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O restaurador de almas

«Gostas de restaurar os objetos estragados, não é?» A pergunta do Paulo apanhou-me de surpresa, mas tudo somado era uma observação razoável. Estava a limpar uma placa de vidro policromado para voltar a colocar na capela da Delegação Apostólica de Jerusalém, evidentemente com um sorriso de satisfação e felicidade que suscitou a curiosidade do chefe do estaleiro. Com efeito, podia parecer bizarro que um sacerdote, colaborador local do delegado apostólico, em vez de realizar o seu habitual trabalho de arquivo, dedicasse tempo a uma atividade manual daquele género.

O núncio tinha considerado que eram inadiáveis alguns trabalhos na casa (decididamente modesta para ser sede de uma nunciatura, e essas pequenas obras eram mesmo necessárias…), e assim de um sótão empoeirado tinha surgido uma caixa repleta de material arqueológico em péssimas condições. Nada de extraordinário, mas objetos de valor moderado, como é fácil encontrar na Terra Santa: louça e outras cerâmicas reduzidas a fragmentos, três tigelas em mau estado, algumas lanternas, um par de estatuetas, um pouco de tessela de mosaico… Sua excelência tinha-me requerido para voltar a arrumar aqueles achados, como já tinha feito para o material do arquivo histórico da sede, e eu acolhi o pedido com entusiasmo.

A arqueologia é uma paixão desde sempre, ainda que nunca tenha tido maneira de a aprofundar como devia. Além disso, sou naturalmente dotado para os trabalhos manuais – em jovem gostava de modelismo e trabalhava na oficina de um carpinteiro –, que me agradam não menos que os intelectuais. Assim comecei a dedicar todos os dias algumas horas a voltar a juntar aqueles fragmentos, restaurando um após outro todos os achados.



Só se restaura aquilo que é precioso. Para restaurar é preciso tempo, e tempo é dinheiro. Mas se se trata de um objeto precioso, não se pode estragar, e encontra-se o tempo para o ajustar. Pois bem: cada alma é infinitamente preciosa



Paulo é um cristão, e o chefe das obras da casa. Quando comecei a reparar os vasos, reduzidos a estilhaços de barro, pedi-lhe um pouco de gesso, que queria misturar com pó de terracota para unir os fragmentos e colar as peças… Assim ele tinha acompanhado a lenta reconstrução dos vários objetos. Quando, terminado todo o trabalho, me viu aflito com aquela vidraça suja e em más condições, a frase deve ter-lhe saído espontaneamente: «Gostas de fazer de restaurador, hein?». «De facto, sim!», respondi de imediato. E depois acrescentei instintivamente, surpreendido pelas minhas próprias palavras mais do que pela sua legítima observação: «Sim… porque é muito semelhante à direção espiritual!».

Não sei dizer de onde me saíram aquelas palavras. E enquanto com os meus rudimentares instrumentos me esforçava por restituir aquela vidraça ao seu esplendor nativo, comecei a cantarolar, como muitas vezes me acontece quando estou serenamente concentrado, e a refletir sobre aquela comparação temerária. E dei-me conta que é mesmo assim. São verdadeiramente muitas as analogias entre restaurar um objeto antigo e acompanhar espiritualmente uma pessoa. O que fiz àqueles vasos de terracota reduzidos a cacos não era muito diferente de quanto me esforço por fazer quando escuto alguém que vem partilhar comigo o seu caminho espiritual. E quanto mais pensava, mais me era evidente que a alegria experimentada ao ver reconstruido um vaso em escombros não era muito diferente daquela que se experimenta ao ver reflorescer uma alma esfarelada. Sim, esta comparação tornava-se iluminadora também para mim. Para realizar melhor o mistério da cura das almas.

Só se restaura aquilo que é precioso. Para restaurar é preciso tempo, e tempo é dinheiro. Mas se se trata de um objeto precioso, não se pode estragar, e encontra-se o tempo para o ajustar. Pois bem: cada alma é infinitamente preciosa. Mesmo a mais incerta, confusa, dispersa, pecadora. «Porque – diz Deus – tu és precioso aos meus olhos, porque és digno de estima e Eu amo-te...» (Isaías 43, 4). E tem de encontrar-se tampo para a reparar.



O bom guia espiritual não tem a pretensão de orientar as pessoas a partir dos seus gostos, ou determinar o caminho com base em predileções subjetivas. Não é dono da vida dos outros, mas está ao seu serviço. Não impõe nada, e muitas vezes nem sequer propõe. Simplesmente ajuda cada pessoa a tirar para fora a verdade de si própria, melhor, a fazê-la tornar-se ela própria



Só se restaura aquilo que é único e não pode ser substituído. Uma coisa velha pode lançar-se para o lixo e trocar por outra: na atual economia da obsolescência programada, isto é mais verdade que nunca. O restaurador, ao contrário, aplica-se a fazer reviver precisamente aquele objeto: porque é único, e não pode ser substituído por nenhum outro. Se quisesse, podia facilmente plasmar um novo vaso semelhante àquele em estilhaços, e talvez fosse menos cansativo. A sua tarefa, todavia, não é substituir o pedaço estragado, mas salvá-lo, mesmo que esteja em muito mau estado. Guardar e proteger o seu ser irrepetível. Da mesma maneira, cada pessoa é única e irrepetível: deve ser respeitada na sua individualidade, e reconhecida por aquilo que é. O pai espiritual, por isso, não deve homologar, e muito menos manipular: antes, está ao serviço de cada um, respeitando-lhe as características próprias, porque a cada um Deus dá «um nome novo, que ninguém conhece fora de quem o recebe» (Apocalipse 2, 17).

Restaura-se aquilo que tem uma história, aquilo que é consumido pelo tempo e que é marcado pelo passado. Muitas vezes no acompanhamento espiritual encontramo-nos diante de pessoas feridas pelos acontecimentos, transformadas por eventos mais ou menos dolorosos, curvadas pelo peso da vida. É belíssimo concretizar o ministério de acompanhamento dos jovens e ajudá-los a desabrochar para a vida. Mas muitas vezes acontece acompanhar quem já tem os pés cansados, as rugas no rosto e cicatrizes espalhadas. Assim como o restaurador deve reconhecer e respeitar os sinais do tempo nos objetos, assim o guia espiritual deve respeitar os sinais do tempo nas pessoas. No acompanhamento deve acolher as biografias individuais, entesourar as experiências vividas e transformá-las em traços da obra de Deus. Mesmo quando se trata de cicatrizes, como o coxear de Jacob após a luta com o anjo em Penuel (cf. Génesis 32, 23-33).

Por isso, diferentemente do génio criativo requerido ao artesão que constrói do início, ao restaurador é pedido um profundo respeito pelo que já existe. Ele não trabalha com material bruto que projeta ou modela segundo o seu capricho. Deve, pelo contrário, reconhecer a curvatura natural das peças que tem diante de si e restitui-las à sua verdade originária. Assim faz o bom guia espiritual: não tem a pretensão de orientar as pessoas a partir dos seus gostos, ou determinar o caminho com base em predileções subjetivas. Não é dono da vida dos outros, mas está ao seu serviço. Não impõe nada, e muitas vezes nem sequer propõe. Simplesmente ajuda cada pessoa a tirar para fora a verdade de si própria, melhor, a fazê-la tornar-se ela própria. Porque a graça não elimina a natureza, mas leva-a ao cumprimento, e o caminho de uma vocação não se constrói sobre uma secretária, mas é resposta ao projeto dAquele que «nos escolheu antes da criação do mundo» (Efésios 1, 4).



O restaurador começa a tarefa com a inabalável confiança de poder voltar a juntar inclusive os pedaços mais estragados e que aparentemente já não servem. Onde outros objetam com ceticismo – “mas que pensas que consegues fazer?” - ele arrisca e põe-se a reconstruir. Porque tem a experiência de muitos pequenos milagres



Para restaurar um objeto antigo é pedida uma atenção completa e minuciosa. Deve dedicar-se totalmente àquilo que está a fazer, plenamente concentrado, tendo o cuidado de recolher todos os fragmentos dispersos, por muito insignificantes que possam parecer. Como na escuta espiritual: não é permitida qualquer distração. Deve-se estar presente a si próprio, e ainda mais a quem está a abrir o seu coração. Numa conversa espiritual, cada um deve sentir-se a única preocupação no mundo de quem o está a escutar. «A pessoa mais importante, para mim, é aquela com quem estou a falar», disse uma vez Santa Teresa de Calcutá. E nem sequer uma migalha de quanto está a ser comunicado deve cair. Como o jovem Samuel, que «não deixou perder uma só das letras» a ele dirigidas pelo Senhor (cf. 1 Samuel 3, 19).

Aquilo que se restaura é muitas vezes frágil e deve ser tratado com a máxima delicadeza. Cada fragmento é recuperado, e depois desempoeirado, limpo, esfregado… mas sempre com muita gentileza e profundo respeito. Quero dizer que é preciso “trato”: não raro é precisamente a sensibilidade da ponta dos dedos que te faz compreender como se deve tratar um fragmento e como voltar a colocá-lo sem o danificar. Outras vezes, pelo contrário, tens de colocar as luvas, ou servir-te de pinças: se tocas desajeitadamente, ou com as mãos sujas, arriscas-te a estragar tudo e a fazer um estrago maior que antes. E o que há de mais delicado numa alma? Não se pode tratá-la como um elefante numa loja de cristais: entra-se batendo à porta, em pontas dos pés e tirando os sapatos, «porque o lugar em que estás é lugar santo» (Êxodo 3, 5).

O restaurador começa a tarefa com a inabalável confiança de poder voltar a juntar inclusive os pedaços mais estragados e que aparentemente já não servem. Onde outros objetam com ceticismo – “mas que pensas que consegues fazer?” - ele arrisca e põe-se a reconstruir. Porque tem a experiência de muitos pequenos milagres: viu muitas vezes fragmentos considerados sem futuro que voltavam a tomar forma e tornavam-se objeto de espanto e admiração. Exatamente como o pai espiritual: sabe por experiência que «nada é impossível a Deus» (Lucas 1, 37). Muitas vezes viu com os seus olhos «o que está destruído reconstrói-se, o que está envelhecido renova-se, e tudo regressa à sua integridade» (oração coleta após a sétima leitura da Vigília Pascal).



Por fim, e sobretudo: para meter mão a um restauro é preciso antecipar com a mente e com o coração a integridade originária e perdida. É preciso intuir com os olhos da fantasia o projeto criador do artífice. É preciso imaginar o que devia ter sido aquilo que agora surge apenas como um cúmulo de ruínas



O trabalho de restauro exige uma infinita paciência. Não se podem forçar as coisas: é preciso ver as peças uma por uma, estudar como são feitas, e descobrir lentamente de que maneira uma fratura pode tornar-se uma sutura. É preciso calma para descobrir os encastres certos. A brutalidade é inútil, aliás, contraproducente. Por vezes passa muito tempo e não se encontra nenhuma combinação: as coisas não avançam, e surge a dúvida de que, dessa vez, não há nada a fazer… Mas depois: clic! Inesperadamente um pedaço combina com o outro, e depois outro com aqueles dois, e rapidamente muitas peças compõem-se quase magicamente. Tinha-las à frente do nariz, mas não conseguias vê-las da maneira certa. Depois desencadeia-se um não-sei-quê, e tudo se transforma. Sucede também ao pai espiritual: pode acontecer ter a impressão que andas às voltas, que não encontra o fio à meada, que não consegue dizer as palavras certas para libertar uma alma embaraçada na sua peia. Depois, inesperadamente, brilha o raio da Luz divina, a cena ilumina-se, e em pouco tempo dão-se passos de gigante. Mas esse instante de graça é sempre o fruto de um caminho lento e constante. O acompanhamento espiritual – diferentemente da Confissão, que é perdão imediato e incondicional – supõe um itinerário, um percurso regular e uma progressividade de desenvolvimento. Este é o estilo de Deus, que sabiamente e gradualmente leva a cumprimento os seus «projetos maravilhosos, concebidos desde há muito tempo, fiéis e estáveis» (Isaías 25, 1).

Em algumas circunstâncias, o restaurador deve usar também uma certa energia e exercer uma moderada pressão para recolocar todos os fragmentos. Grande parte do trabalho, com efeito, consiste em juntar peças individuais, e isto acontece sempre com a delicadeza já mencionada. As uniões que progressivamente se efetuam, contudo, têm muitas vezes algo de imperfeito. Por isso, quando chega o momento de fazer encaixar um bloco de peças já unidas com outro bloco, é preciso não só muita prudência, mas também uma certa força. Os pontos de contacto entre as duas metades são muitos, e sem um pouco de energia e de audácia não se consegue ajustar o todo. Porém, quando finalmente se consegue o encastre, é uma grandíssima satisfação. Isto recorda-me as circunstâncias em que o diretor espiritual compreende que é o momento de pressionar um pouco o acelerador e promover um progresso importante numa alma. Nunca precisa de exagerar, nem perder a doçura, de outra forma arrisca-se a desfazer tudo; mas é necessária também uma certa determinação. No fim, todavia, quando o encastre foi finalmente realizado e o conjunto encontra um novo equilíbrio e uma nova solidez, a alegria é profundíssima. Conservando a humilde consciência de que o autor daquele projeto é o Pai, Cristo é a sua forma, e o Espírito aquele que o plasmou. Tu não “constróis” nada segundo um projeto teu, mas somente ajudaste a reencontrar a forma querida pelo Criador. Porque «nem quem planta nem quem rega vale alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer» (1 Coríntios 3, 7).



Cada coisa e cada pessoa têm fendas interiores; mas a Luz entre precisamente por elas. O pai espiritual é testemunha deste surpreendente espetáculo. A metáfora do restauro, apesar de todas estas analogias, tem, no entanto, um calcanhar de Aquiles. O ser humano novo não é o ser humano velho restaurado: é «uma criatura nova», melhor, «nova criação»



Por fim, e sobretudo: para meter mão a um restauro é preciso antecipar com a mente e com o coração a integridade originária e perdida. É preciso intuir com os olhos da fantasia o projeto criador do artífice. É preciso imaginar o que devia ter sido aquilo que agora surge apenas como um cúmulo de ruínas. O restaurador vê o invisível: intui qual pode ser a forma gloriosa daquilo que tem entre as mãos, apesar de essa forma estar clamorosamente desmentida pela realidade do esfarelamento que está à sua frente. Precisamente como um bom pai espiritual: não vê diante de si o pecador que se dispersou, mas o filho por Deus amado. Quando acolhe uma pessoa alquebrada, destruída pelas provações da vida, gasta e privada de todo o esplendor… mesmo aí já entrevê a obra do Espírito, o potencial de vida nova, a aurora da renovação. Escavando no coração daquela pessoa reconhece Deus que silenciosamente está a agir, e intui a imagem divina que aquela pessoa, mesmo sem dar-se conta, oculta em si, Porque todos «somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito» (2 Coríntios 3, 18).

A sabedoria do Oriente acompanha bem a espiritualidade cristã. No Japão é praticado o “kintsugi”, isto é, a arte de restaurar com ouro as porcelanas quebradas. As linhas de fratura, recompostas, sãpo assim evidenciadas e ao mesmo tempo enobrecidas. Nada se parte definitivamente. Tudo pode ser reposto em ordem. As feridas, tornadas cicatrizes, embelezam o conjunto, caracterizam-no e tornam-no ainda mais especial. Como cantava Leonar Cohen, «there is a crack, a crack in everything/ that’s how the light gets in». Cada coisa e cada pessoa têm fendas interiores; mas a Luz entre precisamente por elas. O pai espiritual é testemunha deste surpreendente espetáculo. A metáfora do restauro, apesar de todas estas analogias, tem, no entanto, um calcanhar de Aquiles. O ser humano novo não é o ser humano velho restaurado: é «uma criatura nova», melhor, «nova criação» (2 Coríntios 5, 17). É o ser humano «criado por Deus na justiça e na verdadeira santidade» (Efésios 4, 24), fruto da ação do Espírito Santo que nos plasma à imagem do Filho e nos regenera para a verdadeira Vida. É preciso «nascer de novo/ do alto» (cf. João 3, 3ss.), e isto só a graça de Deus pode realizar. «Aquele que nasceu da carne é carne...» (João 3, 6), e nenhum esforço humano poderá alguma vez gerar a vida sobrenatural. Ao ser humano, porém, cabe o serviço preliminar da escuta acolhedora e do cuidado amoroso do irmão, que se assemelham muito a um trabalho de restauro, e que predispõem para o acolhimento da graça. Muitas vezes é somente um ministério da consolação, necessário, todavia, para preparar o terreno para a descida de um outro Consolador.

Utilizando a imagem do profeta Ezequiel, gostaria de dizer que é o serviço de juntar os ossos ressequidos uns aos outros», invocando o Espírito para que venham, «dos quatro ventos, sopre sobre esses mortos, para que eles recuperem a vida» (cf. Ezequiel 37, 7-10). Este percurso não se identifica “tout court” com um simples itinerário de amadurecimento humano, nem substitui o trabalho terapêutico, preciosíssimo e por vezes necessário para tratar feridas interiores profundas. E todavia o restauro das almas – o acompanhamento espiritual – é um maravilhoso sinal do Reino de Deus, porque «o Senhor está próximo a quem tem o coração contrito, e salva os espíritos abatidos» (Salmo 34, 19). Sim, graças à observação de Paulo compreendo melhor porque gosto tanto de restaurar os objetos estragados: porque me recorda a alegria de “restaurar as almas”. Um dos dons mais extraordinários que Deus pode dar a uma sua criatura.


 

P. Filippo Morlacchi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Xolodan/Bigstock.com
Publicado em 24.02.2021

 

 
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