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O ladrão das baguetes

Teria fome, fazia frio, e alguns trocados podiam ser melhor que nada. Olhou à volta, na escuridão. Cobriu a cabeça com o capuz da camisola e arrombou o distribuidor de pão fresco. Seria um furto como tantos aquele que ocorreu na noite, se Audrey Aubinais, a proprietária de uma padaria de Chateaubriant, em França, não o tivesse partilhado no Facebook.

O rapaz que roubava as moedas das suas baguetes, ela só o viu na manhã seguinte, quando desbobinou o filme da câmara de vigilância. E decidiu reagir. Primeiro com um aviso, dirigido diretamente ao ladrão e confiado à maré das redes sociais como uma mensagem numa garrafa: «Informamos-te que já reparámos o distribuidor de pão que destruíste, mas trata de não voltares a fazê-lo, porque todas as tardes retiramos o dinheiro, e não vale a pena destrui-lo durante a noite».

Depois, o convite inesperado: «Não sabemos quem és porque não te reconhecemos com o capuz, mas se vieres à loja ficaremos felizes por te acolher e te oferecer um trabalho. Estamos à procura de um jovem aprendiz de padeiro, e poderás ser precisamente tu. Transmitir-te-emos os valores do respeito por si e pelos outros, do trabalho, obviamente, da satisfação de uma tarefa realizada e bem feita. No fim, verás que não é assim tão difícil começar a trabalhar. Nada é imutável, tudo pode mudar. Então, talvez em breve nos vejamos…».

Há pequenas histórias que possivelmente acabam no nada. Não têm por trás gestos particularmente heroicos, contanto que não o seja perdoar o dano que te causaram. Talvez haja apenas belas palavras a confecionar a história, ou talvez haja factos concretos que a fazem crescer, que deixam marca e chegam onde as palavras não conseguem chegar. Mas para quem concorda que “fazer” é o verbo mais belo do vocabulário depois de “amar”, então esta é uma bela história.

Não é impossível, mas é difícil que tenha um final de aplausos, com o ladrão que se apresenta aos seus benfeitores, pede desculpa, assume o trabalho e torna-se, até, um mestre pasteleiro famoso em todo o mundo. Coisas destas só acontecem nos filmes. E, quem sabe, na fantasia de quem nunca se rende à banalidade da vida. Mas não importa.

No Facebook, alguns comentários enalteceram o gesto de grande humanidade da dona da loja. Outros sublinharam, amargamente, que um posto de trabalho cansativo como aquele é muito menos aliciante do que a tentação de roubar, e que o ladrãozinho decerto não se vai deixar encontrar.

Todavia, o salteador das baguetes é só um figurante. A protagonista é outra, é a invejável capacidade de preocupar-se pelos outros que neste tempo alguém ainda possui. E a coragem de ir além da ofensa recebida, transformando um dano sofrido numa oportunidade para oferecer a uma pessoa que nem sequer se conhece, nem sabe se a merece verdadeiramente.

Este é o sentido, o fim, a razão das coisas: não carregar rancor e surpreender, duas palavras que devíamos escrever à porta de casa, para as poder ler e recordar todas as vezes que saímos e mergulhamos no mundo.


 

Alberto Caprotti
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: to_koreneva/Bigstock.com
Publicado em 20.11.2020

 

 
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