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O “hoje” da salvação dos Evangelhos ressoa no hoje de cada minuto

O advérbio σήμερον, em grego, que quer dizer hoje, aparece nos Evangelhos Sinóticos cerca de dezasseis vezes, sendo seis vezes no Evangelho de Mateus, uma vez no Evangelho de Marcos e nove vezes no Evangelho de Lucas.

No Evangelho de Mateus, podemos encontrar o advérbio σήμερον em Mt 6, 11 na segunda parte da Oração dominical que Jesus ensina aos seus discípulos: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Neste mesmo capítulo, no v. 30 Jesus adverte sobre a importância da confiança na Providência Divina: “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?”. Em 11, 23 quando Jesus lamenta sobre algumas cidades, diz: “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje”.

Numa outra passagem, onde os fariseus pedem um sinal do céu, Jesus em Mt 16, 3 faz uma referência aos sinais dos tempos: “Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado; e, pela manhã: Hoje, haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis, na verdade, discernir os sinais dos tempos?”. Em Mt 27, 19, quando Jesus Se encontra no Pretório, diz a mulher de Pilatos: “Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito”. Em Mt 28, 15, aquando da reação dos inimigos de Jesus a propósito da Sua Ressurreição, lemos: “Eles, recebendo o dinheiro, fizeram como estavam instruídos. Esta versão divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”.



O “hoje” presente em Mateus denota e manifesta uma atitude de decisão: é o hoje enquanto salvação ou perdição. Constitui um convite para olhar a História e perceber que o hoje pode ser tanto o centro quanto o conteúdo da revelação



O Evangelho de Marcos é aquele que faz referência apenas uma única vez do advérbio σήμερον. Esta citação aparece no episódio em que Jesus manifesta a negação de Pedro, em Mc 14, 30: “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes”.

Por fim, encontramos no Evangelho de Lucas um uso frequente do advérbio σήμερον. Uma primeira referência encontramos já no chamado Evangelho da Infância, acerca do nascimento do Salvador, em Lc 2, 11: “é que hoje vos nasceu, na cidade de David, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. No início do Seu ministério, na Galileia, após Se deparar com a passagem do Profeta Isaías, diz Jesus em Lc 4, 21: “Hoje, cumpriu-se a Escritura que acabais de ouvir”. Em Lc 5, 26, após a cura de um paralítico em Cafarnaum, todo o povo estupefacto com o que acabara de testemunhar, davam glória a Deus, dizendo: “Hoje, vimos coisas extraordinárias”. Também à semelhança de Mateus, Jesus adverte aos seus discípulos à necessidade de abandonarem-se à providência de Deus que a todos tutela e sustenta, em Lc 12, 28: “Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé!”. Numa outra passagem, Lc 13, 32, aquando da perseguição de Herodes, Jesus fala da Sua morte: “Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demónios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei”.

Em Lc 19, 5, com o episódio do publicano Zaqueu, encontramo-nos diante de um dos temas centrais do anúncio de Jesus. Neste inestimável encontro, voltando-Se para Zaqueu, Jesus convida: “(Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. Já na casa de Zaqueu, Jesus encerra o Seu anúncio, no v. 9, bradando: “Hoje, houve salvação nesta casa, pois também este é filho de Abraão”. À semelhança do Evangelho de Marcos, encontramos também em Lc 22, 34 o episódio em que Pedro é avisado da negação: “Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante”. Neste mesmo capítulo, no v. 61, quando Jesus está no Pretório, dá-se a confirmação desta negação: “Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo”. Uma última referência do advérbio σήμερον nos Sinóticos encontramos em Lc 23, 43, onde Jesus, no alto da Cruz, promete o Paraíso ao ladrão arrependido: “Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”.



O “σήμερον” de Cristo revela que a salvação entra no mundo num preciso momento da história e que este acontecimento acabou por transformar radicalmente a existência humana. Toda a vida e todos os encontros de Cristo se fundamentam no hoje da salvação



Contexto e sentido do advérbio σήμερον

O advérbio σήμερον nos Evangelhos Sinóticos não é empregue sempre nos mesmos contextos e nos mesmos sentidos. Mesmo dentro dos três evangelistas, este advérbio adquire a especificidade própria de cada um. Em Mateus, o advérbio denota, por exemplo, o mau pressentimento da mulher de Pilatos acerca da sorte de Jesus. Há aqui uma temporalidade momentânea que sintetiza o sonho da mulher do governador. Já o início da segunda parte do Pai Nosso, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, pode corresponder ao antigo estilo da pregação judaica. O hoje é o tempo perenemente atual da decisão de entre Deus e o Seu povo. O hoje presente em Mateus denota e manifesta uma atitude de decisão: é o hoje enquanto salvação ou perdição. Constitui um convite para olhar a História e perceber que o hoje pode ser tanto o centro quanto o conteúdo da revelação. É nesse σήμερον que vem ramificada a Palavra de Deus, capaz de interpelar, questionar e ajudar o povo de Deus a responder a esta mesma Palavra através da oração, do pedido, da súplica.

A única vez que confrontamos com o advérbio σήμερον em Marcos é na negação de Pedro (14, 30). O hoje da negação do discípulo pode adquirir dois matizes: um temporal, ou seja, a iminência dos acontecimentos pascais; e outro salvífico, ou seja, pela negação, Pedro hoje chora amargamente a situação e deixa-se transformar pela conversão do coração. Da negação de Pedro hoje, brota o sim autêntico de um coração que soube encontrar na Cruz do seu Senhor a força para a continuidade do seu discipulado.

Diferentemente de Marcos e Mateus, Lucas é o evangelista do hoje do nascimento do Salvador (2, 11) até ao hoje do Paraíso prometido ao ladrão arrependido (23, 43). O σήμερον em Lucas é usado com o propósito de trazer ao ápice o tempo da promessa e, dessa forma, inaugurar o tempo messiânico. Este hoje pragmatizado por Lucas não se estreita ao período da presença história de Jesus, mas antes alarga a um tempo permanente que se realiza através da missão da Igreja na procura incessante de viver hoje a salvação inaugurada por Jesus. O hoje da salvação é trazido por Jesus aos pecadores, aos cegos, aos coxos e moribundos, e por isso mesmo, parte da livre e espontânea vontade amorosa de Deus. Em Zaqueu, por exemplo, é patente o hoje de Jesus que interpela a vida do publicano e o hoje salvífico que é operado na existência de Zaqueu. O σήμερον lucano é o hoje da libertação, da manifestação do Reino de Deus entre os homens. Destarte, como na cura do paralítico de Cafarnaum (5,26), todo o povo maravilha-se perante a lídima autoridade de Jesus que, através da sua Palavra, faz conceder no hoje, não somente a cura física deste homem, como também a cura espiritual, libertando-o da escravidão do pecado. Estas atitudes de Jesus revelam-nos o σήμερον inesperado, a manifestação da misericórdia que abarca, com gáudio e letícia, o mistério da existência humana. É este σήμερον adventício que faz o coxo saltar, os demónios afugentarem-se, as línguas saltarem, os olhos abrirem, o ladrão se arrepender e a vida acontecer. Assim sendo, o σήμερον lucano tem como função ajudar o ser humano a abrir-se à atualidade da salvação, numa nova cronologia, sob a égide de Cristo, que transforma o hoje no dia sem ocaso da sua omnipotência salvadora.



O “σήμερον” de Cristo revela que a salvação entra no mundo num preciso momento da história e que este acontecimento acabou por transformar radicalmente a existência humana. Toda a vida e todos os encontros de Cristo se fundamentam no hoje da salvação



O campo semântico

O advérbio σήμερον possui um fecundo e valioso campo semântico no Novo Testamento. Em particular nos Sinóticos, o hoje insere-se numa profunda reflexão sobre a categoria de tempo, onde cada evangelista mostra o quanto se torna determinante na vida do homem a vinda do tempo salvífico de Deus através de Seu Filho, Jesus Cristo. O conceito de tempo não pode prescindir do evento Jesus Cristo, que para cumprir o projeto de Deus entra na história e nela Se faz morada. O σήμερον lucano é de uma significância mirífica, marcado por um forte momento teológico e histórico, onde se formula a base de uma “teologia do tempo e da história”. Por isso, Lucas destaca-se nos Sinóticos e no campo semântico deste advérbio de tempo, por ser considerado como o evangelista com maior sensibilidade pela história e pela historicização do evento salvífico.

A originalidade e a maestria de Lucas é, talvez, o equilíbrio que narrativamente é capaz de manter a figura de um Deus que conduz a história segundo o seu desígnio salvífico. O hoje é o espaço do encontro com a iniciativa salvífica do Pai e a responsável liberdade do homem. O hoje nos Sinóticos constitui um convite imperioso para que o homem possa conhecer e acolher esta novidade salvífica. É o impulso para construir uma estratégia pragmática que incita no leitor o compromisso responsável, que nasce da consciência da bondade de Deus e da efemeridade da própria vida.

O σήμερον em Lc 2, 11 (anúncio do anjos aos pastores): É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor e em Lc 23, 43 (Jesus na cruz responde ao ladrão arrependido): Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso, cria uma inclusão significativa na história lucana. Estes dois textos revelam-nos como que o advérbio está estritamente ligado ao tema da salvação. O campo semântico do hoje e da salvação faz-se presente e determinante tanto no nascimento de Jesus quanto na Sua morte de Cruz. Todas as perícopes intermédias que fazem referência ao σήμερον marcam um desenvolvimento do percurso na compreensão do hoje de Jesus como salvífico para aqueles que o encontram.



O evento pascal diz uma palavra nova e definitiva na história humana: o σήμερον é capaz de introduzir-nos no tempo escatológico do Reino de Deus, onde Cristo anuncia ao homem que Deus é eterno



No σήμερον dos Sinóticos, o leitor encontra a hermenêutica que torna possível a compreensão plena do evento Jesus Cristo no mysterium salutis. Nasce hoje para nós o Salvador: o Filho de Deus, que existe desde sempre, Se faz homem e, dessa forma, introduz na história e na categoria de tempo uma radical novidade. O σήμερον de Cristo revela que a salvação entra no mundo num preciso momento da história e que este acontecimento acabou por transformar radicalmente a existência humana. Toda a vida e todos os encontros de Cristo se fundamentam no hoje da salvação. O seu σήμερον consiste em salvar o povo dos grilhões da escravidão e a sua vinda marca um ponto fulcral e indelével na história da salvação. Na conceção de S. Mateus (6, 11) o σήμερον de Jesus corresponde ao “τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον” (pão nosso de cada dia) que traz e mantém a vida, consumando no hoje o patrocínio misericordioso de Deus.

A última referência do σήμερον nos Evangelhos Sinóticos está em Lc 23, 43 na narrativa da morte e ressurreição de Jesus. Nesta passagem, Jesus culmina o hoje do Paraíso eterno oferecido ao ladrão arrependido. Nesta cena, a diferença entre os dois malfeitores é crucial para a compreensão semântica do σήμερον de Jesus. O fator diferencial está na abertura ou no fechamento perante a revelação de Deus, que escapa às categorias humanas. O malfeitor que reconhece Jesus como o Justo, capaz de abandonar a pretensão de fazer d’Ele um Salvador violento, é aquele homem capaz de fazer do hoje da morte, o hoje da salvação. O bom ladrão é o primeiro pecador que Jesus diz: “σήμερον μετ’ ἐμοῦ ἔσῃ ἐν τῶ παραδείσῳ” (hoje estarás comigo no paraíso). Isso pressupõe que o hoje da morte e ressurreição de Cristo se realiza definitivamente no começo de Lc 2, 11: o Salvador vem ao mundo para finalizar o tempo da culpa e libertar o prisioneiro do pecado e colocá-lo em plena comunhão com Deus.

O σήμερον constitui-se o encontro de Cristo com a nossa história humana por uma escolha divina de encarnar-se no nosso limite espácio-temporal, mas constitui-se também a decisão do homem que, com um ato histórico, coloca-se em comunhão com Ele dentro do evento salvífico. O hoje, o amanhã e o terceiro dia formam o tempo da obediência de Jesus ao plano de Deus e, por isso, estas terminologias, na verdade, tratam-se do “apressar”, do “hoje salvífico” que caracteriza sempre a atuação de Jesus neste desígnio querençoso do Pai.



A existência histórica de Jesus no hoje do homem, as suas palavras, os seus encontros, as curas, os exorcismos, as refeições, tornam-se a paradigmática do hoje eterno



O hoje como categoria humana

O tempo é uma categoria puramente humana, necessária para orientar, ordenar e significar a existência do homem. O Deus Criador, na verdade, não se define com critérios da temporalidade humana. Ele existe desde sempre e para sempre. Entretanto, quando a ação de Deus se manifesta a favor do homem, fá-lo através de uma linguagem que ele possa compreender. Assim sendo, o Deus bíblico age a favor de um povo que vive na história. O povo é chamado a viver, no tempo cronológico a que está sujeito, aquela novidade salvífica que Deus inaugura através da Encarnação do Verbo, que é o tempo da salvação.

No Novo Testamento, propriamente nos Evangelhos Sinóticos, o advérbio σήμερον assume uma novidade radical ao tempo do homem com o hoje da salvação. A existência histórica de Jesus no hoje do homem, as suas palavras, os seus encontros, as curas, os exorcismos, as refeições, tornam-se a paradigmática do hoje eterno do mysterium salutis que Deus realiza através da Morte e Ressurreição de seu Filho, como bem expressa o teólogo José Tolentino Mendonça: “O advérbio hoje impõe o tempo presente para a ação expressa pelo Verbo” (“A Construção de Jesus – A surpresa de um retrato”, p. 78).

O σήμερον de Jesus ultrapassa a categoria e expetativa humana sobre o tempo, porque na sua vida e, sobretudo, no acontecimento pascal, supera todo e qualquer limite inelutável que é a morte. O evento pascal, na verdade, diz uma palavra nova e definitiva na história humana: o σήμερον é capaz de introduzir-nos no tempo escatológico do Reino de Deus, onde Cristo anuncia ao homem que Deus é eterno e que nem os grilhões da morte nem os limites do tempo cronológico possuem a última palavra da vida humana. Portanto, já no tempo presente começa o hoje do tempo futuro.


 

P. Alexsander Baccarini Pinto
Mestre em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, Lisboa
Imagem: Mr.Frost/Bigstock.com
Publicado em 02.03.2021

 

 
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