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Leitura: “Os nove caminhos de Santiago de Compostela”

«Ao começar este caminho até ao sepulcro,/ me dirijo a ti, Senhor, nosso Deus,/ para te pedir ajuda e proteção./ Tu, que foste o guia do povo hebreu através do deserto,/ Que conduziste o teu servo Abraão por remotas paragens,/ peço-te que protejas este teu filho/ que por amor a ti peregrina a Santiago de Compostela./ Sê para mim o companheiro nos caminhos,/ o guia nas encruzilhadas,/ o alento no cansaço,/ a proteção nos perigos,/ o albergue no caminho,/ a sombra no calor,/ a luz na escuridão,/ o consolo nos momentos de desalento,/ a firmeza dos meus propósitos./ Que pela tua mão chegue são e salvo/ a Santiago de Compostela,/ e regresse ileso ao meu lar, com saúde e felicidade./ E a ti, apóstolo Santiago, por esta peregrinação,/ por tua bondade te rogo, ajuda e proteção, em todo o caminho,/ até chegar à catedral em Compostela, para te honrar com o meu abraço./ Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo./ Ámen.»

A oração do peregrino que ruma ao encontro de S. Tiago, no norte de Espanha, é uma das primeiras páginas do novo livro “Os nove caminhos de Santiago de Compostela” (ed. Paulinas, 696 páginas), de Carlos Figueiral Azevedo, que vai ser lançado este sábado, na Feira do Livro de Lisboa, às 18h00, com apresentação do historiador Joel Cleto.

O número crescente de peregrinos a Santiago, pelos vários caminhos que se apresentam, tem sido apontado como um dos sinais de inquietação interior e procura espiritual da contemporaneidade, em muitos casos, talvez na maioria, independentes da pertença católica, e mesmo sem laços especiais com Deus ou com a transcendência. E também é sabido que o tempo de férias de verão oferece mais condições, climatéricas e de disponibilidade pessoal, para a aventura da peregrinação.



«Compostela é lugar de confissão, oração e meditação, e o caminho é um lugar de transformação, na medida em que as dores e os obstáculos superados servem para despertar forças adormecidas com o tempo»



«Cada etapa descrita cumpre realisticamente o itinerário e os locais por onde passei, evidenciando as dificuldades e as superações conseguidas num roteiro de emoções intensamente vividas, onde Deus se revelou tanto nos encantos como nos obstáculos do caminho», escreve o autor, na introdução.

O sentido que Carlos Figueiral Azevedo extrai dos cinco mil km pelas sendas de S. Tiago ecoará em grande número de peregrinos, inclusive os que vivem o caminho sem especial motivação religiosa: «Na intimidade do caminho aprendi a olhar o passado com gratidão e a viver o presente com paixão, assim como aceitei olhar para o futuro com esperança. Um caminho com esta essência, jamais alguém termina conforme começa, sendo certo, que ficaria incompleto se não fosse compartilhado».

Após o preâmbulo, em que o autor apresenta os «fundamentos históricos» da peregrinação, começando por se deter no apóstolo, o itinerário é marcado pela evocação dos Caminhos percorridos (ver abaixo). A estes, junta-se o Nono, «que não existe fisicamente» e resulta da «junção» das várias rotas por onde passou, ao longo das quais viveu «experiências únicas e irrepetíveis nos mais incríveis e inusitados lugares».



«Desde Valença do Minho, em Portugal, até Compostela, percorri pouco mais de 120 quilómetros num percurso de enorme beleza e tradição histórica, no qual me confrontei com as motivações que levam milhares de pessoas a peregrinar a Santiago no desapego do conforto»



«Se refletir é um propósito muitas vezes esquecido no dia a dia, o silêncio das etapas e as conversas com as estrelas proporcionam a ocasião para agitar as pedras do caminho e chorar a desordem que carrega a alma, dessa forma, peregrinar tem o poder de fazer pensar, sentir, chorar, questionar e fazer escolhas, seguindo com os olhos postos em frente porque para a frente é que se faz o caminho», assinala.

A «lição» aprendida pelo autor «no desapego do conforto e do certo pelo incerto», permitiu-lhe «construir uma nova morada onde conciliava a humildade, a gratidão, a bondade e também a força da fé». No caminho de Santiago, «no qual cabem diferentes dimensões», não há quem «termina o caminho tal como o começa».

«Nos caminhos de Santiago, a única previsibilidade que existe é a própria imprevisibilidade, na qual Deus se revela na beleza e nas dificuldades do caminho, conforme testemunhei no ruidoso silêncio da infinita planura andaluza, no colorido silvestre do planalto da Extremadura e na aridez infindável da meseta ibérica, bem como nos frondosos bosques galegos intensamente verdes e húmidos e nas desafiantes encostas montanhosas dos Pirenéus, da Cantábria e das Astúrias, uma autêntica maratona espiritual transformadora e agregadora das minhas dores», escreve.

Em que mapa se desenha, então, a derradeira rota? «O Nono Caminho resulta assim num caminho que só eu podia percorrer, dado que é feito no meu interior. O Nono Caminho emerge da ressonância dos oito caminhos percorridos ao longo dos anos, despertando-me para o aprofundamento do autoconhecimento, concluindo que o mais importante não foi a chegada à Praça do Obradoiro, mas a experiência humana em cada um dos caminhos feitos. Por isso se diz: Compostela é lugar de confissão, oração e meditação, e o caminho é um lugar de transformação, na medida em que as dores e os obstáculos superados servem para despertar forças adormecidas com o tempo».

 

Os meus caminhos de Santiago
Carlos Figueiral Azevedo
In “Os nove caminhos de Santiago de Compostela”

Caminho Português
É hoje o segundo caminho mais percorrido dos caminhos de Santiago. Desde Valença do Minho, em Portugal, até Compostela, percorri pouco mais de 120 quilómetros num percurso de enorme beleza e tradição histórica, no qual me confrontei com as motivações que levam milhares de pessoas a peregrinar a Santiago no desapego do conforto. Esta foi a minha primeira experiência nos caminhos de Santiago e representou o caminho do meu despertar de emoções e de outras tantas experiências que mais tarde fui buscar noutros caminhos.

O Caminho Francês
É dos mais enigmáticos caminhos de Santiago e também o mais concorrido por milhares de peregrinos, sendo também aquele que eu repeti por diversas vezes. Percorri mais de 800 quilómetros, desde a pacata e bucólica vila francesa que fica no sopé dos Pirenéus, Saint-Jean-Pied-de-Port, que me seduziu com a essência jacobeia através de um carrossel de vales e montanhas pelo Norte de Espanha, uma oportunidade que aproveitei para explorar um outro caminho até então desconhecido, o caminho do meu interior.

O Caminho Aragonês
Na localidade de Somport, em pleno coração dos Pirenéus, a 1640 metros de altitude, a partir do albergue-refúgio de montanha Aysa, sob as montanhas de Candanchu ainda cobertas com um manto de neve, a 850 quilómetros de Santiago, iniciei uma rota única e surpreendente de 170 quilómetros até Puente de la Reina, atravessando as comunidades autónomas de Aragão e de Navarra. Este caminho solitário abriu as portas para a descoberta de aldeias esquecidas e despovoadas, pelo interior de uma paisagem ainda imaculada. Percorri uma rota fascinante com enorme tradição jacobeia, cruzando-me com lendas que me incendiaram o imaginário e proporcionaram um retiro do mundo e uma oportunidade de aprofundamento espiritual dos caminhos da minha fé.

O Caminho do Norte
É também conhecido por Caminho da Costa, sendo uma das rotas mais antigas, com cerca de 815 quilómetros, a partir de Hendaye, no País Basco francês. Percorri um itinerário eloquente entre o verde das montanhas e o azul do oceano, através dos territórios da Cantábria e dos Picos da Europa, nas Astúrias, inspirando-me nas arribas e nas praias exóticas do mar cantábrico. Foi uma rota inquietante, lançada na Cruz Cíclica de Hendaye, um cruzeiro enigmático que se encontra em pleno caminho de Santiago e que afinal tem mais de revelador do que de apocalíptico. Esta viagem serviu-me de inspiração no aprofundamento das prioridades da vida, assim como da prática da aceitação e do desapego, resultando num novo período de aprendizagem e amadurecimento que aproveitei para converter no meu caminho de renovação.

O Caminho da Prata
Também conhecido por Caminho Moçárabe. Desde Sevilha percorri um dos mais longos itinerários jacobeus que se prolonga por cerca de 1000 quilómetros, atravessei as longas e solitárias planícies na região andaluza e da Extremadura, cruzei o coração da meseta ibérica, num duelo pessoal entre o desconforto e a resiliência. Este velho caminho abriu uma janela que aproveitei para voar pelo tempo à procura das memórias dos impérios antigos que marcaram a história da nossa história, num desafio pessoal que despertou a procura de respostas sobre as incertezas do aprofundamento do meu caminho do autoconhecimento.

O Caminho Sanabrês
Saí de Salamanca e passei por Zamora, seguindo as setas que me levaram pelas infindáveis retas da meseta ibérica, na direção das isoladas montanhas galegas da Sanábria. No silêncio da intimidante incerteza do caminho, confrontei-me com provas de pura superação. Foi um percurso com mais de 450 quilómetros que fez despertar emoções intensas no aprofundamento pessoal da crença que é sempre possível ir para além dos limites, superando a dor e resistindo ao desconforto, numa experiência íntima de fé, que me conduziu pelo meu caminho da confiança.

O Caminho Primitivo
A partir de Oviedo, foram 320 quilómetros feitos numa das mais deslumbrantes e genuínas paisagens naturais entre as Astúrias e a Galiza. Em cada etapa superada fui sendo surpreendido pelos sinais do caminho, também eles sinais dos tempos, orbitando no meu imaginário a revisitação dos meus caminhos de Santiago, uma espécie de piloto automático que se soltava pelo vácuo do tempo numa viagem em sentido contrário, que serviu para refletir e aprofundar os efeitos de cada encontro e de cada experiência vivida nesses caminhos distantes e tão presentes. O presente e passado dos meus caminhos juntaram-se neste caminho de reencontros, resultando num claro crescimento pessoal.

O Caminho de Finisterra
Foi o mais curto dos caminhos, com quase 120 quilómetros, sendo o único que não terminou, mas partiu, de Santiago de Compostela. Atravessei a verdejante e húmida paisagem da costa galega, entre aldeias povoadas por uma vigorosa cumplicidade com quem peregrina. À medida que me aproximava dos confins da terra, o lugar onde a terra termina e o mar começa e a vista alcança para lá do horizonte, o caminho revelou-se surpreendentemente às minhas perguntas, num lugar mágico e inquietante, daqueles em que o silêncio esconde algo mais do que as palavras. Neste intenso caminho de revelação e renovação resultou o meu caminho do sol.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 30.05.2019

 

 

 
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