Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

O «meu querido amigo»: Rabino celebra oitavo ano de pontificado de Francisco

A 13 de março ocorre o oitavo aniversário da eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio para 266. papa da Igreja católica. Desde então percorreu um caminho longo e tortuoso, constelado por muitos desafios.

Ainda que desde 2013 tenha exprimido os meus pontos de vista sobre o pensamento e as ações do papa Francisco, o que hoje me enche o coração e a mente são apenas recordações. Penso em Buenos Aires, Roma, Jerusalém, Auschwitz, Cairo e Abu Dhabi. Recordo os muitos diálogos que tivemos: as palavras, os silêncios e especialmente os momentos em que pudemos olhar-nos um ao outro e sentir o calor da espiritualidade das nossas almas. São estes os meus sentimentos quando olho para os anos passados.

O carisma e a credibilidade de um líder autêntico, de um líder servidor, residem na sinceridade e na honestidade da pessoa. A capacidade das suas palavras superarem a prova do tempo depende da integridade e da veracidade daquilo que diz. Quando conheci Jorge Bergoglio na nossa cidade-natal Buenos Aires, fiquei edificado pela humildade, pela simplicidade e pela franqueza da sua pessoa e do seu ministério. Recordo os nossos encontros pessoais. Partilhámos alegrias, esperanças, tristezas, sofrimentos e sentimentos profundos. Os sábios judeus ensinam que é precisamente nesta amizade autêntica que o coração de abre completamente ao outro. Parece-me que essas mesmas virtudes continuam a estar refletidas nas suas palavras e ações no importante papel que agora o reveste.

A nossa primeira conversa após a sua eleição como papa foi na vigília da cerimónia de início do seu pontificado. Quase a desculpar-se, exprimiu desagrado por não poder continuar a partilhar aqueles momentos de profunda reflexão e de elaboração de programas que habitualmente fazíamos juntos. Graças a Deus a nossa amizade continuou à distância.



Também a imagem de Abraão que obedece ao mandamento do Senhor «vai» é para ele uma fonte de inspiração. É interessante que a ordem que Deus dá a Abraão em Génesis 17,1, «anda na minha frente e sê íntegro», nas traduções aramaicas clássicas aparece como: «Serve-me». O percurso de vida de uma pessoa deve manifestar aquele género de fé que serve o Criador e toda a criação



Quando nos encontrámos pela primeira vez na Casa de Santa Marta depois de nela ter estabelecido a sua residência, permitiu a um famoso jornalista israelita [Henrique Cymerman] registar uma mensagem de paz para todos os habitantes do Médio Oriente, que teve um pacto positivo quando foi transmitido. Depois disso, quando nos podemos encontrar pessoalmente, continuamos a procurar fazer algo para afirmar os valores universais proclamados pelos profetas. As exigências de justiça – como as exprimidas por Isaías, Amós e outros – para ao carenciados, as viúvas e os órfãos indefesos, e pela paz entre os povos fazem sempre nas nossas conversas.

Quando o colégio dos cardeais, há oito anos, elegeu papa o meu amigo, ele escolheu chamar-se Francisco, como a importante figura que alcança aquilo que Martin Buber definiria relação “eu e tu” com a natureza e com todas as pessoas. Foi esta a essência espiritual que inspirou Bergoglio no seu sacerdócio. Agora exprimiu-a profundamente na sua recente encíclica “Fratelli tutti”. A conceção “eu-tu” da fé deveria ser entendida como um estado de proximidade ao Senhor que exige, pela sua própria natureza, que durante toda a vida se sirvam os outros seres humanos.

Recordo também que muitas vezes nos nossos diálogos usava o verbo «caminhar». Usava-o no sentido de uma busca de crescimento espiritual e de compromisso para com o outro, como quando descreveu a reaproximação entre católicos e judeus após a “Nostra aetate” [documento do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja católica com as religiões não-cristãs] como um «caminho de amizade».

Também a imagem de Abraão que obedece ao mandamento do Senhor «vai» é para ele uma fonte de inspiração. É interessante que a ordem que Deus dá a Abraão em Génesis 17,1, «anda na minha frente e sê íntegro», nas traduções aramaicas clássicas (Targum Onkelos e Targum Jonathan) aparece como: «Serve-me». E é assim que o entendiam também os exegetas medievais. O percurso de vida de uma pessoa deve manifestar aquele género de fé que serve o Criador e toda a criação.

Os aniversários evocam a recordação daquilo que foi feito no passado e convidam a fazer projetos para o futuro. O profeta Isaías afirma que «aqueles que esperam no Senhor readquirem força, têm asas como a águia, correm sem se cansar, caminham sem desfalecer». Assim, o caminho do meu querido amigo tem um novo início com o nascer de cada dia.


 

Abraham Skorka
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Jorge Bergoglio, Abraham Skorka | D.R.
Publicado em 12.03.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos