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Leitura: “O tempo é agora – Um chamamento para uma coragem invulgar”

«Este livro é sobre o profeta que há em ti»: não podia ser mais explícito o propósito da autora de “O tempo é agora”, Joan Chittister, recentemente publicado pela Paulinas Editora.

Quem são os profetas de hoje? «O profeta é a pessoa que diz não a tudo o que não seja Deus. Não ao abuso de mulheres. Não à rejeição do estrangeiro. Não a crimes contra imigrantes. Não aos danos infligidos às árvores. Não à poluição dos céus. Não à contaminação dos oceanos. Não à ignóbil destruição da humanidade em prol de mais riqueza, mais poder e mais controlo nas mãos de um pequeno número. Não à morte.»

A espiritualidade profética consiste na «tomada de consciência, da opção, do risco, da transformação. Tem a ver com o abraço à vida, com a busca de integridade, com a aceitação dos outros e com a chamada à cocriação. É uma forma de viver com os olhos bem abertos e os corações cheios de fervor frente à totalidade da vida. (…) Em suma, a espiritualidade profética tem a ver com a vivência da nossa fé pelas ruas do mundo, e não apenas com as conversas acerca da mesma. A fé não presta, a menos que seja vivida. É essa a mensagem básica dos profetas, que é tão verdadeira hoje como o era há milhares de anos».

Os profetas da Bíblia «eram as sirenes no meio da noite, os semeadores de sementes lançadas muito longe, os eternos agitadores na alma do povo, da nação, verdadeiros archotes no meio da tenebrosa confusão». «Optavam pela coragem. Optavam pela expansão da alma. Optavam por arriscar a sua vida por aquilo que devia ser, em vez de apostar o seu bem-estar, a sua segurança, a orientação das suas vidas naquilo que já era.»

A concluir o texto introdutório, a autora sintetiza o seu propósito: «Aquilo que se segue nas próximas páginas são as sementes da tradição profética. A minha esperança é que elas implantem no leitor uma vida nova, um novo apreço pelos outros, uma nova forma de viver para Deus que inflame o seu coração com o desejo de mudar o mundo. Para bem de todos nós».



Muitas vezes, ignoramos, resistimos ou rejeitamos a ideia de que, tal como Jesus, nós temos um papel a desempenhar para endireitar um mundo cujo eixo se tem vindo a inclinar na direção errada



Risco
Joan Chittister
In O tempo é agora

A pergunta «o que fará você?» encontra-se no âmago da maturidade espiritual, do empenho espiritual. Seguir Jesus significa que cada um de nós também deve fazer alguma coisa para redimir o nosso mundo maltratado e vencido pela cobiça que o sufoca. Devemos colocar-nos entre os indefesos e a ameaça nuclear que o destruiria em nome da paz. Devemos fazer frente ao sexismo que degrada metade da raça humana. Devemos redimi-lo da antropologia da falsa superioridade humana que consome os seus recursos e diminui os seus povos à custa de tudo o que existe no planeta, exceto a humanidade. E depois, como resultado disso, também a maior parte da humanidade.

Os pobres, nas nossas cidades, dormem ao relento durante o verão e morrem de frio no inverno. As nossas crianças vão para a cama com fome. As nossas mulheres não podem andar sozinhas nas nossas ruas, por medo de serem vítimas de violação, assaltos e violência. O resto do mundo, apanhado na fúria da época, bate-nos à porta mendigando «lugar na estalagem». E você e eu, que fazemos nós para resolver a situação? Limitamo-nos a ficar de pé e a ver tudo isto passar?



Sim, o ideal cristão é a bondade pessoal, claro, mas a bondade pessoal requer que nós sejamos mais do que piedosos, mais do que fiéis ao sistema, mais do que meros membros encartados da comunidade cristã. O cristianismo também requer que cada um de nós seja de tal modo uma presença profética



A tentação, obviamente, é recusar o convite a «seguir» realmente Jesus – ou seja, a estar na nossa época como Ele estava na sua, a alimentar de facto os famintos, a contestar as práticas de opressão ou a negar a piedade do sexismo, do racismo e da escravatura económica. Com efeito, muitas vezes, ignoramos, resistimos ou rejeitamos a ideia de que, tal como Jesus, nós temos um papel a desempenhar para endireitar um mundo cujo eixo se tem vindo a inclinar na direção errada. Recusamo-nos a aceitar a ideia de que virar de novo os ponteiros da bússola dos nossos mundos para o verdadeiro Norte da alma é o que significa ser verdadeiramente espiritual. A nossa missão é ser «obedientes», preservar as leis, os jejuns, os dogmas e os dias de festa, argumentamos. Contudo, a pergunta que muitas vezes não conseguimos fazer é esta: obedientes a quê e obedientes a quem? A nossa missão é ser obedientes, durante toda a nossa vida, à vontade de Deus para o mundo. E nisso reside a diferença entre não prestar para nada e prestar para alguma coisa. Entre religião-espetáculo e religião a sério. Entre espiritualidade pessoal que se dedica a alcançar a santificação privada e a espiritualidade profética, a outra metade da economia cristã.

Sim, o ideal cristão é a bondade pessoal, claro, mas a bondade pessoal requer que nós sejamos mais do que piedosos, mais do que fiéis ao sistema, mais do que meros membros encartados da comunidade cristã. O cristianismo também requer que cada um de nós seja de tal modo uma presença profética, que o nosso cantinho do mundo se transforme num lugar melhor devido à nossa presença aí.



Os profetas recusam-se, pura e simplesmente, a aceitar uma visão do amanhã limitada às fronteiras de ontem e vazia da Palavra de Deus para hoje



Não temos espaço, aqui na Terra, para dedicar uma vida inteira à manutenção da rotina espiritual perfeita, da antissética limpeza moral e de um amargo silêncio resignado, na solidão. Nada disso, com efeito, marcou a vida do próprio Jesus, que «convivia com pecadores», curava estrangeiros, chamava as mulheres ao discipulado, e discutia com escribas e fariseus acerca da natureza da própria fé, irritando os líderes tanto do templo como do trono, tanto a religião como o governo.

Em vez disso, a chamada de Jesus é a chamada à profecia, a dar uma palavra de Deus a um mundo que prefere os rituais religiosos e o conforto espiritual às exigências de maturidade moral. A sermos testemunho de profeta num lugar sem profetas.

A espiritualidade profética chama-nos a caminhar no rasto dos profetas bíblicos do antigo Israel, a ouvir a Palavra de Deus para o mundo e a repeti-la, a gritá-la e a moldá-la até o mundo despertar. É exigi-lo até que os famintos sejam alimentados, os doentes sejam tratados e os violentos sejam despedidos já sem o seu poder destrutivo.



Nunca devemos esquecer que os profetas eram pessoas como o leitor e como eu. Sentiam-se desanimados com o caos presente. Estavam cansados de lutar. E também oscilavam entre as mesmas três opções que ainda hoje nos desafiam



Os profetas de então e os profetas de agora são aqueles que olham para a vida tal como ela é – dura de coração para muitos, injusta para a maioria – e que estão determinados a expandi-la. Os profetas recusam-se, pura e simplesmente, a aceitar uma visão do amanhã limitada às fronteiras de ontem e vazia da Palavra de Deus para hoje.

Os profetas clássicos do antigo Israel não reconstruíram o passado. Nem sequer restauraram de facto o presente. No entanto, resistiram a uma visão impaciente e implacável do amanhã. Manifestaram claramente que nenhum de nós tem o direito de desistir até que a vontade de Deus para o mundo se cumpra. Qualquer coisa menos do que isso significa ignorar o juízo de Deus.

A voz dos profetas só raramente era apreciada pelos reis e pelos sumos-sacerdotes da sua época. Os profetas eram ignorados pelas próprias pessoas a quem eram dirigidas as suas mensagens, por aqueles que poderiam ter evitado os desastres subsequentes. Todavia, continuavam a proclamar a Palavra de Deus sem olhar a isso. Ao fazê-lo, preservaram a memória da vontade de Deus para a humanidade. E continuaram, embora de forma aparentemente inútil, a descrever o que seria necessário para levar a vida à plenitude da criação.



Será que vamos fazer alguma coisa para dar nova forma ao coração e à alma dos mundos que habitamos? Ou será que não vamos fazer nada, afirmando em seguida que éramos impotentes frente ao mundo?



Não, os profetas bíblicos não eram aceitáveis aos olhos dos poderes da sua época. Sempre foram a voz do futuro, a voz da plenitude vindoura. Também eram as vozes de advertência acerca daquilo que nos sucederia, do que sucederia ao mundo, se o mundo não mudasse de caminho – a menos que aqueles que ouviam a Palavra dessem a sua vida para dá-la à luz.

No entanto, também nunca devemos esquecer que os profetas eram pessoas como o leitor e como eu. Sentiam-se desanimados com o caos presente. Estavam cansados de lutar. E também oscilavam entre as mesmas três opções que ainda hoje nos desafiam. Tinham de decidir se deveriam desistir completamente de lutar, render-se à cultura prevalecente ou recusar-se a aceitar a injustiça da sua época.

Não, nem todos somos profetas – no sentido clássico ou original da palavra –, mas todos deveríamos ser portadores dessa mesma mensagem profética para o nosso tempo. Deveríamos ser testemunhas de uma espiritualidade que não só é fiel às dimensões litúrgicas das nossas tradições, mas que também está empenhada no tipo de espiritualidade profética que hoje volta a gritar a mensagem estrondosa e clara que Deus dirige a um mundo desequilibrado e injusto.

A verdade é que não há ninguém demasiado ocupado, demasiado velho, demasiado enclausurado, demasiado afastado das lutas do mundo que não possa promover minimamente a Palavra de Deus num mundo como o nosso.



Enquanto mantivermos a cabeça baixa, a boca fechada e a reputação pública imaculada, graças ao silêncio que mantemos frente às grandes questões públicas dos nossos dias, os pilares da sociedade vão-se erodindo à nossa frente



Para todos nós que vivemos sob a ameaça da degeneração social decorrente dos agentes do poder, dos especuladores, dos ditadores, dos nativistas, dos narcisistas e dos preconceituosos, há decisões a tomar. Será que vamos fazer alguma coisa para dar nova forma ao coração e à alma dos mundos que habitamos? Ou será que não vamos fazer nada, afirmando em seguida que éramos impotentes frente ao mundo? Porventura vamos agir como se não soubéssemos que há manifestações em que participar, estudantes a ensinar, medidas de construção da paz a tomar, legislação pública a estudar e a discutir, instalações e serviços a abrir para os sem-abrigo e, no mínimo, orações de súplica sinceras a rezar em público nas nossas igrejas? Porventura não vamos levantar sequer a voz na busca da vontade de Deus para todos nós?

Aquilo de que este mundo precisa sobretudo da nossa parte, neste momento, é que nos empenhemos numa espiritualidade tanto profética como privada, que faça ressoar as preocupações dos profetas que partiram antes de nós. Por outras palavras, a profecia constitui uma dimensão essencial da presença cristã, um testemunho claro da vida orientada pelo Espírito.

O problema é que nós perdemos toda a consciência dos profetas bíblicos e, portanto, do nosso próprio direito espiritual inato. Com efeito, nós poderíamos até não os reconhecer se os víssemos. Todavia, foi precisamente para épocas como a nossa que Deus enviou esses profetas de antigamente, para despertar o mundo à sua volta, fazendo-o reconhecer que estava muito longe da Verdade. Chegou certamente o tempo de esta geração os redescobrir.

Com efeito, esta pergunta ressoa através dos tempos: E tu? O que vais fazer?

 

Reflexão

Toda a vida tem os seus riscos. Aqueles que nada arriscam, arriscam muito mais, ensina o Talmude. Enquanto mantivermos a cabeça baixa, a boca fechada e a reputação pública imaculada, graças ao silêncio que mantemos frente às grandes questões públicas dos nossos dias, os pilares da sociedade vão-se erodindo à nossa frente. A Constituição debate-se com as ambições políticas das próprias pessoas que a deveriam defender. Os pobres ficam ainda mais pobres. A classe média vê a sua reforma reduzir-se a pó. É a nós, neste lugar, que a Escritura chama com maior clareza: «Deus é minha salvação; confiarei e não temerei.» Não devemos temer a escuridão; devemos apenas decidir-nos a trazer a luz para onde quer que nos encontremos.

A chamada a discernir a diferença entre aquilo que é santo e aquilo que é simplesmente popular, entre aquilo que é e aquilo que deveria ser, faz parte da essência da vida boa. A obra de Deus está nas nossas mãos. Ignorá-lo é ignorar a própria plenitude da vida. Cada profeta contemplou o preço do risco e seguiu em frente sem se ater a ele – chamando o mundo a tornar-se a sua melhor versão –, e o mesmo devemos fazer nós.

«Só aqueles que arriscarem ir longe demais talvez possam descobrir até onde se pode ir» (T.S.Eliot).


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 15.12.2020

 

Título: O tempo é agora - Um chamamento para uma coragem invulgar
Autora: Joan Chittister
Editora: Paulinas
Páginas: 136
Preço: 12,00 €
ISBN: 978-989-673-765-8

 

 
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