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O melhor ainda está para vir

Estamos no coração dos “quarenta dias” durante os quais os discípulos fizeram a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Uma experiência absolutamente inédita. Os discípulos foram desestabilizados em todos os sentidos. Aquele ressuscitado não era um cadáver reanimado nem um fantasma da mente. Não era uma regressão do corpo mortal: era – e é – uma ultrapassagem da morte que vem ao teu encontro desde o mundo de Deus. É uma experiência que não pode ser comparada a nada, só Jesus, precisamente, pode confirmá-la. Por isso deverias acreditar nela sempre mais, para a poderes decifrar.

Jesus emprega quarenta dias de encontros para os convencer. E não foi fácil: teve de lhes dar tempo para assimilar e fazer sua a ressurreição, ou melhor, o Ressuscitado. A fé daqueles discípulos ganha alento – tal como a nossa – ao longo do caminho doo seguimento do Senhor ressuscitado e no dom do Espírito vivificante. O Espírito de Deus, prometido e enviado por Jesus, no momento em que se torna dom do Ressuscitado, muda a vida. E muda também a morte. O Ressuscitado apresenta-se aos seus precisamente com este testemunho: a criatura atravessará a morte e Deus apagá-la-á da sua vida.

Julgo que não damos o devido valor à lição dos “quarenta dias” do Ressuscitado para a nossa aprendizagem da ressurreição da vida. Um revés talvez tenha vindo também da preocupação de fixar a radical diversidade da vida eterna, o que acabou por a distanciar da experiência de uma vida ressuscitada. Na inércia desta marginalização da “ressurreição da carne”, também “a vida do espírito” acabou por perder a sua capacidade de mover a carne da nossa vida, que deve ser transformada, não perdida. Este é o ponto de vista da morte, não da ressurreição.



Infelizmente, muito cristianismo moderno resignou-se a investir os valores da vida eterna no compromisso pelo bem-estar da vida presente, caduca, corruptível e mortal, de maneira a tornar-se credível como palavra de vida



Se deixamos à morte a última palavra, esta vida está perdida para sempre. A vida – a vida que temos, a vida que somos, a vida pela qual acreditamos, esperamos e amamos – acabou desta maneira por ser dividida em duas. A vida antes da morte, plena de humanidade, é entregue à morte e extingue-se com ela; sem fazer distinções, aprendemos a chamá-la vida mortal, corruptível, mundana, destinada à morte. A vida após a morte, pelo contrário, é esvaziada de acontecimentos, secada de emoções e sem os afetos, acabou por ser fixada na eternidade de um estado de pura duração: como se à vida da alma bastasse perdurar para sempre, repleta de Deus e vazia de humanidade. Como se as nossas melhores qualidades – a liberdade e a criatividade, a descoberta e a imaginação, a relação das pessoas e o domínio sobre o mundo – nunca mais tivessem espaço na beatitude da vida das criaturas humanas com Deus.

Mas se pensarmos nos encontros do Ressuscitado com os discípulos, vemos como são reais as relações, os afetos, as conversas entre estes e Jesus. É à luz desta perspetiva que deve ser enquadrado o tema da ressurreição dos mortos e dos corpos. Jesus ressuscitado, que entra no Céu com o seu corpo ressuscitado, sela o inaudito e impensável cumprimento “terreno” do “Céu” de Deus. Este Céu será – como Jesus revelou – o reino da vida e do domínio de Deus com as suas amadas criaturas. A vida eterna prometida com a ressurreição não é pós-humana. Permanece humana. Viveremos a vida de Deus, que começamos agora a incorporar graças ao mistério da nossa redenção segundo o Espírito, como criaturas humanas.

Os corpos ressuscitados são corpos totalmente transformados pela luz geradora de Deus, mas são, não obstante, os nossos corpos, com a nossa carne, a nossa singularidade, as nossas relações, a memória dos nossos afetos e a imaginação de toda a vida que permanece para vivermos. Seremos transformados, não alienados. Como? Não sabemos. E também isto faz parte das surpresas que nos esperam. Mas uma coisa é certa: a nossa carne, o nosso corpo, serão transformados, não substituídos. No mundo de Deus reconhecer-nos-emos uns aos outros. Infelizmente, muito cristianismo moderno resignou-se a investir os valores da vida eterna no compromisso pelo bem-estar da vida presente, caduca, corruptível e mortal, de maneira a tornar-se credível como palavra de vida. Desvio não privado de risco. É verdade que o Evangelho suscita humanismo. Mas para a fé, esta vida é a semente, não a floração.

Em suma, o mais belo está para vir. Sim, o mais belo ainda está para vir! E não está ao alcance da nossa vontade de poder, filha da desesperação e das nossas técnicas de manipulação, que geram pesadelos. A vida eterna da inaudita promessa de Deus perdeu, na nossa linguagem, a sua desejável continuidade com a vida. E por isso esvaziou-se o poder da sua atração para o Céu de Deus, que é o único lugar habitável para o nosso desejo de resgate e de realização. Deixemo-nos subverter pelos “quarenta dias” do encontro com o Ressuscitado.


 

D. Vincenzo Paglia
Presidente da Academia Pontifícia para a Vida
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "A ceia de Emaús" | Matthias Stom
Publicado em 06.05.2021

 

 
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