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O Espiritual no Desenho: os escrúpulos e o lava-pés

Uma palavra com um duplo sentido

Escrúpulo, s. m. (Lat. scrupulu(m) - areia miúda, que se mete no sapato e incomoda o pé; (fig.) - dúvida que assalta a consciência sobre se uma coisa é boa ou má, verdadeira ou falsa, certa ou incerta; receio infundado ou exagerado de haver cometido um ato mau, que de facto o não é; remorso; muito cuidado; meticulosidade (Fontinha, Novo dicionário etimológico da língua portuguesa. Porto: Editorial Domingos Barreira, s/d., p. 707).

Poderemos assumir que a utilização desta palavra se associa, sobretudo, à expressão “pessoas sem escrúpulos” - as que não olham a meios para atingir os fins. Mas também é usada quando uma tarefa se quer escrupulosamente cumprida, sem falhas. É interessante como a palavra remete para dois extremos opostos: a lentidão forçada, numa aproximação à perfeição, por um lado; e o da aceleração e avanço quase cegos, de modo a que nada abrande a rapidez de chegar à meta.

Num tempo em que a velocidade é sinal positivo, ideia de vanguarda, onde chegar primeiro é demonstração de mérito, que significado poderá ter esta palavra datada, qual pedra incómoda no sapato que nos retarda, destinada a um desaparecimento veloz já que a lentidão e tudo o que a provoca parece não se adequar à contemporaneidade? Lentidão na aprendizagem é sinal de necessidade especial, adaptação específica, alocação de recursos e estratégias pedagógicas diferenciadas, ou seja, um esforço acrescido além do ritmo expectável. Ainda neste mesmo contexto, também a velocidade também cria necessidades: veja-se o caso dos alunos sobredotados e a sua inadequação ao ritmo do grupo. Contudo, estas características são vistas quase sempre de modo positivo, numa ideia de entendimento superior e de algo a que se aspira chegar. Até no acesso à informação, a banda-larga é sempre objeto de desejo e o termo banda-lenta não é, sequer, vocabulário. Mais e mais rápido parece ser o lema da atualidade, enquanto lentidão tecnológica é menos, é ficar desatualizado, não conseguir fazer o último upgrade e, por consequência, não acompanhar o grupo, estagnar..

Poderemos então falar de uma palavra que encerra em si significados contraditórios? Talvez. Não se pretendem pessoas sem escrúpulos, mas também não as queremos com eles - lentas e vagarosas na sociedade. Mas que articulação existe entre os escrúpulos e o famoso episódio bíblico do lava-pés? Aparentemente nenhuma ou, no máximo, apenas a simples ligação entre os pés sujos e a necessidade de os limpar. O autor deste texto pretende mostrar como a liderança se faz a partir do serviço humilde. Contudo, neste contexto, a narração bíblica e os escrúpulos serão o motor que coloca em andamento um processo gestual articulado: a modificação do olhar e do desenhar. Os escrúpulos abrandarão o olhar e a viagem que antecede o lava-pés colocar-nos-á a desenhar. O ato surpreendente de Jesus e a reação de Pedro serão o mote para pensar sobre a limpeza, a depuração necessária e, sobretudo, em aceitá-la.

 

Lavar os pés antes da ceia

Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura (Jo 13, 1-5).

É conhecida esta passagem bíblica. A ceia hebraica estava prestes a iniciar-se, mas Jesus surpreende todos e, colocando-se no lugar que era dos escravos, começa a lavar os pés dos discípulos. “Naquela época os pés eram lavados pelos escravos: era uma tarefa de escravo” (Francisco, 2018). Sabemos que estavam em Jerusalém e que tinham vindo da Galileia. Uma viagem longa e com muitas paragens, obviamente, mas esta última seria a derradeira. A ceia hebraica - a Páscoa dos judeus - parecia marcar o ritmo dos acontecimentos e não havia tempo a perder, mas algo a retardou. Estariam os pés dos discípulos assim tão sujos ou existiriam alguns escrúpulos para limpar? Não podemos nem devemos assumir isso. Como já referido, o objetivo seria ampliar a mente dos discípulos à novidade de liderar pelo serviço, em atos de simplicidade: “Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás de compreendê-lo depois.»” (Jo 13, 6-7). Este grupo de discípulos estava precisamente no momento de transição entre o final da viagem e o início da chegada ao seu destino. Há toda uma história já feita e assimilada que os coloca neste momento. Este tríptico que caracteriza os evangelhos - tempo na Galileia; viagem até Jerusalém e chegada à capital hebraica - tem cada um o seu momento e nenhum se apressa. Interessante como o pensador francês Virilio (1991) se refere a estes três tempos relativos à viagem do mesmo modo, mostrando ainda como um deles está prestes a desaparecer:

A partida é um momento importante. Decidimos ir a um lugar e colocamo- -nos a caminho. A viagem é igualmente importante, pode durar muito tempo, como foram as viagens dos peregrinos, de Marco Polo, ou as viagens do homem do séc. XVIII… A chegada é um acontecimento considerável por si. A chegada depois de três meses de caminho a pé, ou após um ano de circunavegação é um evento. Três termos: partida, viagem, chegada. Mas rapidamente, com a revolução dos transportes, não haverá mais do que dois termos e meio: continuaremos a partir, mas a viagem será uma espécie de inércia, um intermédio entre a nossa casa e o destino. (…) Com a revolução dos transportes aéreos, perceber-se-á que a partida e a chegada continuam a existir, mas que a viagem não existe mais (Virilio, L’espace, le temps, la vitesse, 1991, s/p.).

 

O lava-pés desenhado por outros autores

Voltando então ao cerne da questão, como se chega ao desenho partindo dos escrúpulos e do lava-pés? Numa primeira fase, interessa destacar as várias abordagens por parte de outros autores. Escolheram-se apenas desenhos, dado o tópico desta investigação, apresentados de modo cronológico.




Observando atentamente as cinco figuras, o denominador comum é simples de constatar: o centro da ação é um homem (Jesus) a lavar os pés a outro (Pedro). As referências ao contexto envolvente variam entre o interior (figs. 1 e 2), sugestões arquitetónicas que não explicitam interior ou exterior (figs. 3 e 4) ou ausência de contexto construído (fig. 5).




Outro fator comum é a presença de múltiplas personagens que, conhecido o episódio, remetem para o grupo dos discípulos e, aqui sim, existem muitas variantes: uns observam, enquanto outros comentam entre si o que está a acontecer, havendo ainda alguns que estão a olhar para outro lado, distraídos. O trabalho de Dürer (fig. 1) é uma xilogravura e, portanto, uma obra final. Os de Rembrandt (figs. 4 e 5), apesar de estudos para futuras pinturas, vivem de forma autónoma enquanto desenhos, dado o seu traço definitivo. Mas o de Veronese (fig. 2) e de Vanni (fig. 3) são vistos apenas como esboços, um meio para chegar à Pintura, dado o seu caráter de estudo. Apesar destas observações, não se pretende outra análise ao trabalho destes autores que não esta: todos os desenhos são ilustrações da mesma passagem bíblica. São uma possibilidade de imagem literal do que se pode ler. A margem de interpretação existe e os detalhes de competência técnica também, mas o contexto não deixa dúvidas: é Jesus a lavar os pés a um dos discípulos num local onde todos os outros se encontram.

 

O desenho como resposta ao conteúdo

Árvore. Uma lenta explosão de uma semente. (Munari, Bruno, Fenomeni bifronte. Nápoles: Etra/Arte, 1993, p. 4)

Mesmo correndo riscos de generalizar, importa questionar: por que razão as narrações bíblicas influenciaram o modo de vida de judeus e cristãos ao longo de milénios mas, na Arte, são maioritariamente apenas motivo de ilustração? Como ir além de uma leitura ipsis verbis e promover uma influência mais profunda no trabalho artístico? A resposta a esta pergunta é a semente do telegráfico poema de Munari (1993), quando se refere à árvore. De tão lenta que cresce, quando nos apercebemos, já só a vemos frondosa não dando a devida atenção à sua transfiguração.

O Espiritual no Desenho pretende ser uma reflexão sobre o processo de crescimento da semente, não deixando que ela desapareça em função da pressa de chegar ao destino ou de ter uma obra final. Ainda assim, como é que os escrúpulos e o lava-pés transformam o olhar e o ato de desenhar?

 

Florença, abril de 2018

Era o primeiro dia depois da chegada. Museus, igrejas e arquitetura plenas de arte para contemplar e desenhar. Acabado de chegar, parecia que a viagem estava de novo a começar. Uma pressa de iniciar a viagem dentro da viagem parecia impor-se em crescendo. Uma urgência de chegar a algum lugar (ou a todos), ou até uma ânsia de que nada escapasse - como se fosse possível guardar todos os grãos de areia no bolso…

Obriguei-me a ir para Oltrano, o bairro popular e com menor impacto artístico, o dos artesãos. Circular por lá, encher os pés de poeira e deixar impregnar-me da vida dos florentinos para depois a desenhar do mesmo modo: enchendo a página com tudo o que me fizesse abrandar o ritmo, sinais de beleza do quotidiano, quais escrúpulos que me obrigavam a caminhar/olhar com maior cuidado. Antes de me colocar a caminho, inspirado pela dificuldade de Pedro em aceitar que Jesus lhe lavasse os pés, colei quatro post-its na dupla página do meu caderno. Era quinta feira santa e, mais à noite, a leitura do lava-pés iria ser proclamada. Queria abrir a possibilidade de lavar o desenho e entender a dificuldade de Pedro, ainda que não soubesse exatamente como. Para ele, a limpeza não seria a questão, mas sim ela vir de um mestre, situação inimaginável na sua mente.

É difícil caminhar de forma incerta, quase dadaísta (movimento das vanguardas artísticas do início do séc. XX que organizava, entre outras coisas, caminhadas sem destino pré definido), sem grande objetivo, apenas pelo ato de nos movermos, desfrutando com tempo do imprevisível. Tanto para ver, mas decidir gastar todos os segundos nas aparentes inutilidades que nos encantam o olhar - o escritor austríaco Handke (1994) intitula-as de “momentos conseguidos” - e desenhar sem a preocupação de nada mais que amontoar poeira, esses pequenos momentos, e colecioná-los como se os post-its não estivessem lá.

Decidi um ponto de partida e outro de chegada, fazendo também um pequeno apontamento esquemático do percurso e algumas anotações escritas dos locais que me prendiam o olhar. A Piazza Sauro, mesmo junto ao rio Arno, foi a primeira paragem. A partir dali, pequenos apontamentos de arquitetura e da figura humana encheram a minha dupla página. Lembrava-me das casas em que Jesus entrou e das pessoas que encontrou, umas quase anónimas e outras bem conhecidas. Também isso me aconteceu. A Piazza della Signoria, com o seu Palazzo Vecchio, impõe-se sobre tantas outras estruturas construídas pela sua altura e passado histórico, mas, ainda assim, não consegue ofuscar a beleza de uma janela entreaberta a respirar vida quotidiana, ou a mãe sentada num banco de jardim, com um olhar pensativo e respiração tranquila, à espera que o filho saia da escola.






Depois, ao final do dia tomei duas decisões: entreguei dois dos meus post-its a um outro autor, Filipe Pinto, que comigo alinhou neste exercício e recebi dele outros tantos. Descontextualizadas, as poeiras do caminho dele, quais escrúpulos, irrompiam agora a leitura do meu desenho. O terceiro e o quarto, destaquei-os e guardei-os no final do caderno. Não queremos pessoas sem escrúpulos e é preciso guardar alguns. Nos espaços vazios escrevi um excerto do evangelho de João: “Senhor, Tu é que me lavas os pés?” (Jo 13, 6). Será possível estas palavras lavarem o desenho, quebrarem a mente e provocarem um novo horizonte artístico?

Inquieto com tudo o que tinha acontecido - estaria eu também como Pedro, desconcertado com esta atitude inesperada de Jesus? - uma semana depois, repeti o exercício e coloquei-me a caminho no mesmo bairro. Colei os quatro pedaços de papel colorido e, no final, tirei-os e ficaram guardados na última página do caderno. Desenhei de modo mais organizado, fruto de um melhor entendimento do exercício a que me tinha proposto, pois quanto mais poeira se acumula pelo caminho, mais impactante é a limpeza. Largar tudo, seguir viagem e acumular poeira, sem medo do resultado final, é o único modo de obter uma boa depuração, ainda que seja preciso um desapego e humildade para nos deixarmos limpar.




Se a viagem desapareceu - metemos-nos num avião e passadas poucas horas chegámos ao destino - há que encontrá-la na chegada. A viagem talvez já não seja o percurso percorrido, mas algo que se fundiu com o local geográfico da chegada. Para os discípulos, a viagem estava concluída. Tinham chegado a Jerusalém e o mestre poderia finalmente revelar-se como Messias. O que não imaginavam é que a verdadeira viagem da vida deles estava prestes a começar. Só chegando ao destino é que o momento pascal lhes iluminou o percurso entre a Galileia e Jerusalém, uma viagem necessária para que uma outra maior pudesse acontecer.

É este o lava-pés que entra nos meus cadernos. Após a viagem, ter a humildade de reconhecer que a nossa história pessoal e profissional é fundamental como ferramenta para entendermos os pequenos sinais de beleza que nos rodeiam. Deixarmos-nos limpar é sempre um ato de humildade, é assumir que estamos sujos, ainda que não acreditemos, e, mais importante: que alguém inesperado o possa fazer por nós. Pode um desenho ser limpo pela narrativa bíblica do lava-pés? O que nos desacelera o olhar? Arriscaria apontar que as leituras bíblicas foram, nos últimos séculos, apenas um pretexto superficial para a Arte que, em alguns casos, mergulharam um pouco mais fundo, mas não deixando de estar à tona. Os próximos poderão ser profundamente influenciados por elas, não pelo imaginário que nos desperta - esse precisaria de grande reinvenção - mas pela força motriz profunda, avassaladora e inspiradora que conduzirá o olhar dos artistas que queiram mergulhar nelas.


 

Mário Linhares
Publicado em 17.04.2019

 

 

 
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