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Os museus e a necessidade de contemplação

Sai-se do confinamento, finalmente as pessoas podem mover-se, e para onde vão? Estou numa cidade de grandeza pequena-média, e sei que as pessoas, assim que lhes dão essa liberdade, vão aos restaurantes, caminham pelas praças, junto ao mar. Mas também aos museus.

Incrédulo, leio os jornais e confirmo. Os museus não têm muitos colaboradores, e aqui, onde resido, o presidente do município teve de integrar mais de duas dezenas. Interrogo-me. O longo enclausuramento por causa do vírus intensificou nas pessoas uma necessidade que agora podem satisfazer, e que necessidade é? De beleza. De arte. Admirar a beleza, tê-la diante dos olhos. Não se pode viver a reprimir esta necessidade.

O Louvre foi fechado rigidamente. Nestes dias, porém, durante o encerramento, passou por Paris um rico senhor que, antes de voltar para casa, queria ver a Gioconda. Pediu-o à direção, que em troca de uma verba alta abriu o museu só para ele. Pagou, e durante um longo tempo, julgo que uma hora, pôde ver a Mona Lisa, sozinho diante dela, na única sala do museu aberta, iluminada e guardada. Depois foi-se embora e as luzes apagaram-se.

Pergunto-me se ficou satisfeito ou se se arrependeu. Respondo-me: ficou contente. Pergunto-me se encontrou uma resposta ao sorriso “enigmático e molecular” da Mona Lisa. Seguramente que não. Herdou a pergunta, mas não a resposta. Como todos nós. A visão da Gioconda preencheu-lhe um vazio. O que na vida quer dizer um salto em frente. O salto que perceberam as pessoas que na minha cidade, onde está uma exposição de Van Gogh com 90 quadros, se precipitaram a ver o “pintor que ama o amarelo”.

Escrevi «a ver», mas devia dizer «a contemplar». O ser humano precisa de contemplar, e de adorar. Isto é: precisa de encontrar alguma coisa que vale a pena contemplar e adorar. Sente que existe, e busca-o. Aquilo que se pode ver e contemplar tem um valor mais alto do que aquilo que se pode ler. Há algumas semanas, uma grande casa de leilões vendeu uma narração da batalha de Austerlitz ditada e corrigida por Napoleão, e um Botticelli dos inícios: à primeira, um milhão de dólares, esta por 92 milhões.

Está certo, é um Botticelli, mas a outra é um Napoleão. Entra em cena o facto de o Botticelli poder ser visto e contemplado, enquanto o Napoleão é lido e raciocinado. Especialmente agora, neste momento da nossa vida, as pessoas precisam de contemplar, e por isso muitos vão pela manhã ver Van Gogh. Vamos sair (espero) de uma epidemia, a epidemia que nos tornou humildes, que nos fez compreender que a vida é uma graça, e precisamos de viver o máximo da graça, a beleza. O jornal regional titula: «A exposição será prolongada, Van Gogh prolonga a sua vida». Mas não, não prolonga a sua vida, mas a nossa. E preenche-a.


 

A partir de texto de Ferdinando Camon
In Avvenire
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Quadro de Botticelli vendido por 92 milhões de dólares | D.R.
Publicado em 04.02.2021

 

 
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