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Padre Max: Memória e carta aberta nos 45 anos do assassinato

«Na noite de 2 para 3 do corrente [abril], um engenho explosivo destruiu um automóvel, perto de Cumieira, Santa Marta de Penaguião, matando os dois ocupantes do veículo, o padre Maximino Barbosa de Sousa, professor do Liceu de Vila Real, e uma aluna deste estabelecimento, que regressavam duma reunião na primeira daquelas localidades, onde vinham participando numa experiência de alfabetização.»

Foi com estas linhas que a 8 de abril de 1976 o jornal católico “Nova Terra” começou por noticiar e, depois, comentar, o assassinato do sacerdote e da estudante Maria de Lurdes, militante da Juventude Escolar Católica (JEC), atentado ocorrido no mesmo dia em que foi aprovada a primeira Constituição da República em liberdade, e que, 23 anos depois, em 1999, o tribunal atribuíria à organização de extrema-direita MDLP, embora sem conseguir identificar os autores.

«Para além de toda a repulsa que nos merece esta onda de violência e terrorismo que alastra pelo País, para além da indignação que gritamos bem alto pela falta de respeito pela vida humana, para além de tudo isto, este duplo homicídio tem aspetos que não podem deixar de nos fazer refletir, de nos pôr questões, de nos interpelar. Sobretudo a nós, cristãos. Até aqui, os atentados bombistas tinham-se limitado a estragos materiais, por vezes avultados, mas nunca tinham feito vítimas, entre os diretamente visados. Agora há duas mortes a lamentar, isso acontece em região tradicionalmente cristã, são dois militantes cristãos que tombam e um deles é Padre», escreve O.L.



A candidatura do sacerdote pelo círculo de Vila Real, nas listas da União Democrática Popular (UDP) às eleições legislativas marcadas para 25 de abril de 1976, mereceu «uma nota da Secretaria Episcopal da Diocese, na qual se lembram as normas do Direito Canónico, entre outras, que proíbem ao clero atividades de política partidária»



Prossegue o autor, no texto intitulado “O direito à diferença”: «Com intenção assassina ou não, a bomba era dirigida ao P. Maximino, pois veio na continuação duma série de provocações, ataques e manobras que o tiveram também por alvo. Porquê? Porque ele era, em Vila Real, um gritante sinal de contradição. Professor de Português e Francês, a sua ação como docente, a sua inserção no meio granjearam-lhe notável prestígio, a ponto de ter sido escolhido para a comissão de gestão do liceu. A sua ação em vista da transformação do meio alargara-se a todo o meio estudantil da cidade e abarcava também o importante aspeto da animação cultural, numa região muito pobre, neste como em outros aspetos».

«Por outro lado, inserido na Igreja como padre, em união com o seu bispo, assistente de jovens militantes cristãos do movimento JEC, lutava por uma Igreja que pudesse dar ao Mundo um testemunho mais límpido de Cristo e do seu Evangelho. Procurava vivê-lo já, numa experiência cristã de empenhamento pelos pobres, verdadeiramente libertadora. A sua aceitação até ao fim dos riscos inerentes às opções que assumira era proverbial.»

A «união» ao bispo do P. Maximino referida no artigo é merecedora de reservas: com efeito, a candidatura do sacerdote pelo círculo de Vila Real nas listas da União Democrática Popular (UDP), um dos partidos que compõe o atual Bloco de Esquerda (BE), às eleições legislativas marcadas para 25 de abril de 1976, mereceu «uma nota da Secretaria Episcopal da Diocese, na qual se lembram as normas do Direito Canónico, entre outras, que proíbem ao clero atividades de política partidária», referia o “Nova Terra” duas semanas antes.



«Forte é a tentação, nós que nos consideramos ortodoxos, fiéis, de encontrar justamente nos aspetos do extremismo, do exagero, numa palavra, de diferença, o alibi para com toda a tranquilidade “arrumarmos” a morte do Padre Max, de modo que não nos incomode mais. Porque ela, na verdade, incomoda-nos»



A nota acrescentava «que “é norma da Diocese não permitir o exercício do sagrado ministério a sacerdotes que desempenhem funções que lhe sejam confiados pelos partidos políticos”», assinalava o semanário, a 25 de março.

Regressemos ao texto de O.L.: o P. Maximino «tornara-se uma figura de grande popularidade em Vila Real e nas regiões circunvizinhas. Mas ao mesmo tempo, era por muitos fortemente contestado, discutido, odiado. Porquê? Porque a sua atuação assustava, inquietava, metia medo, mas principalmente por vir de um padre. Os seus inimigos diziam-no publicamente: admirava o dr. Marx, as suas aulas eram apreciadas, interessantíssimas, nada havia a apontar-lhe enquanto professor; era-lhes porém intolerável o Padre Marx [sic] enquanto sacerdote».

O autor conclui que foi «por ser padre que ele morreu». E acrescenta: «Que ele fosse padre e quisesse continuar a sê-lo é que não lhe perdoavam. Isso é que, mais do que tudo, o fazia considerar temível e perigoso».

«Não lhe reconheciam - não lhe reconheceram - o direito a ser diferente. E esta é já uma primeira interpelação. Que Igreja, que Povo somos, que não reconhecemos o direito à diferença? Pelo que à Igreja toca, pensamos nos primeiros padres operários em França, pensamos em padres da América Latina, a quem também - ao menos como primeira reação colectiva - não foi reconhecido o direito a viver de modo diferente dos padrões habituais a sua fidelidade sacerdotal a Cristo», assinala O.L.



«Recentemente, por opção pessoal que nem todos os seus amigos partilharam, embora a tivessem respeitado, aceitara concorrer às eleições para a Assembleia da República, como candidato independente, integrado na lista da UDP. Pensava que esta oportunidade, que lhe fora oferecida, lhe seria útil na sua luta pela transformação da Igreja»



As «discordâncias», sublinha, não devem servir «para neutralizar ou amortecer o poder interpelativo, o poderoso apelo» do homicídio do sacerdote. «Forte é a tentação, nós que nos consideramos ortodoxos, fiéis, de encontrar justamente nos aspetos do extremismo, do exagero, numa palavra, de diferença, o alibi para com toda a tranquilidade “arrumarmos” a morte do Padre Max, de modo que não nos incomode mais. Porque ela, na verdade, incomoda-nos.»

«Se nós, que nos cremos moderados, equilibrados e sensatos, não somos discutidos, contestados ou atacados como o era o Max em Vila Real, a que se deve isso? À nossa fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja por ele fundada, ou à falta de vigor do nosso testemunho, tão tranquilizante que para ninguém é sinal de contradição? Nem mesmo para nós próprios», questiona O.L.

Uma semana depois, a 15 de abril, o “Nova Terra” completa este artigo, que devido a «um lapso tipográfico mais que lamentável», não foi integralmente publicado. O autor destaca que «ao contrário do que alguns jornais noticiaram, o Padre Maximino nunca foi militante da UDP, ou doutro qualquer agrupamento político».



«Esta morte é uma interpelação profunda a toda a Igreja em Portugal. Em que medida tem sido ela um sinal de esperança e de libertação em todo o processo que temos vivido? Em que medida não nos acusa a nós todos, por não termos tomado suficientemente a sério as exigências radicais do Evangelho por uma opção clara e transparente pela realização total de um homem novo numa sociedade nova?», questionava a JEC



«Recentemente, por opção pessoal que nem todos os seus amigos partilharam, embora a tivessem respeitado, aceitara concorrer às eleições para a Assembleia da República, como candidato independente, integrado na lista da UDP. Pensava que esta oportunidade, que lhe fora oferecida, lhe seria útil na sua luta pela transformação da Igreja. Esta opção colocou-o automaticamente sob a alçada duma deliberação da Conferência Episcopal relativamente aos sacerdotes candidatos a deputados: conforme a secretaria episcopal de Vila Real divulgou, o Padre Maximino ficara suspenso das suas funções sacerdotais, suspensão que deveria prolongar-se até ao fim da campanha eleitoral (ou do seu mandato de deputado, caso viesse a ser eleito)», explica O.L.

O “Nova Terra” noticia a 8 de abril, em artigo da redação, que «o atentado foi imediatamente repudiado pela UDP, além de outros partidos e organizações políticas, originando diversas manifestações, não só em Vila Real, onde o funeral se realizou, na segunda-feira [4 de abril], perante milhares de pessoas, como no Porto e em Évora, culminando com uma concentração junto ao Palácio de Belém. Nesta última foi lida uma moção, depois entregue ao Presidente da República, onde se exigem “medidas imediatas consequentes” e se pede “a investigação até ao fundo, das ligações entre os partidos legais reacionários e o contrabando de armas de autênticas quadrilhas fascistas”».

No mesmo número, o semanário instituído pelo Patriarcado de Lisboa em parceria com as Conferências de Religiosos e Religiosas de Portugal publica excertos de um comunicado dos professores do liceu onde o sacerdote dava aulas: «O padre Maximino tinha-se deslocado de Vila Real à aldeia da Cumieira, que dista da cidade sete quilómetros, acompanhado da sua aluna Maria de Lourdes, para lecionar Português e Francês a trabalhadores-estudantes do Ciclo Preparatório. Era um trabalho gratuito, em colaboração com outros seus colegas de Vila Real. As aulas decorriam na Cada de Cultura daquela aldeia, já visitada pelo ministro da Educação e Investigação Científica, no dia 15 de janeiro deste ano».



O ministro Pedro Nuno Santos, a coordenadora do BE, Catarina Martins, e a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, subscrevem a carta, bem como, da área da cultura, Jorge Palma, Mário Laginha, Camané, Tiago Rodrigues, Valter Hugo Mãe, Rita Blanco, Miguel Guedes e José Eduardo Agualusa, entre outras personalidades da vida artística e partidária



«O padre Max, nome por que era mais conhecido entre a juventude e os colegas professores, sempre revelara a sua natural generosidade, pondo o seu talento e a sua cultura ao serviço dos necessitados. Também na Escola Industrial e Comercial de Vila Real ensinava gratuitamente Português a dezenas de trabalhadores-estudantes, em colaboração com outros colegas. A juventude admirava-o. Oficialmente desempenhava as funções de professor de Português, no Curso Complementar, e de Francês, do Curso Geral, no Liceu Nacional de Vila Real. Era bacharel em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e, no dia 28 de Abril, ia completar 33 anos.»

A Lusa dá hoje voz a uma carta aberta evocativa dos dois assassinados, que «junta mais de 300 subscritores de todos os quadrantes da vida pública» e provenientes «do mundo político, cultural e académico», iniciativa do antigo secretário-geral da UDP e cofundador do BE, Luís Fazenda.

O bispo emérito D. Januário Torgal, os padres Constantino Alves e Vítor Melícias, o ministro Pedro Nuno Santos, a coordenadora do BE, Catarina Martins, e a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, subscrevem a carta, bem como, da área da cultura, Jorge Palma, Mário Laginha, Camané, Tiago Rodrigues, Valter Hugo Mãe, Rita Blanco, Miguel Guedes e José Eduardo Agualusa. Outras personalidades da vida artística, partidária e sindical incluem Alberto Martins, João Cravinho, Manuel Alegre, Ana Gomes, Teresa Leal Coelho, Manuel Carvalho da Silva, Arménio Carlos e Mário Nogueira, assim como os arquitetos Siza Vieira e Souto Moura, salienta o "Público".



O padre Max ia ao volante, ao seu lado Maria de Lurdes. Regressavam de mais uma sessão de alfabetização de camponeses, ensinavam "a ler e a escrever" no país que a ditadura deixou analfabeto. Tentavam resgatar os jovens do destino que tinha sido o de tantas gerações, perdidas na pobreza, ignorância ou alcoolismo. Era uma militância, a dedicação que levava à letra a palavra pregada - "de nada vale falar do bem se não se fizer o bem"»



«Não foi casual a utilização de uma bomba, dirigida pelo ódio reacionário e colonial do MDLP, no próprio dia em que a Constituição foi letra de Lei Magna da República», refere a missiva citada pela agência, na qual se enaltece o facto de o P. Max ter sido «uma pessoa comprometida com os trabalhadores agrícolas de Covas do Douro, com os rodoviários da Auto Viação do Tâmega, com os empregados do comércio de Vila Real e, sobretudo, com os estudantes, tão transmontanos como ele».

Na edição de hoje do "Público", Pedro Filipe Soares recorda que «o padre Max ia ao volante, ao seu lado Maria de Lurdes. Regressavam de mais uma sessão de alfabetização de camponeses, ensinavam "a ler e a escrever" no país que a ditadura deixou analfabeto. Tentavam resgatar os jovens do destino que tinha sido o de tantas gerações, perdidas na pobreza, ignorância ou alcoolismo. Era uma militância, a dedicação que levava à letra a palavra pregada - "de nada vale falar do bem se não se fizer o bem"».

«E era o bem que eles faziam, que os trazia do lugar da Cumeeira de regresso a Vila Real, quando o mal apareceu à traição. Uma bomba covarde explodiu o carro, tirou-lhes a vida. Maria de Lurdes morreu de imediato, o padre Max faleceu horas depois. Foi o primeiro assassínio político depois de 25 de abril de 1974», observa o presidente do Grupo Parlamentar do BE.

Num lençol branco estendido aquando do funeral lia-se «Não vos mataram, semearam-vos», evocação que intitula o comentário do autor, que conclui: «A força e a certeza de que os ideais pelos quais deram a vida são os mesmos pelos quais continuaremos a lutar: liberdade, democracia, igualdade, tolerância e solidariedade».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Lusa/Expresso, Público
Imagem: P. Maximino Barbosa de Sousa, Maria de Lurdes | D.R.
Publicado em 02.04.2021 | Corrigido (troca de JUC por JEC) em 03.04.2021

 

 

 
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