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O lugar dos idosos é em casa, não nas instituições: Igreja pede «viragem cultural» para não se repetir «massacre»

«Toda a sociedade civil, a Igreja e as várias tradições religiosas, o mundo da cultura, da escola, do voluntariado, do espetáculo, da economia e das comunicações sociais devem sentir a responsabilidade de sugerir e apoiar – no interior desta revolução coperniciana – novas e incisivas medias para que seja possível aos idosos serem acompanhados e assistidos em contextos familiares, na sua casa e em todo o caso em ambientes familiares que se assemelhem mais à casa que ao hospital. Trata-se de uma viragem cultural a concretizar.»

Este parágrafo constitui uma síntese dos propósitos enunciados hoje pela Academia Pontifícia para a Vida, do Vaticano, através do documento “A velhice: o nosso futuro. As condições dos idosos após a pandemia”.

Na conferência de imprensa de apresentação do texto, o bispo italiano D. Vincenzo Paglia, presidente da instituição, sublinhou que os idosos foram as vítimas mais numerosas da doença: «Os dados das mortes são brutais na sua crueldade. Até hoje fala-se de mais de dois milhões e trezentos mil idosos mortos por causa da Covid-19, a maioria dos quais com mais de setenta e cinco anos. Um verdadeiro “massacre de idosos”».

O documento acentua que «a institucionalização dos idosos, sobretudo dos mais vulneráveis e sós, proposta como única solução possível para lhes acudir, em muitos contextos sociais revela uma ausência de atenção e sensibilidade para com os mais fracos, em relação aos quais seria antes necessário empregar meios e financiamentos aptos a garantir os melhores cuidados possíveis a quem deles precisa, num ambiente mais familiar».



A articulação destes instrumentos torna «evidente a necessidade de apoiar as famílias, que, sobretudo se constituídas por poucos filhos e netos, não podem sustentar sozinhas, numa habitação, a responsabilidade por vezes extenuante de cuidar de uma doença exigente, custosa em termos de energias e de dinheiro»



«Quem não gostaria de continuar a viver em casa própria, rodeado pelos seus afetos e pelas pessoas mais queridas, mesmo quando se torna mais frágil? A família, a casa, o seu ambiente representam a opção mais natural», aponta.

A Academia não negligencia que «nem sempre tudo pode permanecer igual em relação a quando se era mais jovem», sendo por vezes exigidas «soluções que tornem verosímil um cuidado domiciliar», quando, por exemplo, «a casa deixa de ser suficiente ou adequada».

«Nestes casos, é necessário não ser seduzido por uma “cultura do descarte”, que pode manifestar-se em preguiças e falta de criatividade na busca de soluções eficazes quando velhice significa também ausência de autonomia», até porque, sublinha o documento, «colocar no centro da atenção a pessoa, com as suas necessidades e direitos, é expressão de progresso, de civilização e de autêntica consciência cristã».

Passando dos princípios à sua aplicação, o texto salienta a atenção que deve ser dada às habitações, «para que sejam adequadas às exigências» da pessoa idosa: «A presença de barreiras arquitetónicas ou a inadequação dos equipamentos de higiene, a ausência de aquecimento, a penúria de espaço devem ter soluções concretas», porquanto a doença e a fragilidade podem fazer com que «qualquer coisa se transforme num obstáculo inultrapassável».



«O paradigma que se pretende propor não é uma utopia abstrata ou pretensão ingénua», mas contribuir para «novas e mais sábias políticas de saúde pública e propostas originais de um sistema assistencial mais adequado à velhice. Mais eficazes, além de mais humanas»



Integrar a assistência domiciliária, com a possibilidade de cuidados médicos ao domicílio, o incremento de pessoas que prestem cuidados, o contributo das novas tecnologias, o avanço da telemedicina e da inteligência artificial são alguns dos meios mencionados, na convicção de que «uma aliança atenta e criativa entre famílias, sistemas social e sanitário, voluntariado e todos os atores em campo pode evitar a uma pessoa idosa a obrigação de deixar a sua habitação».

A articulação destes instrumentos torna «evidente a necessidade de apoiar as famílias, que, sobretudo se constituídas por poucos filhos e netos, não podem sustentar sozinhas, numa habitação, a responsabilidade por vezes extenuante de cuidar de uma doença exigente, custosa em termos de energias e de dinheiro».

«O paradigma que se pretende propor não é uma utopia abstrata ou pretensão ingénua», mas contribuir para «novas e mais sábias políticas de saúde pública e propostas originais de um sistema assistencial mais adequado à velhice. Mais eficazes, além de mais humanas. Exige-o uma ética do bem comum e o princípio do respeito da dignidade de cada indivíduo, sem distinção alguma, nem sequer a da idade», indica o texto.

Depois de acentuar que as estruturas da Igreja são também convidadas «a uma reflexão mais atenta para com o mundo dos idosos», o texto frisa que a sua presença «é um grande recurso» para a sociedade.



Em Portugal, «uma das leis que correspondem efetivamente a um avanço civilizacional» é o Estatuto do Cuidador Informal», mas «a lentidão dos processos administrativos e a escassa informação pública têm provocado uma “ralentização” inaceitável», facto que «torna ainda mais violenta e incompreensível a pressa em aprovar uma lei desumana como a da eutanásia»



«Jovens e idosos, com efeito, ao encontrarem-se, podem levar ao tecido social essa nova linfa de humanismo que tornaria a sociedade mais solidária», declara a reflexão, que não esquece o papel das pessoas mais velhas na transmissão da fé às novas gerações.

Os idosos «recordam a radical fragilidade de cada ser humano, mesmo quando está de saúde», bem como «a necessidade de ser amado e apoiado», e lembram a todos que na velhice, afastada toda a «autossuficiência», a pessoa torna-se «mendiga de ajuda», o que, pela felicidade da existência por viver, não deve ser considerado como uma «condenação», mas como uma oportunidade para (re)lançar a relação com Deus.

Na crónica mais recente que assina no “Expresso”, intitulada “Cuidar da vida frágil”, o cardeal José Tolentino Mendonça destaca o papel dos «largos milhares de cuidadores», na maioria mulheres, que em Portugal «se ocupam dos pais ou familiares doentes, que tratam de jovens e adultos portadores de deficiência, acompanhando-os jornada após jornada».

Lutam «muitas vezes, em solidão, para afirmar o valor da vida humana numa sociedade que em vez de simplificar os auxílios, burocratiza, distancia-se e dificulta».

«Não tenhamos dúvidas: é o cuidado a grande experiência humanizadora, o lugar do mundo onde mais aprendemos, o grande espaço de sabedoria autêntica. Sem a cultura do cuidado não haverá futuro e tudo representará sempre mais um beco sem saída. Há quem contraponha: “O cuidado só por si não oferece a solução”. A resposta é: pelo menos oferece caminhos», assinala.

D. Tolentino saúda a aprovação, em Portugal, de «uma das leis que correspondem efetivamente a um avanço civilizacional: a aprovação do Estatuto do Cuidador Informal», mas «a lentidão dos processos administrativos e a escassa informação pública têm provocado uma “ralentização” inaceitável», facto que «torna ainda mais violenta e incompreensível a pressa em aprovar uma lei desumana como a da eutanásia».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: luckybusiness/Bigstock.com
Publicado em 09.02.2021

 

 
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