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Os nossos desertos

Quarenta dias contados. A provação é delimitada, não está para além das nossas possibilidades. Mas o fim do tempo quaresmal, e o fim das quarentenas a que o Covid nos tem obrigado, introduzir-nos-á numa prova maior: viver segundo o estilo aprendido no deserto. De que modo esta longa experiência quaresmal – seja de quarenta dias ou de quarenta anos, duração que simboliza a travessia rumo à passagem que abre para a plenitude da Páscoa – nos mudou, só veremos quando, passado o estado de emergência, reencontrarmos (ou não) em nós a capacidade de manter traços de humanidade no desespero, na crise, no luto, na perda.

Jesus permaneceu no deserto… permanecer, sabendo vencer a tentação da fuga para a frente, a partir do momento em que já não é possível voltar atrás. Permanecer não significa ficar indefeso, mas submeter-se com paciência. Significa lutar para não fugir, permanecer sob os golpes sem se deixar pisar. «Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados… para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo» (2 Coríntios 4, 8-10).

Permanecer no deserto quaresmal é a possibilidade real de colocar em jogo o melhor de nós nas situações em que de bom grado fugiríamos. Nos nossos desertos podemos decidir permanecer para continuar a «libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Isaías 58, 6-7).

Nos nossos desertos podemos decidir permanecer apenas depois de ter escutado e acreditado numa voz que nos declarou o seu amor sem condições por nós: «Tu és o meu Filho muito amado» (Marcos 1, 11). É o mesmo Espírito que delicadamente acompanhou o som desta voz até nós, que com força nos impele e nos acompanha no deserto.



Permanecer para descobrir que o deserto não é só habitado por feras e anjos, mas pelo próprio Senhor que primeiro quis permanecer não quarenta dias ou quarenta anos, mas habitar para sempre todos os desertos dos seus filhos, para ser a sua companhia na travessia rumo à plenitude da vida, que explodirá mais forte do que qualquer morte na manhã de Páscoa



Nos nossos desertos podemos eleger que palavras guardar, que memória cultivar, lançados na situação em que estamos podemos reencontrar e tornar a escutar as palavras de um amor incondicionado que precede todo o nosso agir. Somos amados, em qualquer lugar e situação, em qualquer tempestade ou deserto.

Talvez seja esta palavra que no nosso permanecer tenhamos o direito de dizer uns aos outros, somos amados no sofrimento, no cansaço, no sentido de derrota e fracasso, na experiência da impotência, na necessidade de acreditar que em breve algo acabará.

Lançados ao deserto, convidados e suplicados a permanecer o tempo necessário sem fugir, impelidos cada vez mais em profundidade – porque diferentemente de há um ano não estamos a ser apanhados de surpresa, e infelizmente também aprendemos o cansaço do deserto, o que significa ficar no meio dos animais selvagens, fora e dentro de nós –, sabemos o que significa querermos refugiar-nos em qualquer outro lugar, resignarmo-nos ou cobrirmos com espiritualismo este tempo que continua a ser dramático.

Talvez este tempo de Quaresma seja a oportunidade para aprender a estar no meio do deserto sem desbaratar ou abdicar da nossa humanidade. Permanecer para descobrir que o deserto não é só habitado por feras e anjos, mas pelo próprio Senhor que primeiro quis permanecer não quarenta dias ou quarenta anos, mas habitar para sempre todos os desertos dos seus filhos, para ser a sua companhia na travessia rumo à plenitude da vida, que explodirá mais forte do que qualquer morte na manhã de Páscoa.

Jesus permanece no deserto connosco e para cuidar de nós. O cuidado de Deus não é um acontecimento ocasional, merecido pelos gestos heroicos, mas é a ação contínua de Deus nos dias anónimos e distraídos da nossa Quaresma, nos desejos de fuga e nos ritmos apressados, na mediocridade e na exaustão de dias arrastados, nas lágrimas silenciosas ou na raiva gritada.

O Senhor está aí, permanece ao nosso lado, cuida de nós na situação real em que nos encontramos, nos tempos que não conhecemos, nas mudanças repentinas de programa, nos projetos que não se concretizam.

No deserto permanecer… É difícil encontrar a aurora dentro da escuridão. Permanecer, com esforço, e aprender dAquele que fez dos nossos desertos a sua morada, a ver na noite as primeiras luzes da Páscoa.


 

A partir de texto de Francesca Balocco
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: dhvstockphoto/Bigstock.com
Publicado em 24.02.2021

 

 
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