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O pistoleiro e o Deus possível

O som da água corrente, sussurrante; o chilrear dos pássaros no bosque impenetrável com variadas tonalidades de verde; uma frágil flor azul; um malmequer mutilado; uma abelha a esvoaçar de flor em flor. Um rebanho sereno a convidar ao ócio. O silêncio harmónico de um coração inquieto. Espetros que se me colam à pele. De entre todas as memórias que desfilam – narrativas que se acotovelam desconjuntadas, encontros que se atropelam em busca de protagonismo – é aquela do pistoleiro buscador que se expõe com toda a sua crua legitimidade. Porquê? Talvez pela necessidade de distinguir entre crime e criminoso.



Imagem © Adelino Ascenso

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Podemos andar tão distraídos e dispersos, conduzindo uma vida tão retalhada e lânguida, que não entramos em nós mesmos e não mergulhamos na fundura do nosso ser: não silenciamos e não bebemos o sumo que se oculta nos eventos triviais do quotidiano. Não olhamos para o que está para lá das histórias, não lemos nas entrelinhas e não escutamos o que o silêncio no intervalo das palavras do interlocutor nos diz. Assim, desatendemos a força inspiradora inerente à escuta da história do outro, uma escuta que incita sempre à ação e enriquece a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.



Imagem © Adelino Ascenso

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Na minha longa viagem pela América do Sul, estive alguns meses na exploração do ouro, juntamente com os garimpeiros, naquele antro de vício e morte. E é aqui que sobe ao palco o «pistoleiro buscador», o tal homem que eu acompanhei pelo interior da selva durante cerca de dez dias. Era conhecido por «Cabeça»: embora tenhamos convivido cerca de dois meses, nunca soube o seu verdadeiro nome. À noite, sentávamo-nos nas nossas redes, em redor da fogueira, e escutávamos a história, a narrativa de cada um. A escuta da história da vida deste pistoleiro levou-me a concluir que ele era um ser em busca desesperada de Deus: buscava um Deus possível que o libertasse daquela vida sem sentido de matar e ser morto. Atrás dele, a morte espreitava desdenhosamente, expondo, na poeira do caminho, um corpo isento de sepultura. Encontro marcante que me ajudou a nunca confundir crime com criminoso: condenar sempre o crime mas ajudar sempre o criminoso a sair do fosso em que está atolado.



Imagem © Adelino Ascenso

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Travei conhecimento com «Cabeça» no restaurante do único hotel da aldeia de garimpeiros onde eu tinha chegado no dia anterior. «Ó Português, isto é uma região muito perigosa. Andas armado, não é verdade?», perguntou ele, depois de ter entendido, pela minha pronúncia, que eu era de longe. «Nem pensar! Eu detesto armas, pois armas atraem armas!», respondi, não sabendo que estava a falar com um homem que fazia da arma a sua enxada. Ao saber que ele estava a regressar da selva e que daí a uma semana partiria, novamente, para mais um serviço, perguntei-lhe se poderia acompanhá-lo. Ele ficou espantado com a ingenuidade da minha pergunta direta, respondendo que mais tarde se veria. Sugeriu que, a partir daquele dia, eu tomasse as refeições em sua casa, juntamente com a sua família, de modo a que nos fôssemos conhecendo e pudéssemos tomar uma decisão, uma vez que ninguém arrisca ir para a selva com um desconhecido. Assim fiz e daí a uma semana embrenhámo-nos no mato, cada um com a sua catana com a qual abríamos caminho. Quando regressámos, sãos e salvos, depois de dez dias intensos e perigosos, a sua esposa confidenciou-me que o marido, pela primeira vez, tinha ido para a selva sem levar as armas e que o tinha feito em consideração para comigo, uma vez que eu lhe dissera que detestava armas. Penso que foi a minha fragilidade e a minha confiança incondicional que desencadeou dentro dele um género de «conversão».



Imagem © Adelino Ascenso

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Sento-me sobre o tronco de um pinheiro caído, ao lado de um imponente sobreiro, e vejo diante de mim aquelas imagens que vão plasmando o meu ser, mais vivas e reais do que a água corrente que escuto, do que o novelo de nuvens brancas de rumo incerto. «Vejo» com outros olhos e com intensidade renovada. Parece-me que «vejo» o interior das coisas… Eu próprio sou um corpo amorfo, a desfazer-se no oceano do desconhecido. Desdobra-se, diante de mim, uma senda longa, deslumbrante, irresistível. Olho em redor: estou novamente no meu gabinete, alimentado por aquele odor a selva e montanha, deserto e mar, muito mar. O pistoleiro buscador morreu tal como ele próprio predissera: «quem com ferros mata, com ferros morre». Um pistoleiro que estava disposto a defender-me até às últimas consequências, num dia brumoso em que surgiram suspeitas sobre quem seria o estrangeiro colecionador de histórias que chegara àquela aldeia de pesadelo e cujos aldeões lhe confiavam as suas aventuras e desventuras. «Cabeça» era um buscador do Deus possível que o libertasse da tirania do destino, esbarrando com as paredes quase intransponíveis do passado que o plasmara. Insistia, sim, tal como mosca a embater teimosamente contra a vidraça. Meu Deus, quão valiosa foi para mim a sua lição!



Imagem © Adelino Ascenso

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Adelino Ascenso (texto e imagens)
Superior-geral da Sociedade Missionária da Boa Nova
Publicado em 02.05.2019

 

 
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