Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Para que 2021 seja mais que sobreviver

As notícias desde a última semana de 2020 estão repletas de informações sobre as vacinas, às quais parecem agarrar-se todas as esperanças do nosso planeta. E é perfeitamente compreensível, num contexto em que continuam os contágios, os internamentos nas unidades de cuidados intensivos e as mortes se contam, diariamente, aos milhares, que o problema da sobrevivência física esteja em primeiro plano.

Algo de análogo vale para o âmbito da economia. A vacina é vista como uma possibilidade de salvação para um sistema profundamente sacudido pela pandemia, que obrigou a substituir as prometedoras previsões de crescimento, credíveis há um ano, pelo amargo balanço das perdas dos últimos meses, e constitui a esperança a que se agarra desesperadamente a promessa de regresso à normalidade para poder contar com a recuperação.

 

Voltar à normalidade

Para além dos problemas relativos à saúde e à economia, na base desta ansiosa expetativa pela vacinação em massa, há outro mais amplamente humano que diz respeito às condições de vida impostas pelo coronavírus. Sobretudo quanto à esfera das relações humanas, fomos todos pesadamente penalizados, e não vemos a hora, depois de nos termos enfartado com relações puramente virtuais na internet, de poder retomar relações “em presença”. Também este regresso à normalidade, no fundo, é uma questão de sobrevivência. Já não aguentamos mais.

Bem-vindas, então, as vacinas, apesar de todos os problemas e polémicas que estão a marcar o início da sua distribuição. Esperando que os tempos – já muito longos – previstos para a sua administração às diferentes partes da população, não se dilatem devido a disfunções organizativas e má gestão.

 

Viver e sobreviver

Dito isto, não podemos deixar de constatar que 2021 está a começar marcado pela renúncia a o que quer que seja que vá para além da mera sobrevivência. E isto, como já notava Aristóteles, pode ser ótimo para as outras espécies animais, mas não para os seres humanos. Porque nós não podemos contentar-nos em sobreviver, queremos viver. E isto é muito mais.

Devemos perguntar-nos honestamente, no entanto, se foi o Covid que redimensionou tão dramaticamente as nossas legítimas aspirações a uma vida plena, ou se, no fundo, a “normalidade” a que estávamos habituados, e que a pandemia imprevistamente abateu, não estava já marcada pela resignação. Por outras palavras, se, não fosse o coronavírus, os homens e as mulheres do desenvolvido Ocidente não estariam já, desde há muito, na condição de sobreviver, em vez de viver.

 

O ser humano a uma dimensão

Volta à ideia um livro que foi quase um manifesto para os movimentos estudantis de 68, “O homem a uma dimensão”, de Herbert Marcuse. Nele se denunciava o esmagamento das pessoas – e a sua consequente incapacidade de imaginar alternativas radicais a isso – determinada por um sistema neocapitalista que o progresso tecnológico tornou cada vez mais capaz de controlar as consciências e orientar as escolhas, ocultando esta substancial subjugação dos indivíduos por trás de uma aparente liberdade.

Sabemos todos das intemperanças desse tempo, do seu falhanço, do “refluxo” que ele, por contragolpe, determinou. Todavia, não se pode não questionar se o livro de Marcuse, hoje totalmente esquecido, não continha um fundo de verdade, talvez demasiado inquietante para não ser eliminado da consciência coletiva.

 

Morreram, verdadeiramente, todas as ideologias?

Alguém objetará que a década de 60 era ainda o tempo das ideologias, e que estas morreram para sempre. Mas estamos assim tão seguros que a nossa atual maneira de pensar e de viver – fundada no primado absoluto do indivíduo e dos seus direitos, na lógica da posse, na corrida à satisfação das necessidades criadas em boa parte pela publicidade – não seja ideológica?

Imaginemos, por um momento, que todas as ideologias tinham sido derrotadas por uma delas, a mais poderosa, e que esta tenha sido e continue a ser tão poderosa, que faz acreditar que não é uma ideologia, mas simplesmente a verdade das coisas, o seu inevitável decurso, a que seria vão opor-se.

 

E se este clima cultural nos sufocasse?

Imaginemos, sempre por hipótese, que as certezas que hoje são dominantes entre os intelectuais, sejam de “direita” ou de “esquerda” – de tal maneira que quem ousa colocá-las em dúvida é visto como um reacionário obscurantista, de quem se deve ter pena –, não sejam assim tão indiscutíveis como (quase) todos acreditam, mas regem-se por um conformismo de massa que exonera as perguntas.

Imaginemos que crescer no clima deste individualismo narcisista e possessivo, que torna as relações humanas, inclusive as mais significativas (penso no casamento) inevitavelmente provisórias, que substitui a busca sempre insatisfeita do bem-estar e da felicidade (porque bem-estar e felicidade não são a mesma coisa!), que impede a cooperação conjunta em vista de um bem comum anteposto aos interesses individuais, extinga a aspiração a dar à própria vida um sentido mais pleno, a capacidade de desejar e de esperar algo de maior que o apagamento imediato.

Imaginemos, só por um momento, que esta fosse a “normalidade” a que estávamos habituados antes do coronavírus. Não seria isso que chamaríamos “sobreviver”, contraposto a um mais plenamente humano “viver”?

 

O instante fugaz

Se tudo isto fosse verdadeiro, se não se tratasse apenas de hipóteses imaginárias, compreender-se-ia porque neste tempo, diferentemente das épocas precedentes, os sonhos mais audazes dos jovens não vão além da etapa da realização individual – modelados pelo filme tão belo quanto desviante que é “O clube dos poetas mortos” –, e nesses sonhos não cabem os pobres, as injustiças sociais, as discriminações raciais, porque o que conta é “carpe diem”, sugar o miolo da vida, cada um por sua conta. No passado, os jovens tinham ideais – mesmo que errados – pelos quais viver e morrer. Hoje é difícil encontrar alguém que esteja disposto a dar-se a uma causa maior do que ele e do seu sucesso na vida.

 

Desejos para o novo ano

Devemos esperar, certamente, que 2021 nos traga, com a vacina, a vitória sobre o coronavírus. Mas isto só nos bastaria para voltar a sobreviver, como fazíamos antes. Talvez não seja excessivo que cultivemos uma esperança maior e mais ambiciosa. E que, nestes primeiros dias do ano, nos comprometamos a redescobrir, em 2021, horizontes mais vastos, que nos permitam saborear de novo, desafiando o conformismo, a plenitude da vida.


 

Giuseppe Savagnone
Responsável pela página da Pastoral da Cultura da arquidiocese de Palermo, Itália
In Tuttavia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 15.01.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos