quem são, de onde vêm, para onde vão, que sentido tem o compromisso, a dor, o amor, quem os ama e quem não. Quando emergem estas perguntas latentes, tornam-se mais interessados nas relações com os adultos, com o diferente, com o Mistério. Com efeito, têm grande sucesso os encontros internacionais das Jornadas Mundiais da Juventude; e nas Igrejas continuam com vitalidade muitos grupos juvenis, onde se entretecem relações concretas.



Nas atuais missas dominicais participam, na maior parte dos casos, desconhecidos que permanecerão sempre como tais. À saída da missa saudamos por vezes os nossos conhecidos e amigos que habitam no bairro, é verdade; mas fazemo-lo muitas vezes com algum embaraço, quase escusando-nos de confessar a fé



Quais são, então, os possíveis remédios contra a secularização? A “fotografia” da primeira Igreja de Jerusalém que emerge da leitura dos Atos dos Apóstolos pode ajudar (2, 42-47). Esquematizando, a primeira comunidade cristã perseverava em quatro coisas: a transmissão da mensagem de Cristo; a união fraterna, estar, comer juntos; partilhar os bens materiais «segundo a necessidade de cada um»; a Eucaristia, frequentar juntos o templo.

A prática religiosa das Igrejas modernas centra-se na liturgia dominical, que privilegia fortemente o primeiro ponto. Mas já quando se passa ao segundo nota-se um profundo afastamento: na prática religiosa moderna falta a relação humana. Os membros da primeira Igreja cristã socializavam, eram amigos ou estavam dentro de um mecanismo que favorecia a amizade a priori. Pode imaginar-se alguém que diz a outro: «O meu filho está doente, estou preocupado», o encontro entre pessoas diferentes em idade, classe social, cultura e proveniência, «como numa família acolhedora em que cada um pode ser quem é, com as suas dúvidas e as suas perguntas, sem temor de ser julgado» (Ir. Alois, Taizé). De facto, nesse tempo as confissões – ou o estatuto de penitente – eram públicos.

Reflitamos um momento sobre o conceito de “amizade a priori”. Para fazer amigos não basta juntar gente como num aldeamento turístico: as pessoas tornam-se “amigas” quando se partilha uma experiência realmente – não só potencialmente – importante. Quer os cristãos do primeiro século quer os do século XXI têm em comum (“partilham” passivamente) a fé em Cristo. Mas os primeiros cristãos partilhavam (ativamente), mais do que a doutrina, também a experiência quotidiana da incarnação na sua vida da Salvação que vem do Espírito. E esta era uma experiência humana nunca dada como adquirida: a cidade terrena «não é uma sociedade de gente instalada em moradas definitivas, mas de gente a caminho» (Maritain).



As relações humanas e espirituais entre os primeiros cristãos tornavam mais natural a resposta à necessidade também material do outro: a partilha não era uma obrigação, mas um ato de amor



A vida cristã e a fé no primeiro século também era não linear: feita de dúvidas, contradições, temores, incertezas, falhas, assim como alegria e esperança. A complexidade de cada caminho de fé individual era partilhada, graças a uma disponibilidade recíproca “a priori”. Por isso, mesmo um forasteiro recém-chegado podia ser imediatamente inserido neste processo de partilha, do qual nasciam: o conselho (a “correção fraterna”), o encorajamento e o testemunho recíproco sobre a presença do Espírito Santo: alimentos essenciais de todo o caminho de fé.

Nas atuais missas dominicais, pelo contrário, participam, na maior parte dos casos, desconhecidos que permanecerão sempre como tais. À saída da missa saudamos por vezes os nossos conhecidos e amigos que habitam no bairro, é verdade; mas fazemo-lo muitas vezes com algum embaraço, quase escusando-nos de confessar a fé, e apressamo-nos a falar de outras coisas: como estão os filhos, como vai o trabalho, quando se vai de férias… Isto porque essas amizades, nascidas fora da igreja, mesmo quando envolvem os crentes, não se baseiam na fé comum, mas noutras situações comuns a crentes e não crentes: o amor pelos passeios na natureza, um interesse profissional, etc. As partilhas fundadoras da amizade realizam-se hoje, na maior parte dos casos, em ocasiões sociais onde – por um justo respeito pelo pluralismo ideológico – não é politicamente correto falar da presença viva de Jesus na vida pessoal.

Também a partilha dos bens (terceiro ponto) hoje em dia não se consegue propor, à exceção de formas mornas e minimalistas. Antes de tudo por ausência de informações: como determinar «a necessidade de cada um» se não se conhecem os outros? A resposta à «necessidade» escapa às regras simples: como “a igualdade” dos rendimentos, das riquezas ou dos consumos. Porventura um homem privado de pernas não precisará de suplementos de rendimento – para pagar próteses ou um táxi – a fim de poder dirigir-se ao trabalho como todos os outros (A. Sen)?

Em segundo lugar, as relações humanas e espirituais entre os primeiros cristãos tornavam mais natural a resposta à necessidade também material do outro: a partilha não era uma obrigação, mas um ato de amor. E como diz S. Paulo, pode fazer-se qualquer coisa, mas se não é feita por amor não vale nada (e muitas vezes faz-se bem em não a fazer). Ao contrário, a caridade, hoje, também se tornou uma transação anónima pouco atraente.



A rutura das relações sociais locais determinada pela interconexão global, pelo facto de o mercado (e os automóveis) se terem espalhado, pela elevada produtividade do fator humano, pode ter, no Ocidente, desnaturado a liturgia dominical, transformando-a num rito anónimo de fiéis anónimos



Quanto ao quarto ponto, orar juntos, tem-se frequentemente a sensação de que os fiéis dominicais rezam sós; que apesar de participarem juntos na missa, apesar de recitarem as mesmas orações no mesmo momento, sentem-se fundamentalmente sós. Mesmo a Eucaristia, apesar de chamar-se “comunhão”, é infelizmente vivida muitas vezes como um acesso individual à graça, com a presença mais ou menos casual de outros que, simultaneamente mas por conta própria, recebem o mesmo sacramento.

Os jovens, sedentos de comunhão autêntica, estão cada vez menos interessados nesta maneira de estar juntos. E a secularização é o indício de um grave sofrimento também dos fiéis que perseveram na fé. Como é possível que a religião do humanismo integral tenha desumanizado as suas práticas? Sem relações humanas profundas, a comunidade religiosa não o é, e perde sentido. Os cristãos têm necessidade de partilhar a fé e a oração; de outra maneira, a fé torna-se árida. É certo que a partilha pode acontecer, e em parte acontece ainda em família. Mas na Europa contemporânea também as famílias deixaram de ser um lugar privilegiado onde se partilha o quotidiano da fé: muitas vezes os casais são mistos em termos de convicções religiosos; e em todo o caso uma partilha “a dois” seria limitada.

Porque é que a religiosidade organizada em torno à celebração dominical foi vital até há 50 anos? Talvez porque o mundo era feito de muitas “pequenas vilas”; nas quais as comunidades locais já estavam constituídas antes de entrar na igreja, onde se “sabia tudo de todos”. Em meados do século passado, não era raro que ao final da tarde e início da noite os habitantes saiam para sentar-se a conversar; a rua era um lugar público. A ausência de oportunidades favorecia a socialização. A celebração religiosa dominical era, por isso, o culminar de uma vida em comum; e a assembleia dos fiéis podia, de direito pleno, dizer-se “comunidade”.

A rutura das relações sociais locais determinada pela interconexão global, pelo facto de o mercado (e os automóveis) se terem espalhado, pela elevada produtividade do fator humano, pode ter, no Ocidente, desnaturado a liturgia dominical, transformando-a num rito anónimo de fiéis anónimos. Num mundo em mudança, o imobilismo da prática religiosa determina-lhe a crise.

Sendo esta a situação, a melhor resposta à secularização não é nem seguir nem repelir a modernidade, mas reagir ao individualismo, à atomização, à evanescência das relações nas Igrejas. A vida não pode ser mantida à margem da Igreja, só comentada, julgada ou perdoada pelo clero. Os cristãos têm necessidade de explorar, refletir e falar entre eles do seu ser cristão.


 

Pier Giorgio Gawronski
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nile de Busey/Bigstock.com
Publicado em 23.02.2021

 

 
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