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O equilíbrio do casamento: Entre continuidade e mudança

Numa das cenas cruciais do filme “Vamos dançar?”, com Richard Gere e Susan Sarandon, decorre uma interessante troca de palavras entre a protagonista e o detetive privado que ela contratou para perceber se o marido a traía.

A mulher pergunta ao detetive: «Qual é, na sua opinião, a razão por que as pessoas se casam?».

O homem responde: «A paixão!». «Não», devolve ela. Diz ele: «É interessante, porque eu diria que é uma pessoa romântica. Então qual é?».

E a mulher explica: «Porque precisamos de uma testemunha da nossa vida… Há milhões de pessoas no planeta. Que importância tem a vida de cada pessoa? Mas num casamento, a promessa é importar-se com tudo… quer das coisas boas, quer das terríveis, ou frívolas. Com tudo, sempre, todos os dias. Quem promete, diz: a tua vida não passará sem ser notada, porque eu estou lá para a notar; a tua vida não ficará sem testemunhas, porque eu serei a tua testemunha…».

Então, no casamento não entra a paixão? Não entra o sentimento?

Talvez, mais simplesmente, paixão e sentimento não são suficientes por si só para justificar uma relação complexa como o casamento.



O casamento tem de ser redefinido por aquilo que é: uma relação pensada para durar no tempo, não uma relação a termo. É precisamente esta característica que dele faz, no plano afetivo e psicológico, um ligame altamente específico, muito diferente das outras relações, mesmo intensas e significativas



O casamento é realmente uma história na qual cada um dos dois é única e verdadeira testemunha da vida do outro: conhece o outro como ninguém, inclusive nas dobras mais secretas do ser, conhece-o e vê-o inclusive nos momentos em que ele próprio não se vê.

No casamento vemos o outro em ação a cada dia, em qualquer tipo de situação, na relação consigo próprio, além da relação com o mundo; podemos observá-lo “de costas”, conhecer lados dos quais ele próprio não tem consciência.

Vemo-lo sofrer, vemo-lo estar alegre e triste, desanimado ou confiante; vemo-lo envelhecer. Admiramo-lo, detestamo-lo, amamo-lo, rejeitamo-lo. Mas se a relação é verdadeira, o tempo torna-o cada vez mais precioso, apesar de toda a dificuldade.

Para poder ser tudo isto, o casamento tem de ser redefinido por aquilo que é: uma relação pensada para durar no tempo, não uma relação a termo. É precisamente esta característica que dele faz, no plano afetivo e psicológico, um ligame altamente específico, muito diferente das outras relações, mesmo intensas e significativas, que não têm como pressuposto partilhado o compromisso recíproco para a continuidade e duração.

Mas o projeto de fazer durar a ligame de amor “para sempre” comporta como consequência igualmente específica a necessidade de desenvolver algumas competências que não podemos dar por adquiridas: trata-se de competências necessárias para fazer frente às inevitáveis situações de crise que, mais cedo ou mais tarde, se vão apresentar, sem nunca chegar a destruir a relação.



O aparecimento de momentos de crise não pode ser considerado um facto excecional, e não indica necessariamente uma disfunção ou uma patologia do casal; cada crise tem, antes, a função de assinalar que chegou o momento de colocar em discussão o próprio ligame, para o reorganizar sobre equilíbrios novos



Isto exige ao homem e à mulher que aceitem o casamento como um longo caminho, que os coloca diante do desafio de um crescimento continuado. Quer a nível individual quer enquanto casal, têm de passar, com efeito, por numerosas mudanças e momentos de renegociação da sua relação, porque a decisão inicial não é senão o primeiro ato de uma longa aventura, interessante e riquíssima.

Ler o casamento como um processo dinâmico é muito importante: a relação de casal, efetivamente, não pode ser pensada como algo de estável e definido de uma vez por todas, porque a mutação da vida no tempo e a evolução pessoal de cada um tornam necessárias contínuas adaptações recíprocas.

O desafio é o de encontrar um justo equilíbrio entre a continuidade e a mudança: continuidade que permite encontrar e manter a identidade única da relação, mudança que permite a cada um continuar a crescer, sempre no respeito pelo outro.

Precisamente em consequência de tudo isto, o aparecimento de momentos de crise não pode ser considerado um facto excecional, e não indica necessariamente uma disfunção ou uma patologia do casal; cada crise tem, antes, a função de assinalar que chegou o momento de colocar em discussão o próprio ligame, para o reorganizar sobre equilíbrios novos, e introduzir as mudanças necessárias para que a relação se mantenha ao mesmo tempo estável e sempre vital.


 

Mariolina Ceriotti Migliarese
Neuropsiquiatra infantil, psicoterapeuta
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: dissx/Bigstock.com
Publicado em 13.08.2020

 

 
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