

O padre e cientista português Luís Archer faleceu este sábado, aos 85 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de uma «indisposição», anunciou a Companhia de Jesus (Jesuítas), a que pertencia.
O sacerdote, distinguido em 2006 com o prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura em nome da Igreja Católica, é considerado um impulsionador da biogenética em Portugal.
«Um cientista da vida, com uma vida dedicada à humanidade que procurou cientificamente compreender melhor, mas uma vida sobretudo apostada em promover e elevar a humanidade – a nossa qualidade humana – que é sempre devir e desafio»: foi desta forma que o júri do prémio classificou a atividade de Luís Archer.
«Em toda a sua actividade, nos laboratórios, nas salas de conferências, nas conversas pessoais, ou nos seus escritos de divulgação, sempre transparece o cuidado, a paixão, a atenção, respeitosa e fascinada, pela vida, a começar ao nível das estruturas moleculares, mas focada sobretudo nas pessoas, nas suas vidas, nas suas experiências, nos seus dramas», salienta a justificação do júri.
O religioso, que deixa cerca de 250 trabalhos de investigação e seis livros publicados, participou na criação do Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian da Ciência, onde trabalhou durante mais de 20 anos.
Formado em Ciências Biológicas, pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1947, interrompeu o seu percurso para entrar na Companhia de Jesus, tendo sido ordenado padre em 1959, na Alemanha.
Depois de estudar bioquímica e genética na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, regressou a Portugal no final da década de 60, assumindo a partir de então lugar de destaque na investigação científica portuguesa.
Luís Archer foi o primeiro presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, entre 1996 e 2001, e em 1998 a Associação Portuguesa de Bioética, em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, atribuiu-lhe o Prémio Nacional de Bioética.
Com a sua morte desaparece um homem que acreditava que a ciência e a religião eram «dois mundos independentes, ainda que convergentes», como citou Walter Osswald, à data conselheiro do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, numa crónica publicada a 5 de maio de 2006 no jornal "Público", por ocasião dos 80 anos do padre jesuíta, acrescentando que «sem impor coisa alguma, Luís Archer ensina, estimula, convoca a servir e a exaltar a humanidade».
O funeral está marcado para este domingo, a partir das 15h00, em Lisboa, na igreja do Colégio de São João de Brito, no Lumiar.
Versão resumida do curriculum vitae do padre Luís Archer (2006)
Nasceu no Porto em 1926.
Licenciaturas: Ciências Biológicas (Porto, 1947); Filosofia (Braga, 1954) e Teologia (Frankfurt, 1960).
Doutoramentos: Genética Molecular (Washington, D.C., 1967); Biologia (Porto, 1969).
Professor agregado de Botânica na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1971.
Professor catedrático de Genética Molecular da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa em 1979. Professor jubilado em 1996.
Responsável pela introdução em Portugal da investigação e ensino da Genética Molecular.
Criou e dirigiu o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian da Ciência (Oeiras, 1971-1991).
Coordenou o Centro de Investigação de Genética Molecular Humana (Faculdades de Ciências e Tecnologia e de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 1991-2000).
Ensinou genética molecular em 14 diferentes faculdades de universidades portuguesas.
Professor convidado do Massachusetts Institute of Technology, EUA.
Foi o 1º. Provedor Académico da Universidade Nova de Lisboa.
Representou Portugal em várias comissões de bio-segurança e bioética no Conselho da Europa, na OCDE, na Comissão Europeia e na Fundação Europeia para a Ciência. Neste âmbito integrou o «Grupo de Conselheiros sobre as Implicações Éticas da Biotecnologia».
Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1996-2001).
Membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Europeia das Ciências e das Artes em Salzburgo, e da Academia das Ciências de Nova Iorque.
Publicou cerca de duzentos e cinquenta trabalhos de investigação ou revisão científica, de filosofia das ciências e de bioética em publicações nacionais e estrangeiras.
Autor de cinco livros e coordenador de outros quatro.