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Relação entre Igreja e Cultura não se pode «manter por muito tempo tal qual se encontra»

O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?

Não me parece que a relação entre a Igreja e a Cultura se possa manter por muito tempo tal qual se encontra. É verdade que se está perante dois universos difíceis de gerir, já que em parte são coincidentes, e em parte divergem. Entre outras divergências, sublinho o facto de a Cultura se basear na interpretação do pensamento sem limite de variáveis, sendo por natureza aberta e inconclusa, e a Religião fundamentar-se em silogismos de resolução fechada. Pelo meio, porém, existem todas as aproximações possíveis e desejáveis, não esquecendo que a Cultura se aproxima com mais facilidade da Religião do que a Religião da Cultura. No ponto em que estamos, vários me parecem ser os aspetos em que a aproximação da Igreja poderia ser útil para a sociedade crente e não crente dos nossos dias.

Um dos aspetos tem a ver com a natureza do discurso pastoral. Se em determinados contextos a Igreja ainda associa a criação de ambientes e discursos pouco inteligíveis como forma de desencadear relações místicas, é bem verdade que hoje em dia se assiste à prática salutar de uma crescente aproximação do discurso lógico, interventivo, por vezes com alto grau de racionalidade e muita informação, como convém a uma sociedade cada vez mais aberta e exposta ao mundo da comunicação e da crítica globalizada. Mas nem todos os agentes da Igreja conseguem atingir um nível eficaz.

O principal obstáculo talvez resida na dificuldade que os sacerdotes encontram em passar das narrativas bíblicas e da leitura do Evangelho, altamente metaforizadas, para as parábolas da atualidade. Desocultar os sentidos do mundo atual através do “texto sagrado” exige o conhecimento e a introdução de narrativas atuais, sobretudo, a introdução da parábola e da poética contemporâneas. A ideia que têm muitos fiéis é de que escutam, ano após ano, os mesmos textos fixados num tempo remoto cujas lições são fundadoras mas insuficientes para lidarem com os sentidos do mundo onde estão imersos. Naturalmente que a proposta é difícil de cumprir. Exigiria uma formação cultural humanística e artística muito forte, e os riscos de serem avocados para o interior da Igreja textos exteriores ao cânone religioso, bem como a fábula colhida do dia a dia, exporia o clero a uma dificuldade que assim evita, refugiando-se num discurso cristalizado pelo uso, e inofensivo pela decantação que o tempo tem trazido. Mas um dia, mais tarde ou mais cedo, esse “contágio” com um outro “corpus”, o cultural, vai ser inevitável, se a Igreja desejar ter argumentos para salvaguardar o que do seu património considera intocável. Outro aspeto seria uma nova vivência do Património Artístico da Igreja, sua forma e significado colocados em perspetiva histórica e crítica. E outro, talvez tão importante quanto a revisão do discurso, seria um novo investimento nos contributos do canto, da música e da coreografia nas várias cerimónias com que a Igreja acompanha os momentos fundamentais da vida. Sem deixar que a espontaneidade dos diversos grupos tenha a sua natural intervenção, numa altura em que as artes cénicas ganharam um expressão tão sofisticada, a Igreja parece incapaz de se mover de uma fase arcaica, em contraste com a agilidade dos meios de comunicação. A aposta no sentido das coisas em vez da sua aparência, num mundo de aparência, acaba infelizmente por engolir o propósito do sentido.

 

Este depoimento integra a edição de novembro de 2011 do "Observatório da Cultura" (n.º 16).

 

 

Lídia Jorge
Escritora
Publicado em 15.11.2011 | Atualizado (mudança de grafismo da página) em 03.06.2025

 

 

 
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