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Teatro

"O Estado do Bosque", de José Tolentino Mendonça: a primeira cena

O Teatro da Cornucópia, em Lisboa, codirigido pelo ator e encenador Luís Miguel Cintra, estreia a 7 de fevereiro a peça "O Estado do Bosque", do padre e poeta José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Oferecemos em primeira mão a primeira cena, tal como se pode ler no livro editado pela Assírio & Alvim.

 

Cena I
[O diálogo da orla]

PETER
Qual é o sentido do trilho?

JOHN WOLF
Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido.

PETER
E quanto tempo durará a travessia?

JOHN WOLF
Não sei. Tens de te perguntar primeiro quanto tempo levaste a chegar aqui.

PETER
Que queres que te diga? De repente dei comigo voltado para a entrada do bosque à espera de respostas.

JOHN WOLF
De que bosque falas?

PETER
Não deste. Não sabia sequer que ele existia. Um homem pode chegar a sítios tão improváveis!

JOHN WOLF
Então havia um bosque...

PETER
Bosque é uma maneira de falar. Era um grupeto de árvores, um conjunto denso de Pinheiros-de-Alep, cedros ou perto disso, verdejante mesmo nos verãos secos. Sei situar esse matagal muito bem, na descida por onde corre a Avenida 8. Sei muito bem ... Meteu-se-me na cabeça que podia ser uma porta, uma espécie de porta, sei lá...

JOHN WOLF
E talvez fosse...

PETER
Estás a brincar? Cada vez mais se apoderava de mim, mas nada daquilo era meu. (Andando às voltas, à roda dele, de modo compulsivo). Tenho apenas que recordar-me de tudo.

JOHN WOLF
Vieste donde?

PETER
Eu só pensava: ainda vou a tempo, amanhã é demasiado tarde. Agora vou a tempo, amanhã é demasiado tarde ... De tudo aquilo, o que era realmente meu, meu, meu?

JOHN WOLF
Para ... Somos uma terra que não pode girar sempre.

PETER
Que dizes?

JOHN WOLF
Ora somos pedra, ora estrela.

PETER
Não entendo o que estás a dizer. Mas nem eu consigo dizer coisa que se entenda. Agora vou a tempo, amanhã é demasiado tarde ... De tudo trago apenas isto: sensações ... traços ... uma linha confusa ... cinza por identificar             Nada que recomende um homem decente.

JOHN WOLF
Nós não pensamos, mas o pó tem o seu peso.

PETER
Sabes ... quando estamos no lago a pescar ... ou entretidos no canal com a tua mulher e as crianças... está um tempo esplêndido ... E assim ... sem tu quereres, sem fazeres por isso dás conta de um movimento que te inquieta: assim do nada, um balanço do barco, só um, ou uma sombra que corta rápida a superfície sem mais, ou um estalido ao longe, como que a milhares de quilómetros e tu não consegues distinguir bem, a não ser pela angústia que cai sobre ti. O sol brilha ... os teus filhos dão guinchos de alegria porque, com os remos, os salpicas de água ... a tua mulher está reclinada na proa, a luz da tarde bate-lhe na cara e ela tem os olhos fechados e sorri ... mas tu já não és o mesmo.

JOHN WOLF
Estás, portanto, a dizer que há sinais.

PETER
Nem sei.

JOHN WOLF
Mas continuamos a murmurar diante do que se cala.

PETER
A nossa vida torna-se tão estranha, sem que ninguém sequer o suspeite. Vezes sem conta pensei nisto. Cada dia prolongava mais um pouco a cerveja que bebia no Bar do Brendel. Antes de regressar a casa, entrava sempre no bar. Fazia isso há que anos. E era uma coisa rápida. O tempo de uma cerveja. Mas agora demorava-me. Primeiro uns minutos, depois tornou-se deliberado, mesmo sem parecer. Até que a Ann passou a chamar-me a atenção, onde é que eu andava, com quem, o que é que eu fazia ... ela queria saber.

JOHN WOLF
Somos bandos errantes, que ora vão, ora voltam.

PETER
Eu era o gerente da firma do Dr. Severs, no centro da cidade. Um stand de carros de prestígio ... mercadoria de luxo ... marcas britânicas e alemãs. Recebia os clientes ... O Dr. Severs depositava confiança em mim, e que con­fiança! Foram vinte anos de colaboração, vinte anos, não foram um dia nem dois. O Dr. Severs disse-o mais de uma vez: «o Peter Weil é o meu número 1» ... Era esse o meu lugar na firma ... Recebia eu os clientes. Farejava-lhes os gostos, as vaidades, os medos, a ambição ... Era automático ... Olhava para a frota e sabia exatamente qual o carro que se ajustava. Sabia descrevê-lo com as palavras certas, e nem percebo onde as ia buscar .. , «O Peter Weil é o meu número 1». Convidava os clientes indecisos para conduzirem eles o carro, desde o stand até à baía que fica a oeste ... vi gente de uma timidez colossal entrar em acelerações incríveis ... chegar aos cem em sete ou oito segundos! Estás a perceber? ... Como é que era isto possível?!

JOHN WOLF
Não me admira.

PETER
«O Peter Weil é o meu número 1. .. ». Depois acordas uma manhã e, sem explicação, dás por ti prostrado. A capacidade de abraçar o que te pertence - filhos, posição, a casa cheia de objetos - foi-te roubada. Tudo o que de longe te acompanhava torna-se agora selvagem nas tuas mãos, como se regressasse a um misterioso estádio anterior. Assistes a isso e perguntas: o que é que aconteceu, onde é que tudo terminou?

JOHN WOLF
Mas a vida tem continuado.

PETER
Tem?

JOHN WOLF
Vieste em busca do bosque.

PETER
Ou veio a selva escura dominar de vez a minha vida. Ramos e matagal por todo o lado. Os gregos é que tinham razão. Os gregos sabiam bem ... a figura de Dafne, com Apolo por trás, assistindo impotente à sua transformação em árvore.

JOHN WOLF
Importa é que saibas o que significa estar metido num caminho da floresta.

PETER
Um dia acordamos e não tens mãos. São galhos, pinças desajeitadas cheias de folhas ... Os braços pesam-te como ramos e tu não sabes mais E quando te olhas ao espelho investe contra ti uma mata confusa.

JOHN WOLF
É porque entraste num território de fronteira.

PETER
Que longo se tornou este caminho.

JOHN WOLF
Importa agora que o faças ...

PETER
Engraçado ... aí há uns dois anos um delinquente qualquer escreveu umas tolices no muro da minha casa. Sujou-me o muro com uma frase torta: «Take my hand, I'm a stranger in paradise», Encontrei depois essas mesmas palavras em mais cinco ou seis lugares. A dada altura já me cheirava a perseguição. «Take my hand, I'm a stranger in paradise». A anotação de um marginal deixado em roda livre. Primeiro desprezei-o, que é o que se deve fazer. Mas depois aquelas malditas palavras entraram pelo meu cérebro e instalaram-se lá. Acreditas que às vezes acordo, em sobressalto, porque no momento mais profundo da noite parece que alguém as diz devagar ao meu ouvido?

JOHN WOLF (murmura)
«Take my hand, I'm a stranger in paradise».

PETER
A minha mulher acordava e ficava calada a seguir os meus movimentos. Eu disfarçava para não a preocupar ... levantava-me, ia: à cozinha beber água ou deixava-me a caminhar pela casa em penumbra ... Outras vezes aparecem-me nos sonhos, as malditas. E isso também me tira de mim. Em todo o lado vejo gente a dizê-la. Gente contratada para me enlouquecer. A rapariga da caixa do supermercado, aquele de esquina na Rua Anders, o meu antigo professor da primária, os clientes do Stand, o Dr. Severs ao telefone ... Ou vejo-a escrita por aí, gravada nos edifícios, nos contratos dos automóveis, nos néons dos telhados, na minha própria pele ... «Take my hand ... »

JOHN WOLF
Tens medo?

PETER
Sabes o que sinto?

JOHN WOLF
Sim...

PETER
Sinto que o teatro acabou.

 

José Tolentino Mendonça
In O Estado do Bosque, ed. Assírio & Alvim
22.01.13

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Capa

O Estado do Bosque

Autor
José Tolentino Mendonça

Editora
Assírio & Alvim

Ano
2013

Páginas
72

Preço
9,00 €

ISBN
978-972-37-1663-4


 

 

 

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