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“O fim do mundo”: Desassossego, purificação, redenção

O filme escolhido pelo júri deste ano do prémio “Árvore da Vida”, no 17º IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, ilustra bem tantos percursos sugeridos por tantos e tão bons realizadores ali presentes: “O Fim do Mundo”, a segunda longa-metragem de Basil da Cunha.

Creio que o título não se justifica pelo facto da narrativa ter lugar na Reboleira, também não será pela morte que estrondosamente nos surpreende, nem tampouco pelo fim flamejante de alguns veículos que Spira acredita serem problemas resolvidos.

“O Fim do Mundo” apresenta-se como uma janela onde nos debruçamos e donde questionamos a finalidade do que chamamos mundo. Essa dúvida foi – a meus olhos – o ponto agregador das cinco longas-metragens e das 17 curtas que constituíram a Competição Nacional do festival IndieLisboa. A forma tão cuidada como se homenagearam pessoas e trabalhos, a forma tão poética como se expressaram inquietações e desejos comuns a todos os que se sabem incompletos, foi, em forma de galeria de arte, uma coleção de tratados sobre a inquietação humana.

Nos becos do bairro d’O Fim do Mundo, sem filtros nem câmara estabilizada, mergulhados na atmosfera da vida real e na densidade das preocupações de vários personagens, a opção musical apanha-nos de surpresa: o organista André Ferreira serve-nos uma atmosfera sonora de uma catedral. Talvez essa referência seja a vontade de Basil da Cunha nos provocar sobre o que há de sagrado nos becos daquele bairro e nos percursos dos personagens.

Mais do que o detalhe do filme abrir e encerrar com dois rituais religiosos, um de iniciação e outro de despedida, a densidade teológica habita o protagonista Spira no desajuste do seu regresso ao bairro, depois de vários anos num “centro educativo”. Nesse olhar estranho que lança sobre os lugares e as pessoas que conhecia, habita um desassossego com ânsias de purificação – que o fogo invocará –, de libertação com a chegada de Iara à narrativa, de justiça, de reconciliação e redenção.

Assistimos a uma espécie de limite das instituições na resposta aos problemas, seja o centro que não é educativo, seja o município que não trabalha para todos, seja a polícia que faz cumprir a lei de modos distintos consoante a melanina... com o fim do filme, levamos connosco todos os rostos, esses todos que são e podem ser solução de todos os problemas, esses todos que se sabem comunidade quando deixam ecoar o clamor antigo de “serem guardas dos seus irmãos”.


 

António Pedro Monteiro
Membro do júri do Prémio Árvore da Vida, IndieLisboa 2020
Imagem: "O fim do mundo" | D.R.
Publicado em 06.09.2020 | Atualizado em 07.09.2020

 

 

 
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