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O grande medo das mulheres no mundo e na Igreja

No final do século XIV, um preocupado confessor, Jean le Graveur, prepara-se para transcrever as visões de Hermínia de Reims, jovem viúva considerada “louca”. Desses sonhos repletos de imagens emergia uma mulher que desejava sair das estreitas paredes domésticas e viajar pelo mundo, que esperava voltar a casar e desejava libertar-se do severo controlo do confessor para ter um diálogo mais livre com Deus. O estudo desse antigo manuscrito realça o medo dos homens do passado por toda a manifestação de autonomia feminina, isto é, a dificuldade de aceitar espaços de liberdade para as mulheres: os sonhos de Hermínia, com efeito, foram julgados o resultado de tentações demoníacas.

O medo em relação às mulheres foi, e ainda é em muitos contextos, um dos grandes medos do Ocidente. Também o é na Igreja? E em que medida?

A partir do Concílio Vaticano II, o magistério mostrou uma nova atenção e sensibilidade em relação às mulheres, defendidas na sua dignidade e valorizadas por aquilo que João Paulo II definiu o génio feminino, mas muito há ainda por fazer para superar resistências e preconceitos. O próprio papa Francisco afirmou recentemente que «temos de avançar para inserir as mulheres nos lugares de aconselhamento, inclusive de governo, sem medo», mostrando, entrelinhas, quantas dificuldades ainda existem em aceitar uma plena, autorizada e responsável participação feminina na vida da Igreja. O medo ainda existe. Mas em que consiste este temor em relação às mulheres? Um olhar para o passado pode talvez ajudar a compreender os motivos profundos desta emoção primária de defesa que os homens exprimem, ativando práticas de negação oiu marginalização. Sobretudo porque nem sempre foi assim.



Recordamos o franciscano Alvaro Pelayo, que, em “De statu et planctu ecclesiae”, expõe cento e duas motivações para demonstrar não só a inferioridade, mas também a perigosidade da mulher, «origem do pecado, arma do diabo, expulsão do paraíso, mãe do erro, corrupção da lei antiga»



A comunidade das origens

Certamente Jesus não tinha medo das mulheres. Aliás, dele começou a mais radical libertação feminina. Com as mulheres, efetivamente, entrou em diálogo empático, oferecendo escuta, participação afetiva, espaços de ação; a elas, tal como aos homens que o seguiam, dirigiu mensagens de salvação, anunciou as exigências do Reino, pediu opções radicais. As mulheres não eram consideradas uma categoria à parte, a marginalizar ou a ser indulgente, e com o Mestre da Galileia partilhavam vida, expetativas e ações. Por isso os discípulos ficavam embaraçados e não compreendiam a sua maneira de relacionamento amadurecido e equilibrado com o género feminino, e, sobretudo, tinham dificuldade em aceitar o seu ser livre de condicionamentos e tabus. De facto, se na cultura hebraica o corpo feminino era mantido sob controlo para não contaminar o sagrado, e portanto era excluído das atividades de culto por meio de restritivas normativas, com Jesus isso deixa de ser lugar e causa de segregação e de exclusão, porque nada pode tornar uma pessoa impura, a não ser o mal que faz e que nasce do íntimo do seu coração desviado. Do mesmo modo, mostrou-se alheio a toda a limitação assente em preconceitos: hoje, diríamos que era uma homem inclusivo. Exprime-o bem o diálogo com a samaritana, em que explicita como a presença de Deus não está ligada a um lugar sagrado (o templo), e como a relação com o transcendente não é privilégio de uma etnia (hebraica), de uma condição social ou religiosa (o ministro do culto) ou de um sexo (o masculino), mas é possível a cada pessoa que o saiba acolher «em espírito e verdade».

Os seguidores de Jesus não foram sempre coerentes com o seu comportamento livre: «Maravilhavam-se que falasse com uma mulher», experimentaram ressentimentos e mostraram ciúmes pela autoridade de Madalena, voltaram a propor papeis tradicionais («vós, mulheres, sede submissas aos vossos maridos) e antigas estruturas patriarcais («a mulher aprenda em silêncio, em plena submissão. Não permito à mulher que ensine nem domine sobre o homem» (1 Timóteo 2, 11-12). Mesmo assim, nas comunidades das origens encontramos mulheres, como Lídia, Tabitá, Priscila, Cloé, Ninfa, que ofereciam hospitalidade nas suas casas, verdadeiros lugares de acolhimento, de oração e de evangelização, ou cristãs comprometidas no campo da caridade, do diaconado, da catequese, da evangelização, da missão e do apostolado, como as mulheres mencionadas com respeito e gratidão pelo apóstolo Paulo: a diaconisa Febe, as missionárias Priscila, Evódia e Sintique, a apóstola Júnia, as evangelizadoras Trifena, Trifosa e Pérside, as benfeitoras Ápia e Ninfa. Mas nem esta presença de mulheres ativas e colaboradoras, nem o exemplo de Jesus, foram determinantes para dar um arranjo inclusivo à Igreja nascente, que abraçou a cultura e as estruturas patriarcais dominantes nas sociedades vizinhas com as quais contacta. Madalena depressa foi esquecida (S. Paulo tão-pouco a nomeia) e desvirtuada (de discípula passou, a partir de Gregório Magno, a prostituta arrependida), as diaconisas assumiram um papel sempre mais marginal, a profecia feminina foi sufocada, as mulheres foram reentregues ao seu papel de esposas submissas, o corpo da mulher voltou a ser um tabu.



A obsessão com o corpo feminino, desejado e ao mesmo tempo recusado e repelido, comparece com força nos tratados contra as bruxas, manifestando um medo crescente em relação às mulheres que, durante séculos, se tornaram bodes expiatórios de antigas e profundas angústias



A antiga ginecofobia

Os antigos autores cristãos partilharam substancialmente a antropologia da cultura greco-romana, que colocava no centro a superioridade do homem, e foram substancialmente concordes em reiterar a imperfeição e a insuficiência da natureza da mulher, nascida para ser submissa ao homem. E para Santo Agostinho, se os dois sexos tinham sido criados à imagem de Deus numa substancial igualdade espiritual, todavia a subordinação feminina era determinada pela ordem da Criação. Esta conceção atravessou o cristianismo, reforçada pelo encontro com a antropologia de Aristóteles: o género masculino era modelo do humano, e a mulher um homem falhado. Esta visão foi acolhida e integrada na filosofia escolástica e, especificamente, na teologia de Tomás de Aquino, constituindo ao longo dos séculos o fundamento da inadequação do género feminino quer para executar tarefas de poder quer para representar a própria imagem de Deus. O escasso conhecimento da fisiologia feminina, o medo de se ser contaminado por uma pessoa portadora de impureza, aumentaram os temores masculinos em relação à sexualidade da mulher, que devia ser travada e mantida distante dos lugares sagrados. Recordamos o franciscano Alvaro Pelayo, que, em “De statu et planctu ecclesiae”, expõe cento e duas motivações para demonstrar não só a inferioridade, mas também a perigosidade da mulher, «origem do pecado, arma do diabo, expulsão do paraíso, mãe do erro, corrupção da lei antiga». A obsessão com o corpo feminino, desejado e ao mesmo tempo recusado e repelido, comparece com força nos tratados contra as feiticeiras, manifestando um medo crescente em relação às mulheres que, durante séculos, se tornaram bodes expiatórios de antigas e profundas angústias.

Também a lei do celibato eclesiástico, que se afirmou no século XII, durante um consolidado processo de institucionalização da Igreja , favorece inevitavelmente a afirmação de uma conceção negativa da mulher, que era afastada dos lugares sagrados por ser considerada impura. A contínua transgressão da parte do clero levou o Concílio de Trento a concretizar um delineamento educativo mais vasto e apropriado, apontando, através da instituição dos seminários, para a formação espiritual e cultural do clero, severamente educado e separado do mundo laico. Disto foi sinal eloquente a pedagogia de Paolo Segneri que na mulher individuava o ponto máximo de perigosidade; dizer corpo significava indicar uma insídia permanente para a vida virtuosa. Eis então o incremento de um preceituário no qual a suspeita de pecado caía sobre a própria natureza da mulher, entendida como ameaçadora, o qual caracterizará a Igreja da Contra-reforma até ao limiar do Concílio Vaticano II.



O amor, sentindo-se enraizado em Cristo, torna-se superação dos medos, espaço de liberdade e de amadurecimento, reformulando as relações entre mulher e homem na dimensão amistosa do apoio recíproco



A superação do medo

A devoção mariana ajudou, certamente, a redescobrir a dignidade da mulher e inspirou alguns fundadores a projetar uma comunidade dupla (masculina e feminina) guiada por uma mulher, a abadessa. É o caso do mosteiro de Goleto e da sua apaixonante história, cujos vestígios são ainda hoje visíveis em Irpinia, Itália. Mas há mais exemplos na história da Igreja de fecunda amizade entre homens e mulheres. Não se poderia compreender, de outra forma, o entendimento, profundo e intenso, entre Clara e Francisco de Assis, que propõem e vivem uma fraternidade em comunidades nas quais encontra acolhimento quem quer que deseje seguir o Cristo pobre e deseje instaurar relações de apoio recíproco. Não se poderiam compreender as múltiplas experiências de vida religiosa, como as nascidas do trabalho comum de Francisca de Chantal com Francisco de Sales, de Luísa de Marillac com Vicente de Paulo, de Leopoldina Naudet com Gaspar Bertoni, para citar algumas. Não nos poderíamos hoje valer de comunidades inovadoras nascidas das provocações proféticas da missionarieadade se não tivessem havido duplas de fundadores como Maria Mazzarello e D. Bosco, Teresa Gricolini e Daniel Comboni, ou Teresa Merlo e Tiago Alberione. E não compreenderíamos as muitas amizades que se alimentaram de fé e paixões comuns. Como não recordar, para chegar a tempos mais próximos de nós, o caminho místico que juntou Adrienne von Speyr com Hans Urs von Balthasar e o ativismo cultural de Romana Guarnieri que ligou a sua vida indissoluvelmente a José de Luca? Exemplos estes marcados por relações intensas de profunda consonância, de afeto íntimo e sincero, de místico pudor. O amor, sentindo-se enraizado em Cristo, torna-se superação dos medos, espaço de liberdade e de amadurecimento, reformulando as relações entre mulher e homem na dimensão amistosa do apoio recíproco.



Seria preciso uma profunda obra pedagógica em relação aos homens, que deveriam refletir sobre si e sobre a sua masculinidade, frequentemente violenta, sobre a dificuldade de acolher as diversidades e fragilidades humanas, e sobre a complexidade de colocar em comum com o outro sexo sentimentos e projetos. Deveriam aprender a amar as mulheres



O regresso à utopia

Hoje faz ainda sentido falar de medo das mulheres? Já ninguém acredita em bruxas e outros bodes expiatórios catalisaram os medos da humanidade. Afirmou-se, finalmente, uma cultura de género antidiscriminatória, e o papa Francisco iniciou um processo fundamental de “desclericalização” na nossa Igreja, solicitando continuamente a presença significativa das mulheres nas estruturas da comunidade eclesial. Apesar das muitas mudanças culturais das quais somos participantes, as instituições eclesiásticas, no entanto, têm dificuldade em aceitar as mulheres em papéis de responsabilidade. Provavelmente porque não se trabalhou suficientemente na formação do clero, que por vezes, como afirmou recentemente o cardeal Marc Ouellet, «não tem uma relação equilibrada com as mulheres», porque não foi educado a interagir com elas através de intercâmbios e debates. Seria preciso, então, uma profunda obra pedagógica em relação aos homens, que deveriam refletir sobre si e sobre a sua masculinidade, frequentemente violenta, sobre a dificuldade de acolher as diversidades e fragilidades humanas, e sobre a complexidade de colocar em comum com o outro sexo sentimentos e projetos. Deveriam aprender a amar as mulheres, reconhecendo-as como singularidade, aceitando partilhar com elas autoridade e responsabilidade. Seria talvez oportuno retomar a visão poética e utópica de alguns textos sagrados. Com efeito, na narração mítica das origens, o encontro de Adão com Eva não é marcado pelo medo, mas pela maravilha da descoberta de um tu no qual se pode espelhar. No mesmo horizonte poético coloca-se o Cântico dos Cânticos, que retoma e exalta a reciprocidade dos géneros num extraordinário canto de amor onde é a mulher, autónoma e responsável, a reconhecer-se no homem, que depõe o seu comportamento prevaricador para nela encontrar abrigo. No amor, as lógicas de domínio desvanecem-se, e o medo não tem motivo de existir.


 

Adriana Valerio
Teóloga, docente de História do Cristianismo e das Igrejas, Universidade Federico II, Nápoles, Itália
In Donne Chiesa Mondo (L'Osservatore Romano)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Edvard Munch | 1924
Publicado em 08.03.2021

 

 
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