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O Dia Mundial do Doente com o Evangelho, Rembrandt e papa Francisco

O percurso de meditação e ação da Igreja seguidamente proposto para o Dia Mundial do Doente (11 de fevereiro) quer realçar que a fragilidade de muitas pessoas doentes, portadoras de deficiência, frágeis no corpo e na alma, idosos sós, consegue encontrar significado na relação com Cristo, e, em reflexo, na partilha com os irmãos.

A condição humana da relação é a única que exprime e permite a fraterna solidariedade. Não esqueçamos que cada um de nós é fruto do cuidado dado à nossa incapacidade de sermos autónomos. A fragilidade define-nos, é causa de necessidade, mas também motivo de dom.

Nunca como no tempo de pandemia que estamos a viver somos chamados de maneira decidida a reapropriarmo-nos da dimensão da finitude. E é reconhecendo nela que a relação de cuidado e ajuda nos abre ao dom, nos conduz ao outro, à realização cristã e humana de si na comunidade.

 

Passagem bíblica

«Naquele dia, ao entardecer, Jesus disse: “Passemos para a outra margem”. Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. Acordaram-no e disseram-lhe: “Mestre, não te importas que pereçamos?”. Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: “Cala-te, acalma-te!”. O vento serenou e fez-se grande calma. Depois disse-lhes: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”.»



Imagem “Cristo na tempestade no mar da Galileia” (det.) | Rembrandt van Rijn | 1663 | Isabella Stewart Gardner Museum, Boston, EUA


A pintura

A restituição detalhada da cena, as expressões diferenciadas das figuras, a pincelada relativamente límpida e a coloração brilhante da obra são características típicas do primeiro estilo de Rembrandt, que os críticos do século XVIII preferiam muitas vezes à sua pintura mais tardia, mais ampla e menos descritiva.

O episódio bíblico contrapõe a natureza à fragilidade humana, quer física quer espiritual. Os discípulos, tomados pelo pânico, lutam contra uma tempestade inesperada, e procuram retomar o controlo do seu barco de pesca, enquanto uma onda enorme embate contra a proa, arranca a vela e impele a embarcação, perigosamente próxima das rochas, em primeiro plano à esquerda.

Um dos discípulos, subjugado pela violência do mar, vomita para fora de bordo. No meio deste caos, somente Cristo, à direita, permanece calmo, quase como se fosse Ele o olho da tempestade.

Despertado pelos apelos desesperados dos discípulos, ergue-se para acalmar a fúria do vento e das ondas, e censura os discípulos, dizendo: «Porque estais tão amedrontados? Ainda não tendes fé?».

A fúria da tempestade é tanto causa como metáfora do terror que atinge os discípulos, amplificando a sua desorientação emocional, e portanto o impacto dramático da imagem.

A pintura mostra a capacidade do jovem Rembrandt de representar não só uma história sacra, mas também de capturar a atenção do espetador, colocando-o dentro de um autêntico drama pictórico em curso.

O espetáculo de obscuridade e luz formado pelo mar em borrasca e pelo céu que está rapidamente a enegrecer atrai imediatamente a atenção do espetador.

As reações de terror dos discípulos, todas minuciosamente descritas, geram depois um forte envolvimento empático. Só uma figura, provavelmente um autorretrato do próprio Rembrandt, olha diretamente para o observador, tornando-o, se possível, ainda mais participante da ação dramática.



Imagem “Cristo na tempestade no mar da Galileia” | Rembrandt van Rijn | 1663 | Isabella Stewart Gardner Museum, Boston, EUA


Propostas de reflexão

A passagem bíblica é tica de provocações e desafios em torno a nunca adormecida questão da fé/confiança.

1. A condição do discípulo de Jesus é paradoxal: significa encontrar-se na barca da vida não isenta de tempestades, pronto a enfrentar os perigos que a travessia comporta, na certeza de viver esta experiência junto de outros irmãos, para os quais serem provados por causa de Jesus significa verdadeiramente ser seus discípulos.
Como nos colocamos perante as dificuldades das nossas escolhas de fé? Gritamos amedrontados e sem confiança, ou, invocando-o, estamos em paz, não nos afogamos na nossa angústia?

2. Ele dorme, mas está presente: que recursos dá Jesus a quem tem fé nele? O que significa ter verdadeiramente fé em Jesus?

3. A serenidade, a calma como sinal da fé, é decerto uma conclusão do texto do evangelista Marcos. Em que se distingue de um sedativo químico, de um tratamento terapêutico ou de uma consolação profissional, afetiva, filosófica? Qual é a raiz da segurança que dá a fé em Cristo? Que efeitos produz? Como se compagina com a busca de tranquilidade e paz que cada ser humano se propõe?

4. «Quem é este ao qual os ventos e o mar obedecem?»: em que ponto se encontra a minha busca de fé? Por que passagens se move? Encontra correspondência no itinerário indicado pelo texto evangélico?

5. Estar na mesma barca, acompanhados por Cristo. Estou consciente da dimensão comunitária e social da experiência da minha vida, sobretudo nas condições de fragilidade, sofrimento, doença?

 

A palavra do papa Francisco

Propomos algumas passagens, simples “flashes”, extraídas da homilia pronunciada pelo papa durante o momento extraordinário de oração em tempo de pandemia, na praça de S. Pedro, a 27 de março de 2020.

«Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer», assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos. (…)Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus?»

«A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades; (…) e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.»

«Avançámos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-te: “Acorda, Senhor!”»

«”Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (…)´Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros.»

«Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio.»

«O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. (…) Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Isaías 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.»

«Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar.»

 

Propostas para a ação da Igreja

A doença faz parte do percurso terreno, e o crente, com a ajuda de Cristo, aprende a reconhecer nela um acontecimento da vida carregado de significados.

Quando isso acontece, a doença é pedagogia para todos: faz aprender o reconhecimento a Deus pelos muitos dons recebidos; impele a rezar por quem está em provação a apreciar o bem oculto, a redimensionar os problemas pessoais; faz reencontrar simplicidade e humildade, e estimula uma maior disponibilidade para com os outros; convida a aprofundar a pergunta sobre o sentido da vida.

Ao frequentar as pessoas em sofrimento, aprende-se a escutar mais, a encorajar, a realizar também os serviços mais humildes para ajudar o outro, a não fugir da realidade quotidiana.

1. Para conselhos pastorais paroquiais, associações de serviço aos doentes

a) Realizar um mapa das realidades de saúde presentes no território, divididas por categorias, indicando a qualidade da assistência presente, as prioridades nas quais deve haver intervenção, e as modalidades dessas intervenções.

b) Especificar uma rede de entidades com as quais se pode partilhar reflexões e projetos.

2. Para os agentes da Igreja comprometidos nos vários espaços de tratamento

a) Promover, entre todos, momentos de encontro nos quais se partilha a experiência de contacto com a dor e o sofrimento, e apoiar-se mutuamente no trabalho quotidiano.

b) Fazer com que as boas práticas sejam veiculadas (como, no tempo do confinamento), inclusive através da utilização da internet e dos instrumentos informáticos, entre quantos trabalham no interior das estruturas de saúde e assistenciais.

3. Para os voluntários de associações e grupos presentes nas comunidades cristãs

O serviço aos doentes exercido pelos crentes, além de obedecer às exigências deontológicas, deve manter sempre uma referência constante ao transcendente. O doente não deve ser abandonado na solidão ao sofrimento, nem à mercê do desalento e da resignação.
Nestes percursos de humanidade, e ao mesmo tempo de fé, é necessário crescer na formação espiritual, e educar-se para a relação com quem sofre. Para estes efeitos, poderá ser útil:

a) Incentivar um diálogo mais denso entre estruturas de saúde e voluntariado, para construir uma rede dentro da qual o doente não se sinta abandonado quando lhe é dada alta.

b) Promover centros de ajuda mútua paroquiais e de elaboração do luto, especialmente em apoio às famílias que tiveram de enfrentar acontecimentos dramáticos devidos às medidas de emergência sanitária ligadas ao Covid-19.

c) Veicular a visão cristã do ser humano e do sofrimento, inserindo-a em jornadas dedicadas a temas de saúde (por exemplo, luta contra a lepra, investigação sobre tumores, distrofias, leucemias).

d) Estruturas a atividade e a catequese para os jovens de maneira a garantir uma sua presença regular junto dos doentes e nos lugares e situações de fragilidade.

4. Para os ministros extraordinários da Comunhão

a) Desenvolver catequeses à comunidade sobre o sacramento da Unção dos Doentes, para o fazer compreender melhor e redescobrir, e informar sobre os modos de o pedir e receber.

b) Promover a presença e cuidar da formação dos ministros extraordinários da Comunhão, quer sobre a vertente teológico-litúrgica, quer sobre a da relação com o doente e do apostolado para os familiares.


 

In Pastoral da Saúde da Igreja católica em Itália
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Cristo na tempestade no mar da Galileia” (det.) | Rembrandt van Rijn | 1663 | Isabella Stewart Gardner Museum, Boston, EUA
Publicado em 10.02.2021

 

 

 
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