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O infinito

«Hoje aprendi a letra P», disse com um ar satisfeito o João, do 1.º ano, enquanto as crianças entravam na igreja. «E eu já sei contar. Sei que se pode contar até ao infinito», adiantou outro menino, aquele que se põe de pé sempre que quer falar. A menina com um laço cor-de-rosa acrescentou muito prontamente e num tom angelical: «Eu sei desenhar o infinito». «Eu também», responderam vários ao mesmo tempo, «até ao infinito, o infinito». Havia alegria na repetição da palavra. A conversa espontânea no início da sessão de catequese prosseguiu, embalada pela interação nascida do acaso ou como se estivesse programada pelo infinito.

«E o que é o infinito? Quem é infinito?», perguntei-lhes. Fez-se silêncio. Alguém respondeu timidamente «Deus», e outros disseram em simultâneo «Jesus», e o santo nome subiu pelas paredes da igreja, repetido em forma de eco quase até ao infinito «Jesus, Jesss…». «Infinito significa que não teve princípio nem terá fim», acrescentei, para espanto dos pequenos ouvintes, que, enquanto se mexiam nos bancos, contorciam o rosto em sinal de dúvida. Os dedos levantaram-se mais uma vez: «Não teve princípio? Como pode ser? Quem fez o infinito?», perguntou o menino de pé. A menina do laço encolheu os ombros. O ruivo coçou a cabeça. Outros riram-se. A conversa não foi conclusiva.

Convidei-os a subirem para as salas com as respetivas catequistas para darem início à sessão, onde iriam aprofundar a história e a mensagem do infinito que se tornou provisoriamente finito. Ele, enquanto menino como eles, e mais tarde como adulto, também fez muitas perguntas, em especial sobre as características finitas dos seus pares.

Esta conversa não acaba aqui. Perde-se nas origens do mundo e acompanhar-nos-á até às portas do infinito. S. Paulo, na primeira carta aos coríntios (15, 12. 16-20), reafirma a tese estruturante da arquitetura da nova religião: «Cristo ressuscitou. Nós havemos de ressuscitar com Ele. Havemos de participar nesse universo cuja finitude da inteligência humana não é capaz de apreender».

Entretanto, ouvimos uma e outra vez a Palavra desafiante da eternidade pela boca dos profetas. Esta mania de alterar a ordem das coisas tem consequências nefastas: «Infeliz daquele que confia exclusiva e incondicionalmente na realidade precária do seu semelhante». E «ai de vós» que virais as costas à eternidade e viveis como se fôsseis infinitos, erguendo todos os dias as barreiras da indiferença que vos protegem dos outros. «Ai de vós», ricos e fartos, porque estais condenados a uma triste felicidade. Lembrai-vos que sois «apenas a casca e a folha» (cf. Lucas 6, 17. 20-26).

Ai de mim, que «trago comigo a grande morte».

A tarde chegava ao fim. O rumor da agitação ininterrupta da cidade assemelhava-se à música de fundo sobre a qual se ouvia outra melodia, a do ruído das crianças e dos chilros dos pássaros que se aventuravam no vento frio de inverno. Era o fim de mais um dia. Tudo acaba. E, no entanto, o infinito permanece.


 

P. Nélio Pita, CM
Imagem: toukung/Bigstock.com
Publicado em 18.02.2019

 

 
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