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Leitura: “Padres nas trincheiras, para quê?”

«Quando pomos em causa os excessos de gastos, a insensibilidade perante os mais pobres, o mau aproveitamento do tempo profissional, a falta de recursos salariais, as fugas ao direito e ao dever do trabalho, o mau acolhimento ou o menos polimento na forma de receber, estaremos a subverter ou a edificar?»

Esta é uma das interrogações, incómodas, que o bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança, D. Januário Torgal Ferreira, coloca no seu novo livro, “Padres nas trincheiras, para quê?”, recentemente lançado pela Paulinas Editora.

«Onde houver pessoas não pode haver impedimentos no tocante a quem cabe responder a convicções, testemunhando-se a maior abertura a quem não nos acompanha nesse domínio», assinala o prelado no prefácio do volume que compendia as homilias da Missa Crismal (manhã de Quinta-feira Santa) de 2002 a 2013, de que oferecemos dois textos: “A Igreja e a sociedade” e “Ganhar é perder”.

 

A Igreja e a sociedade
D. Januário Torgal Ferreira
In “Padres nas trincheiras, para quê?”

1. Nos últimos tempos, senti num ou noutro horizonte da opinião pública, quase o receio de não estar a ser dado a «César» o que só lhe pertence. Que o poder civil defenda a sua autonomia não é mais que pugnar pelos seus direitos. Mas que se sinta na obrigação de suster o ímpeto de referências doutrinais (até metafísicas), porque na cidadania há desses assuntos, é mau sinal.

2. A respeito do primado da vida, e de questões tidas por delicadas ou íntimas, por motivos do menos bom entendimento da cultura, certa opinião pública parece defender que determinados comportamentos são pertença da intimidade da consciência e que as indicações da moral da Igreja não se podem aplicar a certos aspetos, sob pena do magistério se intrometer em terrenos da independência de cada um.

(Digamos apenas de passagem: a delicadeza destas matérias não reside nos problemas da sexualidade enquanto tais; de corre, sobremaneira, da forma como, tantas vezes, têm sido traduzidas ou expostas essas doutrinas.)



Dá-me a impressão que a posição da Igreja só parece valiosa quando a sua doutrina justifica certos estilos de viver; mas essas orientações surgem incómodas, quando perturbam as práticas do comportamento, ou seja, o vazio ético dos interesses sociais



Do mesmo modo, tenho-me apercebido desta divisória entre vida privada e vida pública, ou seja, entre o mundo da consciência e os fenómenos da responsabilidade social, quando se afirma que o «Papa não é infalível» (o que é verdade, em certos temas), ou que, apesar dos princípios éticos, a decisão concreta é da competência dos responsáveis políticos, o que não se desmente, como, de igual forma, pretendendo chamar-se à atenção para a independência de domínios diferenciados como são Deus e a Igreja, de um lado, e César e o poder temporal, do outro, se fica com a impressão de que Deus já nada tem a ver com o mundo e este nada tem a interpelar a Igreja…

O Concílio Vaticano II, na lucidez e beleza da Constituição Pastoral Gaudium et spes, onde propõe o diálogo da Igreja com a sociedade, é esquecido na retidão de conceções a bem da Humanidade.

Por isso, nos perguntamos se os assuntos do comportamento laico e mundano, os quais, a começar pela realidade do Estado, nunca podem nem devem ser confundidos com expressões históricas da Igreja (equivaleria, à semelhança do Estado islâmico, a considerarmos as realidades temporais  como essencialmente religiosas, o que é perfeitamente oposto à vontade do sacerdócio de Jesus Cristo), são ou não alheios ao direito natural, e devem ou não ter em atenção esses apoios a favor da felicidade de cada um?

Pergunto-me se defender a abolição da vida, no caso da pena de morte, é um benefício, ou, se estar ao lado da vida, sobretudo do mais vulnerável, não será uma posição da mais profunda dignidade humana.



No tocante a aspetos práticos do mundo da família, a nossa formação não incomodará, por exemplo, a infidelidade conjugal, o primado do materialismo, a exploração sexual da criança, a falta de ternura ou de acompanhamento dos mais sós?



Dá-me a impressão que a posição da Igreja só parece valiosa quando a sua doutrina justifica certos estilos de viver; mas essas orientações surgem incómodas, quando perturbam as práticas do comportamento, ou seja, o vazio ético dos interesses sociais. E, nestes domínios, manifesta-se uma diferença a ser refletida: em matéria de costumes, o discurso oficial da Igreja não enfada particularmente, por que os seus ditames, pretendendo regular aspetos tidos como íntimos, não são cumpridos, restando a indiferença quase geral. Em outras questões, o sentido da cultura da Igreja pode colidir com procedimentos, sobretudo de cariz político, correndo o risco de a ética de um projeto ser lida como uma medida da oposição. Como libertar os oprimidos? Como libertar os cativos? Como proclamar as normas do direito quanto à guerra e à paz? Como demonstrar que o nosso ministério não é um poder, mas um serviço, a oferta de um apoio e da coragem de uma solidariedade?

No nosso sacerdócio joga-se esse serviço, nunca no sentido de comandar situações, mas na aceção de colocarmos à consideração de todos, e de forma livre, o que somos e o que pensamos. Nada impomos. Propomos simplesmente sentidos de vida. Não nego que muitos desses conceitos possam sobressaltar alguns. O único objetivo da nossa palavra ou ação é contribuir para a construção de um mundo novo, na fidelidade aos direitos do ser humano, na exigência de valores da cidadania, na disponibilidade da forma evangélica de salvar a existência.

No tocante a aspetos práticos do mundo da família, a nossa formação não incomodará, por exemplo, a infidelidade conjugal, o primado do materialismo, a exploração sexual da criança, a falta de ternura ou de acompanhamento dos mais sós? Quando servimos o prato cultural dos direitos, não estaremos a denunciar o desrespeito pela mulher, a exploração publicitária de que é vítima, as empresas, tantas delas escondidas, que as utilizam como negócio? Se se refuta a prostituição, e as causas económico-sociais e afetivas de um tráfico, não estaremos a comentar um problema, do qual quase ninguém fala, porque, em tantos casos, não lhe convém? E se um grupo de pessoas se desentende, pelo simples motivo da partilha de um testamento familiar, calaremos nós o espírito de justiça, que manda entregar a cada um o que lhe pertence? Quando pomos em causa os excessos de gastos, a insensibilidade perante os mais pobres, o mau aproveitamento do tempo profissional, a falta de recursos salariais, as fugas ao direito e ao dever do trabalho, o mau acolhimento ou o menos polimento na forma de receber, estaremos a subverter ou a edificar? Quando, num Estado laico, uma confissão religiosa tem a liberdade de oferecer um serviço de apoio cultural, moral e social, goza essa confissão de um tempo determinado, no conjunto das atividades, de uma forma concreta de ensino, de condições efetivas para a implantação do espírito de cidadania? Ou poderá aceitar uma situação, em que nada inova nem constrói? Tem ou não tem obrigação de providenciar pela doutrina da guerra e da paz à luz dos princípios do direito?

A refletir!

 

Ganhar é perder
D. Januário Torgal Ferreira
In “Padres nas trincheiras, para quê?”

1. Não pomos em causa a missão sacerdotal, sem excluir a reflexão sobre formas concretas do nosso exercício. Cada um decidiu-se por consagrar a vida, na fidelidade ao Único Sacerdote. A identidade com a Pessoa de Jesus Cristo, de modo livre e feliz, quer significar um voto de semelhança à entrega de um Deus à causa da humanidade: esta é grandiosa, quanto repudiada; única, quanto fonte de justiça e reconciliação.

Porque há pobres, a Igreja tem a obrigação de ser libertadora. Porque há presos, os problemas do direito, suporte de um Estado civilizado, constituem fonte de nossa inquietação diante da legalidade não praticada. Porque há oprimidos, há só um exercício limpo diante do poder pela independência, contrapondo-nos à desumanidade e cooperando sempre a favor dos reais direitos de uma sociedade.

Estas figuras – o pobre, os cativos, os oprimidos – do texto evangélico de São Lucas (4,16-21) representam protagonistas e questões do nosso quotidiano. Transformar a sua indignidade, converter a sua marginalização, verbalizar a sua entidade menor, não são terrenos indevidos. São a face renovada de Jesus Cristo, visivelmente profanada no santuário da pessoa. Sem exclusão de ninguém, os mais carenciados de qual quer sorte deveriam ser sempre a prioridade de um Povo Sacerdotal. Tomar opções por eles, sonhar com um mundo construído com outra arquitetura e inovadores cálculos é, num espaço profano, como no pão que conduzi mos ao altar, edificar o Corpo de Cristo, na Palavra e no viático da Eucaristia.

Vós sereis «sacerdotes do Senhor», proclama o profeta Isaías (61,1-3).

Este o indicativo da marcha do povo de Deus que, liberto da escravatura, ascendeu à maioridade de gente salva, na Páscoa do Senhor.



A rendição é prova de que se não acredita em valores. Defendemos o progresso e sentimo-nos em casa com os avanços do saber. Tudo o que é humano constitui nossa pátria. Mas também o que levamos nas nossas mãos, não são ilusões. Sobretudo, não é nosso o que pomos à disposição de quem o deseja



2. O mundo sem comunhão é uma empresa em falência. Multinacionais em crise são forças contra o futuro. As gerações de toda a idade são vítimas de quem julga construir um novo tempo, desrespeitando o suor, o pão de tantas famílias, a estabilidade social.

Ao contrário dos descuidados, a missão sacerdotal tem o cargo de zelar; ao invés de passar ao largo, a decisão de um padre é tomar-se próximo; em contraste com desculpas, um servo de Jesus Cristo assume as dificuldades e reconverte a ineficácia do agir.

Não se autovitimiza diante dos reparos. Não projeta sobre os outros o seu histórico insucesso.

As atitudes, perante a cultura contemporânea, não solicita apenas os padres, mas a pertinácia de todo e qualquer ministério, convidando, antes de mais, à meditação e ao estudo, e em todo o tempo e lugar, à fidelidade a convicções, nunca fechando os olhos nem os ouvidos a críticas honestas, que as há também destemperadas e fanáticas.

Alguém me punha em causa, há dias, a ação da capelania militar e policial, nestes termos: «Mas se as pessoas não manifestam o mínimo interesse, porquê manter um serviço? Se o que se deseja são dólares (perdoe-se-me o exemplo) e um padre lhes oferece rupias, como poderá a Igreja manter-se com modelos ultrapassados?»



Quem soletrar o «livro» da história dos homens e das mulheres dos nossos dias, desde a gruta de Belém até à cruz das vítimas de hoje, estando ao lado destas e preferindo, de acordo com metáfora citada, rupias a dólares, ficou com a certeza de que os pobres foram redimidos, o espírito de corpo, reconquistado, e a paz foi conseguida



Se uma comunidade quer a escravatura, a perseguição aos emigrantes, as saudades do poder ditatorial, se é de opinião que estar ao lado do povo de Timor-Leste é dar ânimo a lógicas totalitárias, se se propõe destruir a família ou opor-se a qualquer liberdade, ou seja, se estas comparações concretas são auspícios de dólares... e não de rupias, que fazer? Vamos dar consentimento a ventos de desgraça? Fugir? Ou ficar de braços cruzados? Já nem me refiro ao facto de haver uma multidão de pessoas que está aberta à busca da verdade.

A rendição é prova de que se não acredita em valores. Defendemos o progresso e sentimo-nos em casa com os avanços do saber. Tudo o que é humano constitui nossa pátria. Mas também o que levamos nas nossas mãos, não são ilusões. Sobretudo, não é nosso o que pomos à disposição de quem o deseja. Parece-me pão, mas é o Corpo de Jesus Cristo. Parecem receitas, mas são fontes de justiça.

Numa sociedade de aparências, perdemos. Mas quem quiser ganhar a sua vida, tem de perdê-la, diz o Senhor. Ganhar, em certas circunstâncias, é ser sepultado pelo próprio pedestal que se intentou erguer!

Quem soletrar o «livro» da história dos homens e das mulheres dos nossos dias, desde a gruta de Belém até à cruz das vítimas de hoje, estando ao lado destas e preferindo, de acordo com metáfora citada, rupias a dólares, ficou com a certeza de que os pobres foram redimidos, o espírito de corpo, reconquistado, e a paz foi conseguida.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 22.05.2019

 

Título: Padres nas trincheiras, para quê?
Autor: Januário Torgal Ferreira
Editora: Paulinas
Páginas: 56
Preço: 5,20 €
ISBN: 978-989-673-693-4

 

 
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