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Pré-publicação: “O tempo das igrejas vazias – Da crise ao aprofundamento da fé”

«Com as reflexões no tempo das igrejas vazias desejei, certamente, animar e encorajar os meus ouvintes a penetrar mais fundo no mistério da Páscoa, neste coração da fé cristã, mas também prepará-los para uma época em que teremos de entrar com maior coragem e confiança na nuvem do mistério e saber viver no meio dos paradoxos e dos novos desafios para os quais não temos respostas feitas.»

Foi com este propósito que o teólogo checo P. Tomáš Halík redigiu as homilias referentes às leituras bíblicas proclamadas nas celebrações de Quarta-feira de Cinzas, Quinta-Feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado Santo e domingos da Quaresma e Tempo Pascal (até ao Pentecostes), oferecendo-as, através da internet, durante o primeiro período de confinamento originado pela primeira vaga da pandemia, aquando da «espantosa primavera de 2020».

As meditações do P. Halík vão estar disponíveis em português no volume “O tempo das igrejas vazias – Da crise ao aprofundamento da fé” (150 pág.), que a Paulinas Editora disponibiliza dentro de uma semana, a 24 de fevereiro.

Apresentamos, em pré-publicação, a reflexão relativa à Quarta-feira de Cinzas, primeiro dia da Quaresma.

 

Pó e cinzas
Tomáš Halík
In “O tempo das igrejas vazias”

«Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar» (Liturgia de Quarta-feira de Cinzas).

«Num bolso leva um papel com a inscrição: Foi por ti que o mundo foi criado! E, no outro, um com a frase: És pó e cinza!» (Sabedoria Hassídica).

É Quarta-feira de Cinzas. Pomo-nos a caminho da Páscoa.

Neste primeiro dia do grande jejum, «tempo de penitência pré-pascal», celebramos pela vigésima quinta vez, na nossa paróquia universitária, As Cinzas dos artistas – uma oportunidade para encontro entre o mundo da arte e o mundo da religião. Esta tradição surgiu no final da Primeira Guerra Mundial, quando foi celebrado neste dia, na Catedral de Notre-Dame em Paris, um Requiem pelos artistas que morreram na Guerra.

O mundo da arte e o mundo da religião são intimamente unidos. A história da arte não se pode pensar sem a história da religião e vice-versa.

Esses dois mundos estão historicamente interligados: praticamente todos os tipos de arte – dança, música e canto, bem como expressões visuais, nomeadamente a construção de edifícios sacros – foram provavelmente criados, no amanhecer da história humana, como parte de um culto religioso. (Deve-se aqui recordar que praticamente até ao Iluminismo a «religião» não era simplesmente um segmento da vida da sociedade ao lado dos outros, mas era sobretudo o «ar que todos respiravam».) Inclusive, um dos primeiros filmes foi um registo da encenação da Paixão de Cristo.



Uma arte que não aponta para o mistério, mas que permanece preguiçosa e sem qualidade numa superfície atraente é um mero kitsch. Uma religião que apresenta os símbolos primordiais como sendo realidade, que não é capaz de olhar para os símbolos como um caminho de aprofundamento, é o oposto exato de uma religião autêntica, é fundamentalismo



O que seria a liturgia sem a música, sem o canto, sem a arquitetura de templos – e quão empobrecida seria a história da arte sem tudo o que acompanhava a liturgia e a nossa cultura, sem tudo o que foi inspirado pela Bíblia e por outros textos e histórias sagradas!

A arte e a religião, porém, estão unidas não apenas historicamente, como duas raízes entrelaçadas da cultura humana, mas também pela sua natureza. A pedra essencial de construção da religião e da arte são os símbolos: a arte e a religião tentam por meio da linguagem dos símbolos expressar o inexprimível e reproduzir o irreproduzível. O símbolo tem um carácter paradoxal: revela e, ao mesmo tempo, oculta o mistério a que se refere e para o qual aponta.

Uma arte que não aponta para o mistério, mas que permanece preguiçosa e sem qualidade numa superfície atraente é um mero kitsch. Uma religião que apresenta os símbolos primordiais como sendo realidade, que não é capaz de olhar para os símbolos como um caminho de aprofundamento, é o oposto exato de uma religião autêntica, é fundamentalismo. O fundamentalismo, que é uma abordagem primitivamente literal da linguagem da religião, é um kitsch religioso. Aquilo que o kitsch é para a arte, é o fundamentalismo para a religião.



Estes quarenta dias de recriação espiritual devem-nos curar e libertar, conduzir-nos da superfície à profundidade



É notável que o fundamentalismo e o ateísmo vulgar partilham uma conceção quase idêntica de religião, nomeadamente umas ideias primitivas sobre Deus e a fé. Se um fundamentalista religioso e um fervoroso ateu falarem da forma como imaginam que seja Deus, provavelmente ouviremos uma caricatura da fé, muito semelhante em ambos. A única diferença é que os primeiros defendem essa conceção, enquanto os outros a refutam; no entanto, a porta à profundidade do mistério da fé permanece fechada para ambos.

É preciso, todavia, acrescentar que, além do ateísmo vulgar – o materialismo tosco ou o chamado ateísmo científico, que é um kitsch intelectual semelhante ao fundamentalismo religioso –, existe um outro ateísmo, existencial, trágico, o ateísmo do protesto e da dor. Já há vários anos que reflito e escrevo sobre a necessidade de respeitar este tipo de ateísmo; sobre a necessidade de mostrar que o mundo da fé viva conhece também o mistério da noite amarga da vida, o confronto com o nada e a luta contra a tentação do niilismo e do absurdo; que uma fé madura consegue abraçar estas experiências dolorosas e, assim, integrar este tipo de ateísmo. O que seria a arte sem a sensibilidade à dor – e o que seria a fé sem a experiência da «noite escura da alma», sobre a qual escreveram os grandes místicos, esses poetas do mundo da religião?

A liturgia de hoje toca um dos símbolos da finitude e da fugacidade humana, a saber, as cinzas, o pó da terra. Durante séculos, a imposição das cinzas foi acompanhada pela frase: «Tu és pó e ao pó voltarás» (Génesis 3,19). Essa imagem, tão dramaticamente presente, por exemplo, na arte barroca cristã, seria uma heresia (isto é, uma parte arbitrariamente retirada do todo) se não fosse entendida apenas como uma ponta da paradoxal verdade bíblica sobre o ser humano.



Descer às profundezas significa, geralmente, também tocar o fundo, ser confrontado com o nada, com o rosto noturno e trágico da existência humana, com a temporalidade; significa libertar-se das ilusões



O poema sobre a criação, no início da Bíblia, mostra que o ser humano contém em si tanto o nada como a plenitude: foi tirado do pó da terra e ao mesmo tempo é imagem de Deus. Foi criado do nada, do pó que não mantém forma alguma – e, ao mesmo tempo, pelo poder criativo do Criador, do Espírito. O homem é uma união paradoxal da finitude do seu destino e do seu desejo insaciável de eternidade e plenitude.

No Salmo, lemos que o ser humano volta ao pó pelo pecado (pelo afastamento de Deus); mas pela contrição e conversão reabre-se ao Espírito e é recriado (Salmo 104,29-30). Estamos no limiar do grande jejum, do tempo de penitência e da recriação, literalmente: «re-creação» (re-creatio). Estes quarenta dias de recriação espiritual devem-nos curar e libertar, conduzir-nos da superfície à profundidade.

Aquele que vive na superfície, vive uma vida não autêntica, em distração, diversão superficial e servidão aos «ídolos deste mundo», fazendo da sua vida um kitsch. Aquele que se consegue desprender da superficialidade e descer à profundidade, vive uma vida autêntica, uma «vida na verdade» – vive a sua vida como arte, forma a sua personalidade e sua história como uma obra de arte original. Assim realiza a intenção criadora de Deus; responde ao ato único de Deus pelo qual foi chamado do não-ser para o ser. A penitência, a conversão (metanoia) é imensamente mais do que um mero «aperfeiçoamento moral», por mais que esse seja certamente também desejado.



Quando temos a coragem para a penitência, para a humildade e para a verdade e, em nós, tocamos o pó da nossa finitude, podemos deste modo tocar a mão de Deus que nos levanta do pó da terra e nos recria continuamente



Podemos, sobre isto, deixar-nos inspirar pela filosofia e psicologia do século XX. A distinção de Heidegger que está entre uma vida não autêntica, conformada com o meio – viver como todos vivem –, e uma existência autêntica que proporciona uma nova linguagem à antiga experiência dos místicos e mestres espirituais. Da mesma forma, o conceito de Jung sobre o amadurecimento da vida como descida desde o nosso «ego» até um centro mais profundo, o «eu profundo» (Selbst, Self), dá um novo nome àquilo que São Paulo chama o Cristo que vive em mim (cf. Gálatas 2,19-20) e que os místicos designam por Deus, a «alma da nossa alma».

Descer às profundezas, todavia, significa, geralmente, também tocar o fundo, ser confrontado com o nada, com o rosto noturno e trágico da existência humana, com a temporalidade; significa libertar-se das ilusões. (Mesmo em mitos, contos de fadas e rituais arcaicos, o «caminho em busca do tesouro», do amadurecimento e da maturidade, inclui provas dolorosas.) O orgulho cega e torna ignorante, aprisiona na superfície. A humildade abre os olhos e expõe-se à verdade plena.

Quando temos a coragem para a penitência, para a humildade e para a verdade e, em nós, tocamos o pó da nossa finitude, podemos deste modo tocar a mão de Deus que nos levanta do pó da terra e nos recria continuamente. Ela chama-nos para a beleza e para a arte de uma vida criativa, para um fascínio constante pela beleza da criação e pelo poder do Criador. A Ele toda a honra e a glória para sempre!


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 17.02.2021

 

 

 
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