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Leitura: “Os espaços litúrgicos dos primeiros cristãos”

“Os espaços litúrgicos dos primeiros cristãos. Fontes literárias dos primeiros quatro séculos” é o título desta obra, acabada de publicar pelo Secretariado Nacional de Liturgia, o qual nos introduz, com generosa documentação, na realidade arquitetónica e litúrgica dos primeiros cristãos.

O autor deste volume 18 da coleção Exultet, Isidro Lamelas (docente na Universidade Católica Portuguesa) já nos habitou a este exercício de “escavar” nas fontes e nas “origens” cristãs.

Nesta obra é documentada a primeira evolução dos lugares de culto cristãos, numa espécie de pré-história da arquitetura cristã, que abrange os primeiros quatro séculos depois que o Verbo se fez carne.

De facto, desde que o Verbo de Deus veio habitar entre nós, também os humanos passaram a habitar o mundo de uma forma nova. O lugar de Deus coincide, a partir de Cristo, com a comunidade reunida: Onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles (Mt 18,20). Qualquer lugar em que os batizados se encontrem em nome d’Ele é chamado domus Dei. Mais ainda, cada homem e mulher, no seu lugar e vida concreta pode ser uma “pedra viva” desse edifício sempre em construção. Não é por acaso que a metáfora arquitetónica da edificação foi sempre uma das preferidas para descrever a natureza da comunidade nova dos que respondem ao apelo da Palavra.



O facto de os cristãos usarem o mesmo nome para designar a assembleia que se reúne na liturgia e o espaço físico e arquitetónico onde essa se congrega já mostra como a liturgia e a arquitetura cristãs andaram sempre de mão dada



Pelo menos desde o tempo de Tertuliano (séc. II), que o termo ecclesia já designa, para além da comunidade em ato de se reunir para o culto, a “casa do culto”. Desde então, começa a ser difícil perceber a qual realidade o termo “igreja” se refere: à comunidade reunida, ao grupo dos crentes, ou ao local ou espaço da reunião. Isto porque o edifício significa a Igreja, e a igreja-edifício é ela própria expressão de uma construção espiritual, feita de “pedras vivas”. Essa metonímia que identifica a assembleia celebrante com o espaço que a abriga será particularmente evidenciada no discurso mistagógico. Ou melhor, a própria mistagogia não é senão uma forma de “edificar” a igreja (no duplo sentido) com “pedras” visíveis que participam desse duplo significado.

Santo Agostinho, explica-no-lo bem quando lembra que: «nós chamamos “igreja” a basílica, na qual estão reunidos os fiéis, os únicos aos quais se aplica com propriedade o termo “igreja”; de modo que, mediante o termo “igreja”, isto é, “os fiéis” nessa contidos, indicamos o lugar que os contém... por isso a basílica não deixa de se chamar “igreja”, ainda quando nela não estão os fiéis» (Carta 190,5,19).

O facto de os cristãos usarem o mesmo nome para designar a assembleia que se reúne na liturgia e o espaço físico e arquitetónico onde essa se congrega já mostra como a liturgia e a arquitetura cristãs andaram sempre de mão dada. De modo que, mais do que de uma arquitetura sagrada ou mesmo religiosa, se deveria falar, pelo menos para os primeiros séculos, de uma arquitetura litúrgica. Podemos ainda ir mais longe: é parte constituinte da liturgia a edificação da Igreja, tanto enquanto comunidade cultual, como enquanto lugar e ambiência onde decorrem as ações rituais da liturgia.



Determinante é a ordenação do espaço sagrado em função do trinómio: altar – ambão – sede. À volta destes três elementos congrega-se a assembleia: uma comunidade de escuta da Palavra de Deus, uma comunidade orante, e uma comunidade que vive dos sacramentos



Como lembra D. José Manuel G. Cordeiro, no Prefácio a esta obra, «o lugar da celebração (igreja) é muito mais do que um edifício, é a casa para a assembleia do povo de Deus (domus ecclesiae = casa da Igreja). O sinal do templo exprime, de certo modo, os vários momentos e modos da presença de Deus no meio dos homens, desde o templo cósmico do Éden à terra prometida, da tenda do deserto ao templo de Jerusalém, da humanidade de Cristo às casas da Igreja e a cada um dos seus membros. A reforma litúrgica apresenta o significado da igreja-edifício como sinal visível do único templo que é o corpo pessoal de Cristo e o seu corpo místico, a Igreja, que celebra em determinados lugares o culto em espírito e verdade» .

Nos dois primeiros séculos, os cristãos não dispunham de lugares de culto fixos para a ação litúrgica. O Batismo era realizado onde houvesse água. Para ouvir a Palavra de Deus e celebrar a Eucaristia serviam-se das salas amplas de algumas casas. Assim surgem as domus ecclesiae que são adaptadas às necessidades das assembleias cristãs. Nestas inicia-se «um processo de ritualização e sacralização que leva a reservar determinada sala, mesa ou cálice usados por um apóstolo ou outra testemunha da fé. As domus ecclesiae vão-se estruturando respondendo também às várias necessidades da comunidade: litúrgico-celebrativa, de acolhimento, caritativo, residência do responsável da comunidade. Os vários lugares são articulados entre si e o mais importante está reservado para a ceia do Senhor» (D. José Manuel G. Cordeiro).

À medida que a Liturgia se vai estruturando, principalmente a partir do século III quando as comunidades crescem exponencialmente, tornaram-se necessários espaços maiores: a aula da celebração ganha importância e surgem as basílicas. O termo ecclesia ou “basílica” é então usado para indicar o lugar da reunião dos fiéis. Com Constantino, a imagem exterior do lugar do culto cristão começa a espelhar a grandeza da sua verdade interior.


«A fé não se preocupa com examinar a beleza dos elementos deste edifício, mas com a grande beleza do homem interior, da qual procedem estas obras de amor»



«Passa-se assim do facto celebrativo ao lugar da celebração: o enriquecimento do lugar, e a sua decoração que se faz mistagogia, pretendem que ele seja digno do Rei divino que aí mora – a domus Dei, a domus Regis ou simplesmente basílica. A sua dedicação constitui uma festa do povo de Deus, uma manifestação esplêndida da igreja saída da perseguição» (Idem).

Determinante é a ordenação do espaço sagrado em função do trinómio: altar – ambão – sede. À volta destes três elementos congrega-se a assembleia: uma comunidade de escuta da Palavra de Deus, uma comunidade orante, e uma comunidade que vive dos sacramentos. A igreja é, pois, assim a casa da Igreja, isto é, morada da comunidade convocada.

A publicação desta antologia comentada e anotada das mais importantes fontes bíblicas, patrísticas, de autores eclesiásticos e outros textos, resultado da reconhecida investigação do P. Isidro Lamelas, presta ao leitor de língua portuguesa o inestimável serviço de possibilitar o contacto direto com as primeiras fontes da arquitetura e artes cristãs, que nascerem e progrediram em relação direta com a liturgia.

Que as palavras de S. Agostinho que se seguem se apliquem aos que “realizam tais obras”, de capital importância para a “edificação” do edifício humano e cristão do qual todos são chamados a ser pedras com alma:

«A fé não se preocupa com examinar a beleza dos elementos deste edifício, mas com a grande beleza do homem interior, da qual procedem estas obras de amor. O Senhor recompensará, por isso, os seus fiéis que realizaram tais obras, tão alegre e devotamente, de modo a acompanhá-los na edificação da sua própria construção, para a qual contribuem como pedras vivas a que a fé deu forma, a esperança deu consistência, e a caridade deu perfeição» (S. Agostinho, Sermão, 337).


 

Texto de apresentação
Imagem: Capa
Publicado em 03.03.2021

 

Título: “Os espaços litúrgicos dos primeiros cristãos. Fontes literárias dos primeiros quatro séculos”
Autor: Isidro Pereira Lamelas
Editora: Secretariado Nacional de Liturgia
Páginas: 320
Preço: 10 €
ISBN: 978-989-8877-88-8

 

 
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