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O trabalho e a dignidade humana

Diz o Papa Francisco, no parágrafo 162 da sua Carta encíclica Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social: «Numa sociedade realmente desenvolvida, o trabalho é uma dimensão essencial da vida social, porque não só é um modo de ganhar o pão, mas também um meio para o crescimento pessoal, para estabelecer relações sadias, expressar-se a si próprio, partilhar dons, sentir-se responsável no desenvolvimento do mundo e, finalmente, viver como povo.».

O trabalho é uma dimensão essencial da vida social. Para que o possa ser, tem de ser, como modo próprio de cada ser humano, não apenas maneira de ganhar o pão, mas de se construir a si próprio, sendo assim uma dimensão essencial de cada pessoa. Na vida humana, nada se faz sem trabalho, começando pela parte propriamente física do termo, que implica que cada vez que uma qualquer força seja movimentada tenha de haver a grandeza «trabalho». Ora, nenhum ser humano pode fazer como ato próprio coisa alguma sem trabalho neste sentido.

Todavia, o trabalho não se esgota como coisa física, transcende-se: é através desta realidade física em movimento que cada ser humano e, assim, no conjunto imbricado da ação de todos os seres humanos que é a sociedade, que cada pessoa, se ergue ontologicamente como algo que é irredutível a qualquer outra coisa: o trabalho que me ergue e que não é feito por mim, aliena-me, ainda que me julgue ser um qualquer imperador servido por escravos que trabalham para mim. De facto, esse trabalho ergue-os a eles no que são; a mim, resta a ilusão dos impotentes de que podem ser mais do que aquilo para que trabalham. Isto aplica-se a todos os seres humanos individualmente considerados e a todas as relações humanas.



Através do trabalho, o poeta possível que há em cada ser humano e em todos os seres humanos pode expressar-se e expressa-se. Não se trata apenas do vulgar artista, mais ou menos reconhecido e envaidecido, mas de todo o ser humano



Em termos cristãos, a forma mais elevada de trabalho é a da caridade, em que através do trabalho do amor, mais do que construir o meu ato – que também assim construo –, construo o outro na forma da possibilidade de ser que o meu trabalho lhe dá. Humildemente, pense-se no trabalho que uma mãe tem ao dar de mamar ao seu bebé. Não perceber isto, é não perceber coisa alguma em termos éticos, políticos, económicos, mesmo antropológicos.

O trabalho constrói a sociedade, constrói a cultura, constrói o mundo humano. Sem trabalho, nada disto existe. Apenas os que não podem fisicamente trabalhar constituem exceção; no entanto, a natureza está de tal modo bem pensada que o seu corpo trabalha por eles, pois não há biologicamente vida sem que haja trabalho biológico a vários níveis.

Compreende-se, assim, que o Papa diga que o trabalho é meio de crescimento pessoal. É-o de forma poética, pois permite – único – que cada pessoa seja poeta de si mesma através do trabalho que realiza para si e para os demais.

Não há relações humanas possíveis sem trabalho: mesmo os mais preguiçosos necessitam de algum trabalho para se poderem relacionar seja com o que for. O relacionamento humano por excelência, que é a amizade, em que pelo menos dois seres humanos se dão reciprocamente em amor pelo outro, pelos outros, é aquele que mais trabalho implica, pois amar o outro não é o mesmo que ter afetozinhos por ele ou paixõezinhas ou gostinhos, mas trabalhar sempre, indefetivelmente, para o seu bem. Cada ato de amor neste sentido constrói a sociedade. Cada sua eventual omissão destrói sociedade ou impede sociedade de se formar.



Esta construção, em partilha de atos de bem, bem trabalhados, faz do que poderia ser um mero aglomerado de indivíduos humanos em caótica des-vivência, pessoas em real convivência, vida em comum, segundo princípio de bem-comum: um povo. Tudo isto tem muitos inimigos, porque tudo isto dá muito trabalho



Através do trabalho, o poeta possível que há em cada ser humano e em todos os seres humanos pode expressar-se e expressa-se. Não se trata apenas do vulgar artista, mais ou menos reconhecido e envaidecido, mas de todo o ser humano que, ao trabalhar, se põe ontologicamente a si mesmo, através desse trabalho, e, ao fazê-lo, nessa posição se expõe, se manifesta. Todavia, quem olha com olhos de ver para o trabalho em que o jardineiro ou o calceteiro se expressa? No entanto, o próprio snobismo do olhar implica trabalho em sentido físico.

Quem trabalha, evidentemente, através dos atos de trabalho, partilha dons. Nem todos os dons são semelhantes: quem escreve estas linhas reconhecidamente não é Platão algum. Pode mesmo ser que o dom a partilhar não seja propriamente um bem; mas é partilhado pelo trabalho, pois é também pelo trabalho que o mal se pode fazer, convém não esquecer.

Não é claramente do trabalho como posição ética e política do mal que fala o Papa, antes do trabalho com que o mundo é desenvolvido em sentido positivo.

Pense-se no trabalho que houve até se conseguir a pasteurização ou o tratamento da raiva – obras de Pasteur –; pense-se que sem a pasteurização, por exemplo, não era possível que a humanidade tivesse a dimensão que tem, pois não haveria como preservar alimentos ou, mais geralmente, por processos análogos, esterilizar por calor. Com estes atos e o trabalho que não apenas envolveram como se fossem coisas diferentes, mas que, efetivamente, são – os atos e o trabalho que os constitui são o mesmo –, introduz-se o bem no mundo, constrói-se o que é construível como mundo através do bem.

Esta construção, em partilha de atos de bem, bem trabalhados, faz do que poderia ser um mero aglomerado de indivíduos humanos em caótica des-vivência, pessoas em real convivência, vida em comum, segundo princípio de bem-comum: um povo.

Tudo isto tem muitos inimigos, porque tudo isto dá muito trabalho.

A inimizade ao trabalho funciona como justiça poética, eliminando os que assim se trabalham.

Melhor será ouvir as santas palavras do Papa.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: nuoil830/Bigstock.com
Publicado em 13.01.2021

 

 
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