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O sínodo da transfiguração

Há coisas que a uma leitura atenta do Evangelho não deviam escapar-nos. Uma delas diz respeito à original opção de Jesus de envolver o grupo dos “seus” amigos, Pedro, Tiago e João, em algumas experiências fundamentais da sua vida pública: a transfiguração, a ressurreição da filha de Jairo e a oração do Getsémani.

Em cada um destes episódios o Evangelho anota que «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João». Podemos dizer que estas narrativas evangélicas são três acontecimentos sinodais, três experiências que Jesus deliberadamente quer que sejam vividos em dinâmica relacional.

A reflexão eclesial soube ler ao longo dos séculos a íntima relação teológica que existe entre estes três eventos. Em particular intuiu que a hora da luz do Tabor [transfiguração, Mateus 17, 1-8; Marcos 9, 2-8; Lucas 9, 28-36] está lá para contrapor-se à hora da escuridão do Getsémani e do Calvário. Com efeito, é a memória desta luz que faz atravessar aos discípulos as trevas da paixão e da memória de Cristo.

Esta memória seria uma espécie de último posto avançado que refreará os discípulos de levar a cabo aquilo que pelo contrário Judas acabará por fazer ao ceder ao desespero e ao sentimento de culpa, tirando-se a vida.

Além disso, há que dizer que a luz da transfiguração teria sido não mais que uma evanescência na vida dos discípulos se não lhes tivesse acontecido a tragédia da paixão. De facto é a memória da luz do Tabor que rege o contragolpe da densa obscuridade da Cruz.

Mas quer a luz quer a obscuridade só se constituem experiências significativas se forem vividas em conjunto. Num mundo como o nosso, caracterizado por um imperante individualismo, Jesus, através do testemunho do Evangelho, parece indicar-nos a necessidade de restabelecer relações onde a luz e a obscuridade possam ser vividas de maneira relevante.

A conversão sinodal a que o papa Francisco está a chamar toda a Igreja não diz respeito simplesmente a um repensamento da gestão eclesial, mas centra-se na convicção de que sem a Igreja, ou seja, sem a comunhão, sem o misterioso entrelaçamento relacional que torna a própria Igreja sacramento universal da salvação, não pode dar-se para nenhum de nós a possibilidade de viver acontecimentos que possam marcar radicalmente o destino da nossa vida. A alegria e a dor só conservarão um potencial de salvação e reterão uma peculiaridade humana se forem vividas de maneira sinodal.

Por último, a boa notícia do “sínodo da transfiguração” está no facto de que as questões registadas, ainda que fora de contexto («Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas, uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias»), não impedem Deus de falar, restabelecendo a verdade das coisas («Este é o meu Filho, o eleito; escutai-o») e conduzindo a Igreja à única coisa a que deve sempre aspirar: o primado de Cristo. «Logo que a voz cessou, apenas ficou Jesus».


 

Luigi Maria Epicoco
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 08.09.2022

 

 
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