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Rua da Saudade

O Paraíso de Dante

No princípio de 2019, a Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo – Dante Alighieri convidou-me para falar sobre a visão do Paraíso de Dante na noite de 3 de maio, na Igreja dos Clérigos, no Porto.

Confesso que só alguma imprudência me fez aceitar esse convite… Nem sequer percebi, então, se teria de falar sobre a visão de Dante do Paraíso ou sobre a minha visão do Paraíso de Dante.

Tinha lido a Divina Comédia em meados da década de 90. Recordava – com a acuidade das imagens mais nítidas – o Inferno, menos o Purgatório… e do Paraíso tinha guardadas apenas algumas – poucas – memórias embaçadas. Creio até – passados mais de vinte anos – que me aborreceu o Paraíso de Dante, ao contrário do Inferno, que li com entusiasmo. Podia isto resultar, ao seu modo, numa curiosa indução: é vibrante o fascínio que nos provoca o inferno; e o paraíso [por mais que o desejemos, em abstrato, no fim da vida] tende a ser entediante.

Fosse para falar sobre a visão de Dante do Paraíso, fosse para falar sobre a minha visão do Paraíso de Dante, teria de reler a Divina Comédia. Como o quotidiano quase não o permite, levei o livro para Paris e Roma [em janeiro], para Salamanca [em fevereiro] e novamente para Paris e Roma [em março], aproveitando as viagens e os intervalos dos compromissos académicos. Sabendo que teria de ir a Cracóvia, no princípio de abril, resolvi conhecer Florença, onde passei três dias disfarçado de turista, com o meu moleskine a urdir secretas intimidades com o volume da Divina Comédia.

Não sabia ainda o que diria na noite de 3 de maio, na Igreja dos Clérigos. Seria interessante explicar a subida de Dante aos céus do Paraíso, essa espécie de teodiceia… deriva de viagem, escada de Jacob, escrito moralizante, alegoria que convoca um modelo cosmológico de estáveis esferas cujo recorte nos pacifica os olhos, pela arrumação criteriosa da realidade. Poderia explicar o Céu da Lua ou o Céu de Saturno, os graus de beatitude e as dúvidas de Dante. Falaria sobre a avareza de uns e sobre a sabedoria dos outros, sobre o Céu de Vénus ou sobre o Céu de Marte, sobre a visão da Cruz e sobre o elogio dessa Florença de que Dante sentia saudades. Poderia escolher, para melhor explicar as suas motivações, algumas das personagens que o poeta convoca. Ou então refletiria sobre a missão do poeta e sobre a doutrina da salvação.

O que diria sobre o primeiro móbile e sobre o empíreo? Sobre o ponto luminoso e sobre os nove círculos de fogo? Sobre o rio de luz e sobre a rosa celeste? Poderia falar sobre a oração de S. Bernardo, sobre a visão de Deus e a unidade do Universo, ou sobre os mistérios da Trindade e da Encarnação. Ou então perder-me-ia diante da beleza de Beatriz… e assim passariam os dez minutos que me destinaram. Pensei: direi que Beatriz – aí pelo capítulo XXX – ficou ainda mais bela. Mais direi, sem ceder à tentação de um discurso de feição edificante, que a proximidade de Deus redobra a beleza humana. E serei mais barroco do que a Igreja dos Clérigos quando disser – por certo com algum exagero, mas embrandecendo o coração de quem me escutar – que o meu desejo de ter uma filha que se chamasse Beatriz vem da beleza que entrevi, pelas palavras de Dante, no rosto iluminado da sua Beatriz.

Eu não tenho um temperamento místico, mas sou um contemplativo. Fiquei quase meia hora por baixo da cúpula de Brunelleschi, olhando atentamente para as pinturas [não me recordo se de Vasari ou de Zuccari]. Ocorreu-me aí a diferença, tão significativa, entre «ver» e «ter visões». Creio que o Paraíso de Dante não é da ordem do «ver», mas da ordem do «ter visões». Como explicá-lo? Uma coisa é dizermos o que vemos, outra é dizermos as visões que temos. Creio que Dante não escreve sobre o que vê, mas sobre as visões que tem.

Depois da Duomo, visitei a Basilica di Santa Croce. Antes de entrar, detive-me diante da estátua de Dante. É quase hierática a sua figura, como que resgatada de um tempo em que a indigência não erodia nem os poetas, nem a poesia. «Para quê poetas em tempos de indigência?», perguntava Hölderlin. Foi, depois, Antero de Quental quem vaticinou, no final do século XIX, que ao «som augusto da lira de Orfeu já se não erguerão cidades nem civilizarão povos. Essas cordas solenes e soberanas terão emudecido para sempre». Antes deste augúrio, suspirara pelo tempo em que «a Senhoria de Florença fazia explicar publicamente, na Igreja de Santa Maria, a Divina Comédia, como um quinto Evangelho, e encarregava esse ofício a Boccaccio, o maior erudito da época». No tempo de indigência ainda é possível «ver»; a indigência, a verdadeira indigência, é já não «ter visões».



Imagem D.R.


Em Florença, fechei os olhos e consegui entrever, ver vagamente; mas não consegui ter a visão do Paraíso de Dante. O Paraíso é mais difícil de ver do que o Inferno. Do Inferno, ocasionalmente, eu ainda tenho visões [temo, assim, pela saúde ótica do meu imaginário].

Dante concebeu – por dentro do seu poema – um sistema que tem, subjacente, uma eclesiologia e que bem poderia ser organizado num tratado de soteriologia. Nele [na tecedura desse sistema] autolegitimou, em parte, a sua biografia, o seu exílio, as vicissitudes com que se viu confrontado nos últimos anos de vida. Exorcizou – enquanto subia – a indigência do seu tempo, eventualmente sem perceber que não era ainda a indigência dos poetas. Dante não viu o Paraíso; teve dele uma visão: uma visão magnífica. Os céus do seu Céu não são apenas a visão que teve, mas – mais profundamente – a visão que podia ter, apesar da acuidade dos olhos do seu imaginário.

Mas, em Florença, só me ocorreu a beleza de Beatriz: uma beleza diante da qual ainda se erguiam cidades e se civilizavam povos.

Tendo entrado na Basilica di Santa Croce, detive-me um pouco diante do cenotáfio de Dante. Um turista espanhol pediu-me que lhe tirasse uma fotografia diante da sepultura do poeta. Expliquei-lhe [talvez movido por uma qualquer síndrome de professor] que se trata de um cenotáfio e que Dante se encontra sepultado em Ravena. Pela sua expressão, senti que ficou desiludido e que teria preferido não saber. Perguntou-me se os túmulos de Galileu e de Michelangelo eram verdadeiros; disse-lhe que sim e ele devolveu-me uma expressão de alívio… afinal, quem pagaria oito euros para ver cenotáfios? Eu! Eu pagaria! Os cenotáfios comovem-me: são uma espécie de simulacro de um sepulcro vazio.

Teria apenas dez minutos na Igreja dos Clérigos e sabia que dez minutos é o tempo ideal para dizer duas ou três inanidades sobre o Paraíso de Dante. Tinha passado horas e horas a reler a Divina Comédia e corria o risco de dizer duas ou três inanidades em dez minutos.

Tendo saído da Basilica di Santa Croce, percebi que tinha de subir, de subir como Dante. Na impossibilidade de subir às esferas celestes do seu Paraíso, contentei-me com a subida, do outro lado do rio, pela Via del Monti alle Croci, até à Basilica di San Miniato al Monte, um lugar onde talvez tivesse sido monge numa outra vida, numa dessas outras vidas que todos temos se, desapaixonadamente, reconhecemos as limitações da única vida que temos.

Aí, o silêncio e a luz rasante atenuaram uma certa frustração por apenas ver a visão que ele teve e não a ter [como um enigma que se resolvesse diante dos meus olhos].

Por cima do altar, na plataforma que ali medeia o espaço entre a assembleia e a abside, ao fundo, há uma espécie de instalação contemporânea com uma escada de mão erguida. Os banzos da escada não parecem paralelos; ou seja: aparentemente, os banzos estão mais juntos em baixo e mais separados em cima, alargando os degraus do topo; uma perspetiva invertida para quem olha de baixo… não sei bem, a distorção de baixo para cima pode ser um convite a subir; porém a correção da perspetiva, de cima para baixo, pode significar que a instalação foi feita para Deus descer ou para explicar aos homens que – tal como nós somos de cair e não sabemos subir – ele tem de descer… para nos levantar e ajudar a subir.



Imagem D.R.


No dia seguinte, parti para Bolonha, de onde voei para Cracóvia.  

Foi na manhã fria do domingo 7 de abril que transpus os portões de Auschwitz-Birkenau. Sobre isso, neste momento, não há nada que possa escrever sem ferir o que em mim guarda ainda uma centelha de esperança num Paraíso qualquer. Vi o que pude e tive [creio] uma ou outra visão. Apercebi-me que fiz o caminho de Dante ao contrário: fui das visões do Paraíso para uma das muitas ruínas do Inferno… porque – como todos sabemos – o Inferno nunca habita muito tempo a mesma casa.


 

José Rui Teixeira
Investigador, poeta
Imagem de topo: Gabriel Pacheco | D.R.
Publicado em 22.07.2020

 

 

 
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