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Os monges não se retiram do mundo porque o desprezam, mas para o ver do lado de Deus

A cidadania comporta dimensão local e uma dimensão mundial; os maiores desafios que enfrentamos são os da solidariedade, como também dos grandes problemas internacionais, como a justiça, a paz, a imigração, a salvaguarda do ambiente. É desde logo evidente que também o monaquismo pode e deve oferecer, também a este nível, o seu específico e necessário testemunho.

Isso é feito antes de tudo com a sua própria presença, porque uma comunidade monástica é certamente uma interrogação inquietante colocada ao materialismo, que dessacraliza a vida, e a todas as formas de idolatria que degradam o ser humano, subjugando-o às coisas.

Os monges procuram o Absoluto – Deus – mediante a opção por uma vida pobre e humilde, casta e obediente, na estabilidade da comunhão fraterna. Separados de um mundo que é dominado pela mentalidade da eficiência e por um exasperado individualismo que conduz ao ativismo e à exterioridade, constituem um chamamento aos valores essenciais do espírito e da interioridade, segundo a mensagem evangélica.

A presença do monaquismo, longe de ser uma “condenação” do mundo, é um convite positivo a construir uma civilização fundada em bases sólidas. Por isso, ele, como o Evangelho, é sempre atual. A história demonstrou amplamente como a cadência de vida que S. Bento, pai do monaquismo ocidental, deus aos seus monges com a sua “pequena” Regra, foi uma grande força civilizacional para os países da Europa e, como reflexo, para todo o mundo.



A vida monástica contemplativa não é ausência de atividade e estranheza à vida social, mas uma maneira de oferecer a Deus o culto em espírito e verdade, e estar junto a todos os seres humanos como “sustento” de caridade e “sinal” da justa orientação do caminho que conduz todos juntos à salvação



É precisamente a esses valores perenes que hoje se referem quantos alimentam a esperança de poder reencontrar as raízes genuínas da unidade europeia para realizar também uma autêntica comunidade internacional. Basta pensar no alto conceito que S. Bento tem da pessoa, evangelicamente vista como presença do próprio Cristo; conceito inspirador das relações fraternas na vida comum, da autoridade entendida como serviço, da oração como expressão do primado reconhecido a Deus, do trabalho como solidariedade com todos os seres humanos, da natureza como ambiente vital sobre a qual não se pode exercer um poder arbitrário.

Pode afirmar-se que a vocação monástica, precisamente porque tende a realizar uma vida de plena comunhão na concórdia e na paz, é particularmente chamada a resplandecer, na Igreja e no mundo, como vida pascal, como profecia dos novos céus e da nova terra.

Quando é santa, como deve sê-lo, a vida dos monges evangeliza simplesmente com o facto de estar já totalmente orientada para o fim de cada vida humana. Somos, com efeito, todos cidadãos da Terra em viagem para a cidadania definitiva do Reino dos Céus. Os monges – dizia um antigo Padre – são aqueles que vivem na Terra conscientes de todos os seus «negócios no céu». Por isso, apesar de viver com realismo no presente, agem de modo que tudo leve fruto para a eternidade, que tudo dê glória a Deus.

Nesta perspetiva, também a ascese mais austera se ilumina de alegria e cada humana angústia floresce em esperança. A busca apaixonada pelo Senhor faz sentir suave o jugo e leve o peso do cansaço quotidiano que a existência humana sempre comporta. O carisma específico do monaquismo, que consiste essencialmente em afirmar o primado de Deus, e portanto a dimensão transcendente do ser humano, não põe os monges fora da história; eles são, na verdade, intensamente participantes de todos os acontecimentos humanos e dos grandes problemas que em cada época atormentam os povos.

Estão presentes no seu modo próprio, antes de tudo com a oração, tornada eficaz pela santidade, pelo amor que os crucifica ao mundo para o salvar. Os monges não se retiram do mundo porque o desprezam, mas distanciam-se dele para o poder ver e amar do lado de Deus. A vida monástica contemplativa não é ausência de atividade e estranheza à vida social, mas uma maneira de oferecer a Deus o culto em espírito e verdade, e estar junto a todos os seres humanos como “sustento” de caridade e “sinal” da justa orientação do caminho que conduz todos juntos à salvação.


 

Anna Maria Cànopi
Abadessa emérita da abadia beneditina "Mater Ecclesiae", Itália
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 21.03.2019

 

 
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