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Os escritores católicos e o desafio ao conformismo

«Uma pequena bomba»: é assim que o “Le Figaro Littéraire” definiu há poucos dias o ensaio “La divine bibliothèque”, de Juan Manuel de Prada. O escritor espanhol, autor publicado em Portugal (“O sétimo véu”, romance, Dom Quixote; “A nova tirania – O senso comum contra o progressismo matrix”, ensaios, Alêtheia), deu vida a uma verdadeira “Introdução às grandes obras da literatura cristã”, como assinala o subtítulo da edição francesa. Que reproduz 26 releituras de escritores, em alguns casos também teólogos, mais e menos conhecidos – menos de metade do livro editado em Espanha (ed. Magnificat), que reporta seis dezenas, e que se intitula “Una biblioteca en el oasis”.

O volume revive grandes marcos da literatura católica do século XX, de origem sobretudo francesa e anglo-saxónica, que teve entre os seus máximos representantes Bloy, Mauriac e Bernanos, enquanto em Inglaterra se contam Benson, Chesterton, Lewis, Waugh e Greene. Sem esquecer a americana Flannery O’Connor. Esta, precisamente, é a testemunha perfeita da aproximação do autor à literatura «pela sua capacidade de penetrar nas profundidades e nos abismos do coração humano, mostrando a ação da graça num território em grande parte ocupado pelo Diabo».

Para Prada, a verdadeira literatura, «inclusive a divinamente inspirada», não pode eximir-se do confronto com o drama das consequências do mal na natureza humana. O seu olhar crítico adverte para dois perigos: por um lado «a infeção puritana» que provocou muitos danos na própria esfera católica, por outro aquela que ele denomina «a narrativa cínica», na qual o mal se torna inexorável e invencível.

Não há necessidade de confundir a missão do escritor católico com a do apologeta ou do autor «piedoso que oculta aos seus leitores os aspetos escabrosos da realidade», uma atitude que conduziu à decadência cultural do mundo católico, sobretudo no Ocidente. «Negar estas sombras significa negar a arte.» Ao mesmo tempo, o escritor espanhol refuta a sentença de André Gide segundo a qual «é com bons sentimentos que se faz má literatura».



O facto de Flannery O’Connor ter declarado explicitamente a sua fé católica discriminou-a profundamente e fez com que escritores como Benson, Belloc e Waugh fossem pouco considerados após a conversão. E se a Chesterton é atribuído um grande talento, é «porque não é plenamente compreendido»



Também a literatura dos bons sentimentos pode ser alta literatura, porque não é uma literatura sem problemas e pode ela própria suscitar interrogações, igualmente terríveis. O autor apresenta um exemplo ao ilustrar um romance da escritora americana Betty Smith, “Uma árvore cresce no Brooklyn”, comparando-o a “As cinzas de Ângela”, de Frank McCourt.

Ambos os livros narram histórias semelhantes, ou seja, a vida quotidiana de duas famílias de origem europeia na Nova Iorque da primeira metade do século XX. Mas Betty Smith mostra um olhar benévolo, sobretudo na figura da pequena Francie, que cresce na pobreza sem nunca desesperar, encontrando na leitura a chave para um resgate social. A sua mãe, Katie, obrigada a fazer limpezas porque o marido não tem trabalho fixo e muitas vezes embebeda-se, lê todas as noites a ela e ao irmão mais pequeno uma página da Bíblia e uma de Shakespeare; assim, Francie é impelida a frequentar a biblioteca do bairro de Williamsburg onde vive e começa a ler um livro por dia. É evidente a alusão autobiográfica, assim como no romance de McCourt, de tons muito mais amargos.

Talvez por isso, aponta Prada, os livros de Betty Smith estão em grande parte esquecidos em muitos ambientes, enquanto a de McCourt é considerada uma obra-prima. Não que não o seja, obviamente, mas «a desesperação do nosso tempo não suporta que se recorde que existem razões para continuar a viver», inclusive em contextos degradados.



Pouco conhecido é o escritor e teólogo argentino Leonardo Castellani, «irresistível humorista» capaz de unir erudição e poesia, autor de “As parábolas de Cristo” e do romance “João XXIII (XXIV), de 1964, em que se imagina que após a morte de Roncalli é eleito um pontífice argentino



Outra consideração iluminante do autor espanhol diz respeito à «cristofobia» própria dos nossos tempos. O facto de Flannery O’Connor ter declarado explicitamente a sua fé católica discriminou-a profundamente e fez com que escritores como Benson, Belloc e Waugh fossem pouco considerados após a conversão. E se a Chesterton é atribuído um grande talento, é «porque não é plenamente compreendido», como acontece em muitos críticos e leitores de “O homem que era quinta-feira”.

Na sua fulgurante resenha, Juan Manuel de Prada faz-nos redescobrir a beleza de romances inesquecíveis, como “Diário de um pároco de aldeia”, de Bernanos, e “O nó de víboras”, de Mauriac, “O poder e a glória”, de Graham Greene, e “A lenda do santo bebedor”, de Joseph Roth. Tudo obras onde a luta entre o mal e a graça toca alturas talvez inigualáveis.

A perseguição dos cristãos é um dos filões das obras apresentadas, de “Barrabás”, de Lagerkvist, escrito por um autor não-crente mas capaz de abalar a fé, a “Quo vadis?”, de Sienkiewicz, e “Silêncio”, de Shusaku Endo. Recuperado recentemente graças ao filme de Scorsese, não hesita em mostrar-nos as tribulações mais terríveis a que foi submetida a fé no Japão do século XVII: também este é um dos motivos pelos quais os jurados do Nobel nunca atribuíram o prémio a Endo, preferindo-o o compatriota Kenzaburo Oe, «mais dócil às modas e ao politicamente correto».

Outro tema dominante é a distopia, de “O senhor do mundo”, de Benson, obra frequentemente citada por Bergolgio, a outra menos conhecida de Gustave Thibon, o filósofo-camponês francês amigo de Simone Weil, “Vós sereis como deuses”, tragédia contra a omnipotência da técnica.



Por fim, uma citação necessária dos dois únicos autores vivos presentes no volume de Prada, o primeiro espanhol e também teólogo, Pablo d’Ors, o segundo francês e sobretudo filósofo, Fabrice Hadjadj, entre os poucos capazes de se impor a nível intelectual no panorama cultural



Neste contexto, suscitam a curiosidade os romances dedicados aos papas, como “Adriano VII”, de Frederick William Rolfe, conhecido pelo pseudónimo Baron Corvo, onde o papado é descrito com grande sarcasmo, e “O convidado do papa”, de Vladimir Volkoff, que tem como protagonistas João Paulo I e Andropov, inspirado num acontecimento real, a morte imprevista do metropolita de Leninegrado Nikodim quando se encontrava em audiência com o papa Luciani, a 5 de setembro de 1978.

Pouco conhecido é o escritor e teólogo argentino Leonardo Castellani, jesuíta que foi expulso em 1949 e a quem foi restituído o ministério sacerdotal em 1966, «irresistível humorista» capaz de unir erudição e poesia, autor de “As parábolas de Cristo” e do romance “João XXIII (XXIV), de 1964, em que se imagina que após a morte de Roncalli é eleito um pontífice argentino que renuncia às honras e decide não habitar nos tradicionais apartamentos vaticanos, promovendo uma reforma da Igreja hostilizada pela cúria. Prada lê aqui, não sem razão, surpreendentes semelhanças com o papado de Francisco, e em 2015 escreveu um artigo sobre este tema nas páginas do jornal “L’Osservatore Romano”.

Por fim, uma citação necessária dos dois únicos autores vivos presentes no volume de Prada, o primeiro espanhol e também teólogo, Pablo d’Ors, o segundo francês e sobretudo filósofo, Fabrice Hadjadj, entre os poucos capazes de se impor a nível intelectual no panorama cultural europeu, demonstrando que a fé tem ainda a capacidade de incidir e encontrar o justo reconhecimento, contanto que não seja reduzida a sentimentalismo ou sociologismo, e consiga provocar, com imaginação e anticonformismo, o pensamento dominante.


 

Roberto Righetto
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Flannery O'Connor | D.R.
Publicado em 24.02.2022

 

 

 
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