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Rua da Saudade

O dom de Fátima

No dia 2 de dezembro de 2017, a convite do amigo Pedro Valinho Gomes, pronunciei a conferência «Dar graças pelo dom de Fátima», na Jornada de Abertura do Ano Pastoral, no Centro Pastoral Paulo VI.

Não podia imaginar que, depois desta conferência, viriam outros projetos e outros trabalhos, sobretudo a colaboração na Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis do Processo de Beatificação e Canonização da Irmã Lúcia, com a redação da sua biografia.

Partilho aqui uma parte dessa reflexão, publicada no Guia do Peregrino 2017-2018 – Tempo de Graça e Misericórdia, Santuário de Fátima, 2017 [pp. 19-30].



Imagem Cova da Iria, 13 de outbro de 1917 | Santuário de Fátima | D.R.


Fátima entrou bem cedo na minha vida, como consequência natural de ser português e ter nascido na década de 70. A minha mãe pertenceu àquela geração de mulheres que ofereceu o vestido de noiva ao Santuário, como expressão devocional da sua gratidão por o meu pai ter escapado à Guerra Colonial.

Descobri recentemente uma fotografia que me retrata, com uns três anos, diante da Basílica, mas a minha memória mais antiga de Fátima remonta ao princípio da década de 80: teria uns seis anos e fui cumprir uma promessa da minha avó paterna que – esgotadas as intercessões a Santa Luzia – prometeu que eu iria à Capelinha das Aparições vestido de anjo se Nossa Senhora me curasse de um problema ocular congénito. Não tive, então, coragem de dizê-lo, mas confesso que me questionei: se foi a minha avó a fazer a promessa, por que motivo não ia ela vestida de anjo? A verdade é que, apesar de me sentir incómodo naquela situação, confortavam-me os óculos que, entretanto, o oftalmologista me receitara e com os quais passei – literalmente – a ver o mundo. E os óculos ficaram associados a uma bênção: a criança que eu fui intuiu ser quase uma cura aquilo que, hoje, os meus filhos diriam tratar-se apenas uma espécie de upgrade.

Uma e outra vez, a família reuniu-se em Fátima, como expressão devocional de um catolicismo sociológico que em Portugal ainda move multidões. Desse tempo, guardei um cosmorama de plástico verde, com o formato de um televisor e o funcionamento de uma máquina fotográfica, onde se viam imagens de Fátima e mecanicamente se reproduzia a narrativa visual da «visitação» da Mãe de Jesus àquelas três crianças que habitavam um «país real» que era a periferia da periferia, interlocutores da transcendência tão improváveis como aqueles que – com os olhos de criança – conheci nas páginas da minha Bíblia ilustrada. Quantas vezes visitei, através do óculo daquele cosmorama, esse lugar onde milhares de pessoas se ajoelhavam com um pressentimento de hierofania, entre a catarse e o paroxismo.

Conservo ainda – em memória profunda – essa narrativa da infância e não permito que o teólogo a venha esquadrinhar. Ainda hoje me deixo comover por aquelas três crianças, cuja história nunca me pareceu minimamente «edificante»: esse tipo de histórias «limpas», que aconchegam o corpo ao sono e que são um lenitivo, mas sem nunca deixar de ser um placebo. Aprendi cedo que as grandes histórias raramente são edificantes. As minhas primeiras leituras foram as narrativas dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e de Oscar Wilde. Mais tarde, de Shakespeare a Dostoievski, as grandes leituras da minha vida nunca desmentiram a verdade dessas primeiras histórias. A minha Bíblia ilustrada, com que povoei de História da Salvação o meu imaginário, não tinha qualquer cosmética; não havia a censura do «biblicamente correto». Estava tudo ali, como na vida: a vingança e o amor, a traição e a fidelidade, a violência e a bondade, a ira e a misericórdia. Como eu gostava da narrativa de Jonas e do grande peixe… Como fugir de Deus?

E é por isso que me repugna uma certa exegese e homilética de feição edificante. Preocupa-me que se omitam ou se contornem as leituras difíceis.



Imagem Cova da Iria, 13 de outubro de 1917 | Santuário de Fátima | D.R.


Mas pensemos na Cova da Iria, em 1917: era um desses lugares onde não poderíamos ser visitados, tal como Nazaré nunca poderia ter sido o lugar aonde Deus enviasse o anjo. Está tudo certo. Em 1917, a esmaecida Europa cristã era uma espécie de casca frágil que as trincheiras e as valas comuns, ao modo das fronteiras, partia impiedosamente; e Portugal, que na sua automitografia se arrogou objeto de uma particular predileção divina, era pouco mais do que uma nação periférica, vítima endémica de pobreza, analfabetismo e outras pandemias. E é na periferia dessa periferia, num desses baldios do mundo, que por meio dessas crianças fomos visitados.

Sempre me irritou aquele catolicismo nacionalista que usou uma mariologia envesgada como arma de arremesso contra os histerismos e os rancores anticlericais que, em Portugal, foram sempre tão institucionais quanto um certo clericalismo provinciano, com os seus caciques e provisionamentos de retórica bafienta. Sempre me irritou aquela fação snob – dentro e fora da Igreja – que paternalisticamente considerou e considera Fátima um entretenimento religioso para a turbamulta. E sempre me irritaram aqueles cristãos que viram e veem Fátima como uma «tábua de salvação» para a Igreja portuguesa. Digamo-lo sem medo: Fátima é circunstancial e só assumindo desarmadamente esta perspetiva é que poderemos dar graças pelo dom de Fátima. É circunstancial, mas é à luz do circunstancial que o essencial frutifica, na vida de cada um, em estado de graça. E é à luz do essencial que podemos dar graças pelo dom do circunstancial.

Não faltarão especialistas a refletir sobre o fenómeno de Fátima desde a perspetiva da Teologia ou da História; eu prefiro concebê-lo poeticamente: para mim, Fátima é uma poética.

 

Proponho assentar esta reflexão na narrativa de Marcos 5, 21-43: logo no cais, Jesus é cercado por uma multidão; um homem chamado Jairo aproxima-se e suplica-lhe que o acompanhe, na medida em que a sua filha está a morrer. É relativamente simples concebermos um arco entre a súplica de Jairo e a poderosa expressão Talítha kum, que despertará a menina de doze anos. Mas o que me parece mais impressionante nestes 22 versículos é essa espécie de interlúdio que se representa sob a cúpula do arco narrativo: o evangelista fala-nos de uma hemorroísa, uma mulher que tinha há doze anos um fluxo de sangue e que muito sofrera nas mãos de vários médicos, tendo gasto tudo o que possuía sem nenhum resultado e assistindo, impotente, ao agravamento da sua situação. Esta mulher tinha ouvido falar de Jesus e, vendo-o passar na direção da casa de Jairo, pensa para si: «Se ao menos tocar as suas roupas, serei salva».

Facilmente censuraríamos a pretensão desta mulher: é ingénua e reduz a soteriologia a uma interseção. No meio da multidão, a mulher consegue tocar as roupas de Jesus, essa orla do manto. E Jesus sente-se tocado. E é no toque pressentido que acontece o encontro e a cura: «A tua fé te salvou».

 

A orla do manto é uma periferia do corpo, uma extensão distanciada pelo movimento. Sentir o toque nas roupas é pressentir-se tocado, apesar da morte iminente da filha de Jairo. E a mulher é um corpo que sangra e que se dispõe à cura.

 

Agrada-me que sejamos teologicamente rigorosos. Substitua-se «aparição» por «visão». Nihil obstat. Hoje prefiro o rigor poético: o que aqui aconteceu foi uma «visitação». Ou seja: na visão daquelas três crianças, fomos visitados.

E, como disse inicialmente, a graça implica esse tempo em que somos visitados, com a consciência de que deixar-se visitar implica o elemento de expectativa, como nos recorda Paul Tillich: «Não é fácil pregar cada domingo sem se elevar a pretensão de possuir Deus e de poder dispor dele. Não é fácil pregar Deus às crianças e aos pagãos, aos céticos e aos ateus, e ter de lhes explicar, ao mesmo tempo, que nós próprios não possuímos Deus, mas que o esperamos. Eu estou convencido de que a resistência ao cristianismo vem em grande parte do facto dos cristãos, abertamente ou não, erguerem a pretensão de possuir Deus e terem assim perdido o elemento de expectativa».

Fátima é um lugar onde nos expomos à misericórdia de Deus, um lugar de espera… onde somos visitados. Na urdidura de tantos desencontros, nas arestas de tanta desesperança, recordo o final desse extraordinário Diário de um Pároco de Aldeia, de Georges Bernanos: «Que importa? Tudo é graça».

 

Quantas vezes escutei o discurso que censura o masoquismo dos peregrinos de Fátima, as promessas que impõem sacrifício, essa espécie de catarse que mutila o corpo. Não contra-argumento. Por um lado, percebo a censura e aceito-a quando não traz o veneno do cinismo de quem se arroga de uma qualquer superioridade moral. Por outro lado, não consigo censurar esses peregrinos, essa gente despojada, ensimesmada no seu drama íntimo, para quem a soteriologia não se traduz senão numa interseção [com «s» e «ç»: esse ponto em que dois caminhos se encontram], numa interseção e numa interceção [com «c» e «ç»: o ato de intercetar], numa interceção e numa intercessão [com «c» e «ss»: para que o tangível interceda no intangível].

Inquieta-me e comove-me. Tendo arriscado afirmar que Fátima é uma poética, a estas interseções, interceções e intercessões, terei de chamar humildemente «sacramento da cura». Digo-o, porque era eu a criança que trazia na mão a vela a arder e ia vestido de anjo; e havia pessoas de joelhos… uns sangravam, outros choravam compulsivamente. Eu estava no vórtice do paroxismo, sem saber ainda o significado de vórtice nem o de paroxismo; sem saber ainda que essencial era a situação da filha de Jairo, a menina moribunda com doze anos; sem saber ainda que a situação da hemorroísa, há doze anos enferma, era apenas circunstancial. Só aceitando que a situação da hemorroísa era circunstancial, é que podemos dar graças pelo dom de Fátima: porque Fátima é a orla do manto, lugar de interseção, interceção e intercessão, a periferia onde acontece a cura – «A tua fé te salvou».

Creio que só o perceberemos se aceitarmos que Fátima é uma poética e que as grandes histórias não são edificantes. Digo-o, porque era eu a criança que estava no vórtice do paroxismo e estava cercado de pessoas que traziam no rosto a erosão dos caminhos e das encruzilhadas. E por entre as ruínas dos corpos, uma luz parecia irromper. Através das grossas lentes dos meus óculos, aquelas pessoas pareciam curadas. Hoje, passados tantos anos, parece-me evidente: Fátima é a orla do manto, um lugar onde os peregrinos procuram tocar… e acabam tocados.

Jesus está a passar, focado na casa de Jairo… e – aqui – alguém segreda a si mesmo, na intimidade obscura da sua enfermidade: «Se ao menos tocar as suas roupas…». É verdade que a narrativa não termina no versículo 34. No final, escutar-se-á esse impressivo Talítha kum. Por isso é circunstancial o fenómeno de Fátima. Neste intervalo há o toque que dirime o que medeia o tangível e o intangível; acontece o encontro e escuta-se: «A tua fé te salvou». É circunstancial. Como não dar graças por este dom?


 

José Rui Teixeira
Investigador, poeta
Imagem de topo: Gabriel Pacheco | D.R.
Publicado em 18.08.2020

 

 

 
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