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Papa Francisco veio derrubar o pensamento que torna a realidade invisível, diz escritor Pankaj Mishra

Do papa Francisco diz-se muitas vezes que é o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa proveniente das Américas, o primeiro não europeu desde o século VIII. E também o primeiro do Sul do mundo. Todos estes primados têm um significado muito específico para mim.

Comecemos com o ser um papa jesuíta: muitos de nós cresceram em escolas e universidades jesuítas. E quem entre nós não nasceu cristão acabou por compreender a unicidade do cristianismo como religião e visão do mundo, mas também como algo mais, como uma espécie radical da sociedade, concretizada na introdução dos ideais do amor e da igualdade num mundo definido pelo poder e pelas hierarquias. A minha própria conceção de igualdade tornou-se possível e foi enriquecida pela noção cristã de igualdade perante Deus.

Mas o facto de o papa ter vindo do Sul do mundo tem um significado ainda mais contemporâneo. Muitas das preocupações expressas na encíclica “Fratelli tutti” sobre os excessos do mercado, o crescimento das desigualdades, a rutura de antigas solidariedades, radicaram-se numa peculiar experiência latino-americana. Se ele falou contra o neoliberalismo, começou a fazê-lo bem antes que a palavra que o define se tivesse tornado habitual; fê-lo porque pôde vivenciar na primeira pessoa as devastações do neoliberalismo na Argentina.

Tendemos a esquecer que muitas patologias políticas, que se manifestaram nos EUA e na Grã-Bretanha nos últimos anos, foram primeiro experimentadas e diagnosticadas nos países da Ásia, da África, da América Latina. Obviamente, interpretámo-las como produtos de culturas e histórias defeituosas, até de religiões. Estou seguro de que muitas pessoas recordarão como o islão foi repetidamente acusado de instigar jovens militantes enraivecidos, que na realidade são o efeito de sociedades grosseiramente desiguais e despóticas desde o século XIX. Ou se pensa que a América Latina tenha um fraco por ditadores, e assim por diante.



Num horizonte tão limitado e mesquinho, o papa Francisco fez-nos perceber uma nova possibilidade. Ampliou as fronteiras daquilo que pode ser dito, ensinado e compreendido



Sei por experiência pessoal o quanto é difícil, para os escritores e intelectuais do Sul do mundo, fazer escutar a sua voz, narrar as suas ideias e as suas experiências. Encontramo-nos diante de um discurso público incrivelmente empobrecido, espalhado não só na imprensa ocidental, mas também noutras importantes instituições ocidentais, universidades, “think tank”.

É um discurso pobre do ponto de vista quer moral quer intelectual aquele que se faz sobre o mercado, a democracia, a globalização, e este discurso sufocou todas as vozes críticas e de dissenso. A própria figura do intelectual foi reduzida, pelo menos na espalhada cultura do Ocidente, a ser o missionário do progresso material, o agente ao serviço desse processo, quer se trate de levar o mercado livre e a prosperidade à Índia ou à Indonésia, ou a democracia à Rússia e ao mundo muçulmano.

O intelectual já não se deve ocupar das grandes questões que dizem respeito à vida boa, os limites do crescimento, o dano ambiental, a relação entre os seres humanos e o mundo da natureza: ai dele se ousa falar de valores éticos ou espirituais.

Num horizonte tão limitado e mesquinho, o papa Francisco fez-nos perceber uma nova possibilidade. Ampliou as fronteiras daquilo que pode ser dito, ensinado e compreendido. Na arena internacional não havia uma voz tão poderosa desde os tempos da luta anticolonial, uma voz que rejeita as narrações seculares do progresso contínuo espalhadas pelas classes dirigentes dos EUA e Grã-Bretanha.

Marilynne Robonson, numa extraordinária passagem do seu livro sobre a Grã-Bretanha, “Mother country” (1989), escreve que o propósito do volume é o de abater algumas estruturas de pensamento que nos tornam impossível ver a realidade. São estruturas monumentais, no centro da nossa civilização. E o papa Francisco parece-me comprometido precisamente nessa tarefa: abater aquelas estruturas de pensamento que tornaram a realidade invisível a muitos de nós.


 

Pankaj Mishra
Escritor, ensaísta
In Vita e Pensiero
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Pankaj Mishra | D.R.
Publicado em 03.08.2021

 

 
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