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O eterno olhar de Deus que nunca julga, abraça feridas e abate castelos

Ter o olhar de Jesus. Ver no outro as suas fraquezas e amá-lo. Ter este olhar para o outro. O olhar ajuizador é o oposto do olhar de Jesus. S. Paulo di-lo no seu “hino ao amor”: o amor tudo justifica. Sim, porque o olhar do amor vê o outro a partir das suas possíveis fraquezas e feridas. Procura sempre um motivo mesmo a partir das suas ações mais molestas. Nunca julga. Procura compreender.

Um olhar pleno de bem e de benevolência. Encontra sempre um motivo para compreender inclusive aquilo que é mau. A maldade nasce de uma fragilidade, sempre de uma ferida. O olhar de Jesus procura essa ferida e aproxima-se dela. Amor de Jesus por cada ser humano. Por isso Jesus desperta Saulo, que se torna S. Paulo, e depois desperta Francisco, que se torna S. Francisco. O primeiro era um carnífice, o segundo vivia de maneira dissoluta, como também Santo Agostinho e tantos outros santos que Jesus olhou nas suas feridas. Só para citar o âmbito da história cristã, mas o discurso quer compreender o humano na sua totalidade, independentemente da religião.

Sentir-se olhado nas suas feridas. É o que provoca Jesus nas pessoas que olha. Elas convertem-se porque Ele, com o seu olhar, penetra nas suas feridas, penetra nas suas maiores fragilidades, onde o olhar habitualmente julga sempre. Mas Jesus fixa esse ponto como o ponto mais amado, e provoca a comoção. Ser olhado na sua fragilidade por um olhar de amor puro e incondicional… quando uma pessoa se dá conta deste olhar, desarma-se.



O cristianismo não é uma religião, mas a revelação da metamorfose da humanidade, que é gerada de novo pelo Crucificado vivo. A sua compaixão é tão impressionante que subverte toda a categoria da lógica



E então irrompe o pranto. As lágrimas depois da pessoa ter sido olhada com ternura divina no centro do seu limite, onde antes erguia as suas defesas. Mas Jesus continua a fixar esse ponto, e com o fogo dos seus olhos de amor abate como uma chama oxídrica todo o muro, e entra nele em profundidade: Ele quer habitar a nossa dor, a nossa escuridão, o nosso inferno; é daí que quer salvar-nos.

«Fixou-o e amou-o», diz-se nos Evangelhos. «Fixou-o»: eis o olhar de Jesus que é como uma chama que quer chegar ao ponto onde pode desmoronar o castelo das nossas falsas certezas, para que cada um de nós, defendendo-se por medo de ser descoberto no seu limite, constrói uma personagem, Ao contrário, Jesus procura, pelo olhar, fazer nascer a pessoa, e por isso desmascara sempre, mas não o faz julgando, antes amando.

O olhar de Jesus é o olhar mais belo que se pode ter. Não tem medo de nada, não teme estar com ninguém, mas ama, e ama até à morte, até olhar os seus assassinos e pedir ao Pai para os perdoar, «porque não sabem o que fazem»; assim Jesus justifica igualmente o assassino, procura nele o motivo da sua fraqueza, encontra a sua fraqueza e vê que quem o está a matar não tem consciência disso. Compreende. E compreende enquanto o seu sofrimento está num nível inimaginável: quer dizer que o amor pode existir sempre, quer dizer que o olhar de amor, a capacidade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa.



É precisamente na fragilidade que está a força. Enquanto nós queremos fugir do nosso medo, da nossa angústia, dos nossos terrores, das nossas feridas. Mas precisamente aí, do lugar de onde queremos fugir, oculta-se algo de maravilhoso, uma resposta



E assim essa força do amor não pode acabar, não se pode extinguir. O fogo dos olhos de Jesus não pode extinguir-se. O fogo, esse fogo com que olhava, o seu Espírito, permanece, e quando Jesus morre incendeia todas as coisas, olha-as todas, uma a uma. O olhar do Pai do Filho é o do Filho por cada filho. O Fogo não pode ser apagado: conquista tudo, como uma tempestade. Ninguém pode parar o amor («o Espírito sopra onde quer»), o mesmo amor que tudo criou agora quer tudo salvar.

E Jesus permanece aqui, na Terra, com o mistério do Espírito, com o mistério do seu estar presente em nós, nas nossas feridas, com o mistério da Eucaristia, no Evangelho. Ele ama tanto o ser humano que não pode separar-se dele: «Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo». Em Cristo revela-se o amor infinito do Pai pelos seus filhos, por cada um deles. Jesus é transparência desse olhar, e através dos seus olhos Deus ama. Através dos seus olhos Deus salva toda a criação. O cristianismo não é uma religião, mas a revelação da metamorfose da humanidade, que é gerada de novo pelo Crucificado vivo. A sua compaixão é tão impressionante que subverte toda a categoria da lógica.

Ele está presente no ser humano que é injustamente morto e no ser humano que mata. Porque também o ser humano que mata tem uma fragilidade que talvez nem sequer conheça. Tudo quer salvar. Assim estava dentro da ferida de Saulo, quando torturava os cristãos e os obrigava a blasfemar e os matava. «Saulo, Saulo, porque me persegues?»… e Saulo vê em si mesmo aquele misterioso Cristo, a Saulo aparece o mistério da salvação. Precisamente a ele, o assassino.

Cristo quer ser revelado por aquele que o estava a matar. Ele subiu a Jerusalém à cruz onde estava o assassino, o delinquente, o ladrão, o condenado… Ele está agora, em cada instante do tempo, na cruz onde está o assassino, o ladrão, o condenado por qualquer crime, Ele que «se fez pecado». É precisamente na fragilidade que está a força (S. Paulo: «Basta-te a minha graça, a força manifesta-se plenamente na fraqueza»). Enquanto nós queremos fugir do nosso medo, da nossa angústia, dos nossos terrores, das nossas feridas. Mas precisamente aí, do lugar de onde queremos fugir, oculta-se algo de maravilhoso, uma resposta. A resposta está dentro da fragilidade, não fora.


 

Arnoldo Mosca Mondadori
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Madalena penitente" (det.) | Caravaggio | 1594-95
Publicado em 21.07.2021

 

 
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